A expansão do Brics em 2024, que prometia um “Sul Global” mais robusto, enfrenta em 2026 seu cenário mais hostil. A escalada militar no Oriente Médio, envolvendo ataques diretos entre potências e o bloqueio de rotas vitais, colocou o bloco em um campo minado diplomático. O desafio agora é evitar que a solidariedade interna colida com as alianças militares de seus novos membros, transformando o que era um motor econômico em um fórum de impasses.
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A fragilidade que ajuda
A turbulência na relação dos membros da cúpula do Brics fortalece diretamente o interesse do presidente norte-americano Donald Trump, que é abertamente contra a organização.
Com a guerra se potencializando e as últimas notícias acerca do petróleo, as relações dentro da cúpula se estremeceram. Na opinião de Marta Fernández, diretora do Brics Policy Center e professora da PUC-Rio, em entrevista ao jornal O GLOBO, o conflito acaba aprofundando divergências que já vinham se tornando visíveis. “De certa forma, o cenário pode acabar servindo aos objetivos políticos do presidente americano. A guerra agora contribui para ampliar divisões dentro do grupo”, declarou.
A paralisia das cúpulas
A falta de uma “arquitetura de segurança” comum já produz efeitos práticos: o cancelamento de reuniões ministeriais de alto nível. Para o Itamaraty, o medo é a “securitização” do grupo. O Brasil teme que o foco em conflitos bélicos afaste o Brics de suas pautas históricas, como a desdolarização do comércio e a reforma do Conselho de Segurança da ONU.
Tentar transformar o Brics em aliança militar agora pode simplesmente paralisar o bloco. O professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e coordenador do Laboratório de Análise Política Mundial, Rubens Duarte, declara que “o Brics é um grupo de concertação política que busca a reforma do multilateralismo. Foi criado para fortalecer a inserção internacional dos países-membros, mas nunca foi pensado como uma aliança militar”.
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O petróleo a US$ 100 e o Estreito de Ormuz
Para além da retórica, o que realmente tira o sono dos integrantes do bloco é o barril de petróleo ultrapassando a barreira dos US$100. A ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz — por onde escoa o suprimento energético mundial — une os membros em um pragmatismo forçado: a necessidade de rotas comerciais estáveis.
No entanto, o consenso termina aí. Enquanto o Irã pressiona por uma postura assertiva contra as ofensivas ocidentais, membros como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos operam sob cautela, equilibrando sua autonomia com laços históricos de segurança com Washington.
*Com edição de Luiz Daudt Junior.

