Mesmo sob um sol de 35ºC ou mais, quem passa pela Avenida Beira-Rio, em Joinville, encontra um homem vestido com camisa social caminhando entre os carros, tentando conquistar o pão de cada dia. José Leal dos Santos carrega nos braços panos de prato, os quais vende no trânsito da cidade, aos 57 anos. 

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Quando o semáforo fica vermelho na esquina entre a Rua Max Colin e Avenida José Vieira, o homem passeia entre os veículos vendendo o tecido que enxuga as louças. José está presente naquela esquina de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Leva o trabalho de vender panos de pratos tão a sério quanto encarava o antigo serviço de pedreiro. Às vezes, na falta dos panos, pode ser encontrado vendendo balas.

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Todo o serviço é feito para levar para casa o dinheiro que vai colocar comida na mesa e comprar os remédios que ele e a esposa, que possui artrose no joelho, precisam. No fim do dia, quando o expediente acaba, José sobe no ônibus em direção ao Petrópolis, onde mora. No outro dia de manhã, pega a condução e retorna ao mesmo ponto para recomeçar mais um dia de trabalho.

No meio do expediente, troca algumas palavras com os motoristas, curiosos com sua presença e seu trabalho. Alguns lhe perguntam de onde veio e qual o motivo de trabalhar sob o sol escaldante todos os dias da semana.

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José conta que veio do Paraná para Joinville em 2002. Pouco tempo antes, conheceu a esposa, em Curitiba. Os dois fizeram as malas e escolheram chamar a maior cidade do estado de casa. O motivo da mudança? O trabalho.

— Sou pedreiro. Trabalhei o tempo todo de pedreiro e eu fui acidentado, não pude mais trabalhar. Eu tenho pinos de platina na perna, que dói muito. Então, comecei a vender panos de prato aqui — diz.

O vendedor que já foi pedreiro, além de fazer morada em Joinville, construiu muitas coisas por aqui. Por volta de 2005 ou 2006, já que lhe falha a memória, ajudou a pôr de pé o imóvel que hoje abriga a Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (Dpcami), na Rua São Paulo. Em 2012, atuou na ampliação e construção de novas áreas no Hospital Dona Helena, na Rua Blumenau.

Entretanto, um acidente interrompeu os trabalhos de José. Ele foi atropelado na saída de uma obra e, como conta, precisou passar por cirurgia que colocou pinos em sua perna. Sem conseguir trabalhar, tentou se afastar por auxílio doença, mas os pedidos sempre foram negados. Há cerca de oito anos, então, decidiu vender panos de prato.

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— Tinha um amigo meu que vendeu [panos], ele tinha fornecedor. Daí, ele me chamou para eu vender com ele, que eu não podia pegar [do fornecedor] e eu comecei a vender com ele. Agora eu pego por conta — explica.

Em alguns dias, porém, chega a ficar sem os panos. O motivo faz parte da realidade de muitos trabalhadores: a falta de dinheiro e de assistência.

— Eu hoje estou vendendo balinha porque o meu pano acabou. Preciso comprar mais. Não tenho porque eu tive que gastar um dinheiro com remédio. Toda semana tenho que comprar remédio. Eu vou gastar o dinheiro para pegar o pano ou gasto com remédio — conta.

Mas, José não se deixa abalar. Ainda que a vida seja carregada de dificuldades, segue persistente. Trabalha para levar vida digna para ele, a esposa e o gatinho da família. Há dias em que aproveita para descansar, assistir TV, ver o filho casado e ir ao culto, renovar a fé. 

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