Nas típicas tardes de calor em Joinville, quem passa pela frente da casa do seu Walter Pries o encontra com seu clássico chapéu, sentado em um banquinho de madeira debaixo das sombras das árvores que tomam o quintal. Aos 90 anos, o morador do bairro Bom Retiro admira o terreno compartilhado com um Centro de Educação Infantil (CEI) repleto de flores, pés de frutas e pequenos equipamentos de jardinagem, usados pelas crianças na horta.

Continua depois da publicidade

Descendente de alemães, Walter nasceu em Garuva, cidade a cerca de 38 quilômetros da maior cidade de SC, e viveu a infância na área rural do município. Em uma das passagens por Joinville, ele viu uma cidade ainda em crescimento, com ruas sendo pavimentadas, além de casas e prédios históricos ganhando forma. Na época, ainda jovem, viu o próprio prefeito com a “mão na massa”, bem no centro da cidade.

— Em 1949, eu tinha uma tia aqui perto da Rua Doutor João Colin, era chamada de  “Estrada do Norte” na época. Aí, um dia à noite, eu vim a pé visitar a tia e estava lá, o doutor João Colin, ajudando a botar paralelepípedo — relembra.

As faces de Joinville: quem são as pessoas que constroem o dia a dia da maior cidade de SC

Já na década de 50, após viver um período nas fazendas de Campo Alegre e Rio Negrinho, onde começou a trabalhar como alfaiate, se mudou com a família para Joinville. Casou-se em 1956 e, junto com a esposa e dois filhos pequenos, morou em Brasília de 1964 a 1976.

Continua depois da publicidade

Figurinha carimbada em churrasco com Oscar Niemeyer

Durante o período na capital brasileira, seu Walter trabalhou como auxiliar do laboratório e operador de máquinas na companhia de água local, mas manteve o serviço como alfaiate em paralelo. Entre um trabalho e outro, o catarinense vestiu embaixadores e ministros com ternos para eventos importantes.

Naquele tempo, seu Walter frequentava uma conhecida churrascaria de Brasília e teve a oportunidade de participar de jantares com nomes que marcaram a história do Brasil, como Oscar Niemeyer, o arquiteto responsável pelo planejamento de Brasília.

Um dos trabalhos recorrentes, graças ao ofício de alfaiate, era costurar a bandeira brasileira hasteada na capital.

— O que eu consertava muito era a bandeira da embaixada porque desfiava muito, o vento não parava. A nossa bandeira brasileira, era 20 por 40 metros, ela não ficava parada. Uma hora tem que estar consertando. Eu tinha que cortar os fiapos vez ou outra, fazer nova bainha — conta.

Continua depois da publicidade

Após o período na capital, Walter vendeu a casa onde morava, voltou com a família para Joinville e se estabeleceu no bairro Bom Retiro, onde mora na mesma casa há 50 anos. Décadas mais tarde, um CEI foi inaugurado do outro lado do muro e os dias do senhor nunca mais seriam os mesmos.

Como o alfaiate se tornou o “vô” do bairro

Após passar anos no mesmo bairro, o senhor de 90 anos viu muita coisa mudar na região Norte da cidade, onde vive dias tranquilos com a esposa. Ele relembra que no passado ainda não havia muitas casas construídas por ali. Inclusive, o espaço era tomado por um pasto com criação de gado e nos fins de semana se tornava um campo de futebol de times amadores.

— No domingo, para jogar uma partida, tinha que primeiro a turma limpar a sujeira da vaca — brinca.

Em contraste com o vazio daquela época, atualmente os dias do seu Walter são preenchidos com as risadas e agitação dos pequenos do CEI Adolfo Artmann. Há alguns anos, o vizinho doou parte do próprio terreno para que fosse criada a horta da unidade educacional, que é cuidada pelas próprias crianças em um projeto pedagógico que as aproxima da natureza.

Todos os dias, a horta compartilhada se torna cenário de brincadeiras com o “vô Walter”, que se diverte ao receber os estudantes. A iniciativa se tornou um espaço de troca entre gerações, fortalecendo vínculos e promovendo aprendizado mútuo.

Continua depois da publicidade

—  Quando eles vêm aqui, a diretora até me deu um banco ali, que tem que ligeiro ir sentar, eles vêm abraçar. A professora que me segura — fala. 

Entre plantações, piqueniques e brincadeiras, ele conta que essa rotina ao lado dos pequenos é a sua “vitamina diária”. Para o seu Walter, poder compartilhar seu tempo com os pequenos é um presente para si próprio.

— Eu sou eternamente uma criança. Então, compartilho isso com eles. É uma alegria. Não tem preço isso — conta.

Há cerca de 10 anos, ele lembra que ficou 43 dias internado após exames detectarem pedras na vesícula. Naquele período no hospital, o “vô Walter” fez falta para as crianças, que não o encontravam ao cruzar o portão que separa o CEI da casa do senhor.

Continua depois da publicidade

— Mandaram foto, carta para mim. Tudo em envelopinho, me desenhando. “Vô. fica bom logo”, “vô, estamos com saudade — lembra Walter do que as crianças escreviam.

Parte dessa história, inclusive, foi registrada no livro “Horta pedagógica: laboratório vivo, território de aprender – Experiências inspiradoras na Rede Municipal de Ensino de Joinville”. Além das crianças, mesmo os adultos que conheceram o simpático senhor de chapéu quando eram mais jovens, ainda passam pela rua e continuam o chamando de “vô”.