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    O xadrez on-line prospera, apesar da pandemia

    Enquanto o surto forçou a maioria dos esportes ao redor do mundo a interromper suas atividades, o xadrez não só encontrou uma maneira de se manter vivo como está prosperando em certos aspectos

    15/05/2020 - 13h32

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    Por The New York Times
    xadrez
    (Foto: )

    *Por David Waldstein

    Eram oito da manhã de uma terça-feira recente, em St. Louis, quando o mestre americano de xadrez Fabiano Caruana, o segundo melhor do mundo, moveu seu peão para a casa E4.

    Eram seis e meia da tarde, a mais de 12.875 quilômetros de distância, em Nashik, na Índia, quando seu oponente, Vidit Gujrathi, respondeu, de sua casa, poucos segundos depois do movimento inicial de Caruana: peão para E5. E assim começou a Copa On-line das Nações, um torneio de xadrez internacional sem precedentes, nascido da pandemia do coronavírus.

    Enquanto o surto forçou a maioria dos esportes ao redor do mundo a interromper suas atividades, o xadrez não só encontrou uma maneira de se manter vivo como está prosperando em certos aspectos. As últimas semanas têm testemunhado um crescimento no número de pessoas que acompanham alguns eventos de xadrez profissional de alto perfil que se realizam on-line.

    Este mês, a Copa On-line das Nações reuniu 36 dos melhores jogadores do mundo, cada qual em sua casa, em vários fusos horários diferentes, do Brooklyn a Pequim. Eles estão movendo as peças nos tabuleiros de xadrez de seus laptops em uma competição que, em sua essência, é o mesmo jogo que disputariam em condições normais.

    O torneio pode ser visto em várias plataformas, oferece um prêmio recorde de US$ 180 mil e está sendo transmitido em uma dúzia de idiomas. "É uma das maiores coisas que já fizemos no chess.com", disse Daniel Rensch, cofundador do site, que comenta as partidas ao vivo.

    As versões de videogame da maioria dos esportes envolvem conjuntos de habilidades totalmente diferentes das reais; manipular um controle remoto de um sofá tem pouca semelhança com ser confrontado por um atacante de 136 quilos. Mas o xadrez on-line é essencialmente o mesmo jogo, e, quando outros esportes foram paralisados em março, em âmbito mundial, os fãs ficaram famintos por algo para assistir – e fazer.

    Com esse novo tempo livre em mãos, milhões de pessoas recorreram ao xadrez on-line. "A participação on-line dobrou, pelo menos dobrou", informou Arkady Dvorkovich, presidente da Fide, órgão mundial do xadrez, que está coorganizando a Copa On-line das Nações juntamente com o chess.com.

    A enxurrada de entusiasmo fez com que o chess.com e outros grandes sites de xadrez, como o Chess24 e o Lichess, precisassem se esforçar para acompanhar. Nick Barton, diretor de desenvolvimento de negócios do chess.com, comentou que a capacidade do servidor precisou ser aumentada para atender à demanda, que técnicos e engenheiros tiveram de fazer hora extra e que ainda assim tiveram de contratar mais pessoas para atender a plateia global.

    As paralisações fizeram com que a maioria dos torneios ao vivo, geralmente realizados em arenas, salões de hotéis e salas de convenções, fossem cancelados, e para a maioria deles não houve substituição. Quando a Olimpíada do Xadrez, que se realiza a cada dois anos – um grande evento de equipe marcado para agosto, em Moscou –, foi postergada para o ano que vem, a Fide e o chess.com criaram um conceito que já vinham discutindo havia anos: um novo evento de equipe on-line.

    Eles o montaram em cerca de três semanas, e a maioria dos melhores mestres do mundo se inscreveu, exceto Magnus Carlsen, que ocupa a posição de número um e que acabou de sediar seu evento on-line particular recentemente.

    Carlsen venceu o evento no dia três de maio e, quando acabou, Jan Gustafsson, o mestre que estava comentando, agradeceu aos fãs pela audiência. Ele também acrescentou: "Não que vocês tenham outras opções. Vamos ser sinceros: não há outros esportes sendo praticados."

    Mas há xadrez de verdade e, dois dias depois, a Copa On-line das Nações começou como o evento de equipe on-line com mais dinheiro de todos os tempos, com a equipe vencedora dividindo US$ 48 mil. É uma competição de dois turnos que dura seis dias, na qual as seis equipes jogam entre si – Estados Unidos, China, Índia, Rússia, Europa e uma chamada Resto do Mundo.

    Houve algumas pequenas falhas, como quando a chamada do Zoom da equipe da Europa caiu rapidamente no dia dois. Mas, depois de quatro rodadas, com 24 jogos por dia – doze de cada vez –, esse torneio e o evento do Carlsen, que se realizara anteriormente, ajudaram a saciar a sede desse entusiasta do xadrez.

    "São muitos jogos, com muito drama, e isso é incrível. Às vezes, as coisas podem ficar um pouco loucas, mas tem sido superemocionante", disse Rensch, um tanto exausto, na quarta-feira, depois de transmitir a terceira e quarta rodadas.

    Quatro jogadores de cada equipe competem em cada rodada. Cada qual é visto, via webcam, no escritório, no quarto e na cozinha. O formato é o xadrez rápido, com o mesmo controle de tempo de vinte e cinco minutos usado nos desempates do campeonato mundial. A hora de início foi projetada para acomodar todos os diferentes fusos horários: Rensch está em seu estúdio em Phoenix, pronto para transmitir, antes que o jogo comece às seis da manhã, mas para os jogadores na China já são nove da noite quando o jogo começa.

    Cada equipe tem um capitão – Garry Kasparov, ex-campeão mundial, é o capitão da Europa – e eles decidem a lista de cada dia. Uma mulher deve jogar em cada rodada para cada equipe, e cada equipe também tem um suplente do sexo masculino e um do sexo feminino.

    Nos torneios ao vivo, os jogadores podem caminhar e ir ao banheiro, mas nas competições on-line ficam colados ao laptop. Isso afetou as táticas em pelo menos um jogo.]

    "Eu estava apenas tentando jogar o mais rápido possível, porque tinha de ir ao banheiro", explicou Caruana a Rensch em uma entrevista após sua vitória sobre Gujrathi.

    Existem também outras diferenças sutis. Parte da intensidade é perdida no xadrez on-line, com os adversários sentados a milhares de quilômetros de distância.

    Dvorkovich, presidente da Fide, que também é o capitão da equipe Resto do Mundo, anotou que isso dificulta a concentração de alguns jogadores. "Estamos perdendo a emoção de quando as pessoas se encontram e apertam as mãos. Os jogadores adoram encarar seus oponentes. Isso está fazendo falta. Mas esse é um substituto muito bom."

    Inclusive para os milhões de amadores.

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