Uma decisão tomada no Norte do país pode chegar diretamente à mesa do catarinense. O avanço das obras na BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, abre uma nova rota logística e pode impactar o preço e a oferta de alimentos em Santa Catarina nos próximos anos, beneficiando também outros estados pelo Brasil.

O governo federal publicou quatro editais para intervenções no chamado “trecho do meio” da rodovia — considerado o mais precário e estratégico. A promessa é garantir trafegabilidade durante todo o ano, reduzindo interrupções históricas causadas por chuvas e falta de pavimentação.

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Por que o trecho do meio da BR-319 é prioridade

As intervenções previstas alcançam o trecho entre os quilômetros 250,7 e 590,1, no Amazonas. É justamente ali que a BR-319 mais sofre. Motoristas ainda enfrentam lama, trechos quase intransitáveis e interrupções que podem durar dias, principalmente em períodos de chuva.

Para quem depende da estrada, a realidade é de incerteza. Caminhões ficam parados, prazos não são cumpridos e o custo do transporte sobe. No fim da cadeia, essa dificuldade chega ao consumidor.

A ideia do governo é mudar esse cenário e garantir uma rota contínua ao longo do ano. Com a recuperação da via, a expectativa é permitir que cargas circulem com mais regularidade, conectando melhor a Região Norte ao restante do país e reduzindo os gargalos que hoje afetam desde a indústria até o abastecimento de alimentos.

Veja os prazos das licitações para destravar a rodovia no Norte

Os editais já têm cronograma definido. A abertura das propostas ocorre nos dias 29 e 30 de abril, dividida em quatro lotes.

No dia 29, às 11h15, será analisado o trecho entre os quilômetros 250,7 e 346,2. No mesmo dia, às 11h, ocorre a sessão para o segmento entre 433,1 e 469,6. Já no dia 30, às 10h30 e às 11h, entram em análise os lotes entre 346,2 e 433,1 e entre 469,6 e 590,1.

Os documentos estão disponíveis no portal Comprasnet, e empresas interessadas precisam cumprir exigências técnicas e fiscais para participar.

Efeito cascata: como a pavimentação na Amazônia reflete no abastecimento do Sul

Embora distante geograficamente, a obra tem potencial de alterar a dinâmica de abastecimento em Santa Catarina. Isso porque a BR-319 é vista como uma alternativa para o escoamento de produtos da Zona Franca de Manaus e de outras áreas do Norte.

Com a melhoria das condições de tráfego, o transporte rodoviário tende a se tornar mais competitivo em relação às rotas fluviais e aéreas, que atualmente apresentam custos mais elevados e, muitas vezes, maior lentidão.

Esse cenário pode significar redução de custos ao longo de toda a cadeia logística, permitindo que alimentos industrializados, pescados e insumos cheguem ao Sul com mais regularidade e maior estabilidade de preços.

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Alívio no supermercado? Como a nova rota pode frear a alta dos alimentos em SC

Especialistas apontam que a ampliação das rotas ajuda a distribuir melhor o fluxo de cargas no país. Com a redução de gargalos, as empresas conseguem diminuir perdas, encurtar prazos de entrega e reduzir custos operacionais, ganhos que, em geral, acabam sendo repassados ao consumidor.

Para Santa Catarina, que depende de cadeias nacionais para complementar o abastecimento, a previsibilidade logística é um fator-chave, especialmente em períodos de alta nos alimentos.

O desafio de pavimentar a BR-319 sem ampliar o desmatamento

Apesar do avanço, a BR-319 segue no centro de um debate sensível que dura décadas. O trecho corta áreas preservadas da Amazônia, o que exige licenciamento ambiental rigoroso e cumprimento de uma série de condicionantes antes do início efetivo das obras.

Especialistas apontam que a pavimentação pode intensificar pressões já existentes, como desmatamento ilegal, grilagem e ocupação desordenada. Por isso, defendem que qualquer intervenção seja acompanhada de reforço na fiscalização e presença do Estado ao longo da rodovia.

Nesse cenário, órgãos ambientais e entidades da sociedade civil monitoram cada etapa do processo. O ritmo das obras deve depender não apenas das licitações, mas também da capacidade do governo de garantir controle ambiental e evitar impactos irreversíveis na região.

Os marcos que definem se a obra da BR-319 sai do papel ainda este ano

Com os editais publicados, o foco agora está na etapa de licitação. O cronograma indica que os próximos meses serão determinantes para tirar do papel uma obra aguardada há décadas.

Para o catarinense, o tema vai além da infraestrutura. A evolução da BR-319 ajuda a explicar como decisões logísticas em regiões distantes podem influenciar diretamente o custo e a disponibilidade de alimentos no dia a dia.

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VÍDEO: Por que a BR-319 é a Rodovia Fantasma

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*Com edição de Luiz Daudt Junior.