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    Oito perguntas de um detetive de doenças sobre a origem da pandemia

    Dr. Daniel Lucey, especialista em doenças infecciosas, viajou a todas as partes do mundo para estudar epidemias e a origem delas.

    17/07/2020 - 13h29

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    Por The New York Times
    detetive
    Dr. Daniel Lucey.
    (Foto: )

    *Por William J. Broad

    Durante décadas, o dr. Daniel Lucey, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Georgetown, viajou a todas as partes do mundo para estudar epidemias e a origem delas. Agora, sua atenção está na pandemia da Covid-19, que foi anunciada pela primeira vez no fim do ano passado em Wuhan, na China. Seu início exato é tão incerto que a Organização Mundial da Saúde deu início a uma ampla investigação sobre sua raiz.

    Lucey incentivou publicamente a agência de saúde a abordar o que ele considera as oito perguntas principais.

    Em uma entrevista concedida recentemente, ele declarou que "uma investigação não é legítima se a equipe não fizer essas perguntas", citou relatórios públicos e artigos científicos como ponto de partida para suas perguntas e acrescentou que Pequim "nunca respondeu a elas publicamente".

    Para ele, respostas claras elucidariam como o patógeno mortal se espalhou tão rapidamente e, talvez, como exatamente o surto começou. A China não tem fornecido informações e o governo Trump inflama a situação com ameaças e bullying. Ele afirmou, sem apresentar evidências, que o vírus foi contraído pelo ser humano em um laboratório de Wuhan. Na semana passada, depois de muitas ameaças, o governo começou a tomar medidas formais para encerrar sua participação na OMS.

    Enquanto ainda era um estudante de epidemias, Lucey viajou à Ásia, à África, às Américas, à Europa e ao Oriente Médio, às vezes para trabalhar como cuidador. Em 2014, trabalhando para a organização Médicos sem Fronteiras, tratou pacientes com ebola na Libéria. No mês passado, apresentou suas oito perguntas em um blog que escreve para a Sociedade Americana de Doenças Infecciosas. A postagem veio em resposta a um comunicado de Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, de que a agência enviaria uma equipe à China para investigar a fonte do patógeno – um movimento há muito esperado pelo governo Trump.

    "Conseguiremos combater melhor o vírus quando soubermos tudo sobre ele, incluindo como começou", disse Ghebreyesus em 29 de junho, em uma reunião regular em Genebra.

    Em maio, a Assembleia Mundial da Saúde, o principal órgão de decisão da OMS, aprovou uma resolução pedindo à agência que trabalhe com outros grupos internacionais para identificar a "fonte do vírus e a via de introdução na população humana".

    Desde que o surto eclodiu, no fim do ano passado, na região central da China, muita especulação e inúmeras teorias da conspiração se espalharam pelo mundo. Especialistas descartaram a ideia de que o patógeno foi produzido para ser uma arma biológica. Eles concordam que é bem provável que tenha começado como um vírus de morcego que evoluiu naturalmente em outro mamífero até se tornar capaz de infectar e matar seres humanos. Mas, até agora, depois de meses de pesquisa concentrada em instalações e laboratórios na China e em outros lugares do mundo, nenhum intermediário foi confirmado.

    As três primeiras das oito perguntas de Lucey focam o mercado úmido de Wuhan – um mercado amplo que, até ser fechado, vendia peixe e carne frescos. Ele foi inicialmente identificado como o ponto de origem do vírus, mas essa ideia foi rapidamente posta em dúvida quando um estudo realizado por cientistas chineses demonstrou que cerca de um terço das primeiras vítimas hospitalizadas – incluindo a primeira – nunca havia ido ao mercado. Em uma postagem de maio no blog, Lucey citou uma frase usada pelo chefe do Centro de Controle de Doenças da China ao descartar o local como o ponto de origem da pandemia: "O mercado é apenas mais uma vítima."

    Centenas de amostras ambientais foram coletadas no mercado e 33 resultados positivos foram relatados, mas se divulgaram poucos detalhes. Lucey perguntou: "Algum dos resultados positivos está relacionado a infecções humanas? E as amostras foram coletadas em quais superfícies – maçaneta, tábua de corte, esgoto, caminhão de lixo?" Até agora, nenhum dos testes positivos reportados é proveniente de animais.

    Sua quarta pergunta amplia o escopo da investigação para outros mercados de Wuhan e do restante da China. Foram coletadas amostras de animais "suscetíveis ao vírus" – como gatos, tigres, martas e furões? (Os furões são usados de forma rotineira para medir a transmissibilidade dos vírus da gripe humana.) Sua pergunta também incluiu os pangolins, que inicialmente foram considerados um possível intermediário no surto humano.

    Sua quinta pergunta é sobre um relatório detalhado do "The South China Morning Post", publicado em Hong Kong, que identificou um caso precoce de coronavírus humano em 17 de novembro, na província de Hubei. A província, cuja capital é Wuhan, é do tamanho do estado de Washington. Em março, Lucey fez uma postagem no blog a respeito do relatório, na qual descrevia a rápida propagação do vírus em Hubei, com base em informações que o relatório dizia terem vindo do governo. Agora, Lucey está pedindo aos investigadores da OMS que determinem o local onde cada um desses primeiros casos de Hubei foi relatado, se de fato ocorreram e se outras infecções humanas "documentadas ou suspeitas" podem ter ocorrido ainda antes daquela data.

    A sexta e a sétima questões se concentram na hipótese de o patógeno mortal ter contaminado o ser humano em um laboratório. Embora alguns analistas de inteligência e cientistas tenham aventado esse cenário, nenhuma evidência direta sugere que o coronavírus tenha escapado de um laboratório de Wuhan.

    Mesmo assim, devido ao fato de o mercado úmido ter saído do foco da investigação, "é importante responder a perguntas sobre os laboratórios nos quais o vírus pode ter se originado, seja em Wuhan ou em qualquer outro lugar", escreveu Lucey em seu blog.

    Com essa finalidade, ele pede aos investigadores da OMS que procurem qualquer sinal de pesquisa de "ganho de função" – o aprimoramento deliberado de patógenos para torná-los mais perigosos. A técnica é altamente controversa. Os críticos questionam seus méritos e alertam que ela pode resultar em vazamentos catastróficos no laboratório. Já os defensores veem isso como uma maneira legítima de aprender como os vírus e outros organismos infecciosos podem evoluir para infectar e matar pessoas e, assim, ajudar na criação de novas proteções e precauções.

    O debate sobre essa questão surgiu em 2011, depois que os pesquisadores anunciaram ter tido sucesso em tornar a cepa da altamente letal gripe aviária H5N1 facilmente transmissível pelo ar entre furões, pelo menos em laboratório.

    Em seu blog, Lucey perguntou "se foram realizados estudos de ganho de função em coronavírus, e quais" em Wuhan, em outros lugares da China ou em colaboração com laboratórios estrangeiros. "Se for cientificamente benfeita, essa investigação deverá acalmar preocupações persistentes sobre a origem desse vírus e também ajudar a estabelecer um padrão aprimorado para investigar e deter os terríveis vírus e outros patógenos nas próximas décadas", escreveu o especialista.

    Por fim, Lucey pede à equipe da OMS que colete mais informações a respeito do principal laboratório chinês de pesquisa sobre o vírus influenza, uma instalação de alta segurança em Harbin, a capital da província mais ao norte da China. Segundo ele, em maio, um artigo chinês da revista "Science" relatou que duas amostras do vírus de Wuhan foram estudadas de forma bastante detalhada no início deste ano, inclusive em uma variedade de animais. O artigo apontou que os gatos e os furões eram altamente suscetíveis ao patógeno; os cães eram apenas levemente suscetíveis; e os porcos, as galinhas e os patos não eram suscetíveis.

    Em suas viagens, Lucey visitou ao Brasil para estudar o vírus da zika; foi a Madagascar para estudar a peste pneumônica; à Jordânia para estudar a síndrome respiratória do Oriente Médio, ou Mers; e a Guangzhou, na China, para estudar a síndrome respiratória aguda grave, ou Sars. Ele comentou que suas longas viagens ao longo de décadas o ajudaram a formular seu questionário atual.

    Em um e-mail, ele acrescentou que a OMS teve acesso às suas oito perguntas e havia lhe dado "um bom feedback".

    Lucey comparou suas perguntas ao processo de destrancar um grande edifício. "O importante é abrir a porta. O caminho a ser seguido lá dentro não está mais em minhas mãos", disse ele na entrevista.

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