A mineira Olívia Pilar estreia no mercado editorial com o romance Um traço até você, pela Intrínseca. A obra acompanha Lina, uma estudante universitária que, apesar de ter uma vida social ativa e morar em um bairro de classe média alta de Belo Horizonte, anseia pelo apoio dos pais para seguir sua carreira de ilustradora e financiar um curso de desenho no Chile.

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A trama se aprofunda quando Lina consegue um estágio, esperando que seus problemas se resolvam. Contudo, ela se depara com olhares estranhos e tarefas que questionam sua capacidade. E talvez isso tenha a ver com a cor de sua pele. É nesse cenário que seu caminho se cruza com o de Elza, uma estudante de Letras que, através de seus versos, defende a luta por uma sociedade mais justa.

O livro, que mescla romance, descoberta e crítica social, nasce de uma motivação pessoal e coletiva. — Eu não me via representada em várias histórias. Muito menos por uma personagem negra que fosse sáfica — explica Olívia, durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro.

Para a autora, escrever tornou-se também uma forma de reivindicar espaço: — Se o meu livro ajudar uma garota a se ver representada, a entender que ela merece um romance, que ela merece amar, já alcançou o que deveria alcançar —, pontua. A autora revela ainda que seus livros a ajudaram, de certa forma, a “sair do armário”, ao contar indiretamente à sua família que é bissexual.

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Entre a tese e a literatura

Doutoranda em Comunicação Social pela UFMG, Olívia equilibra a produção acadêmica com a escrita literária. Ela aprendeu a separar horários para dar conta das duas áreas, embora nem sempre seja simples “virar a chavinha” entre estilos tão diferentes. — De manhã, geralmente, é a tese. À tarde, a escrita literária. Mas quando tenho prazos curtos, preciso interromper uma para focar na outra — conta.

Ainda que não considere seus personagens autorretratos, Olívia reconhece que parte de sua trajetória se infiltra nas narrativas e “acaba doando um pouquinho para cada personagem”.

— A Lina tem o contexto social parecido com o meu, de classe média, sempre estudou em escola particular. Já a Elza carrega muito da minha família materna, negra e matriarcal — explica. Essa combinação entre referências pessoais e coletivas dá corpo às personagens e aproxima o romance de jovens leitores que buscam se ver na literatura.

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Segundo a autora, cada romance nasce de uma cena muito específica que se expande em enredo. No caso de Um traço até você, a imagem inicial foi a de Lina caminhando pelo centro de Belo Horizonte e encontrando Elza em uma banca de livros.

Entrelaçando vivências

A recepção da história de Lina e Elza tem sido calorosa, especialmente em eventos como a Bienal do Livro. — Para mim, a melhor parte da escrita é o contato com os leitores. Já recebi muitos desabafos de adolescentes, quase como se eu fosse psicóloga. Isso me motiva a continuar — revela.

Após a boa estreia com a Intrínseca, Olívia já tem outro romance pronto, em avaliação pela editora. O terceiro ainda está apenas no campo das ideias, mas a autora não tem pressa e foca no objetivo de seguir produzindo histórias em que meninas negras e sáficas possam se enxergar.

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— Escrever esses romances é também uma forma de dizer que nós merecemos ser protagonistas, merecemos afeto e finais felizes — finaliza.

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