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Transporte coletivo comprometido

Ônibus municipais têm aumento da tarifa e queda no número de passageiros em SC

Levantamento feito com municípios com mais de 100 mil habitantes aponta que preço da tarifa chegou a subir até 9,7% e que queda dos passageiros, em uma das cidades, foi de 25% entre 2017 e 2018

15/01/2019 - 05h30 - Atualizada em: 15/01/2019 - 05h28

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Karine
Por Karine Wenzel
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Está mais caro andar de ônibus municipal em Santa Catarina. Com justificativa de aumento de salários, diesel e outros insumos, e queda no número de passageiros, as concessionárias dos maiores municípios do Estado complementaram o valor da tarifa entre 2,32% e 9,7%, a partir do final do ano passado e o início deste ano.

Muitos dos reajustes estão bem acima da inflação de 2018, que foi de 3,75% de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Atualmente, os catarinenses precisam desembolsar entre R$ 2,98 a R$ 5 para realizar os trajetos dentro das cidades acima de cem mil habitantes.

Entre os aumentos mais recentes, Palhoça, na Grande Florianópolis, teve o maior salto: 9,7% na média. A passagem mais barata do município de R$ 3,90 passou para R$ 4,30 no mês de novembro de 2018. O secretário de Infraestrutura de Palhoça, Eduardo Freccia, diz que o passe teve que subir acima da média para suprir a defasagem dos últimos reajustes.

— O aumento leva em consideração os reajustes anteriores, se há defasagem ao longos dos anos, e o aumento de diesel do período, acordos coletivos da categoria, existe uma planilha dos insumos. Considerando a defasagem dos últimos anos, a planilha, se fosse levar ao pé da letra, permitiria um aumento acima de 12% — explica.

Passagem mais cara é a de Jaraguá do Sul

Mesmo em Joinville, que teve o menor aumento (2,32%) entre as maiores cidades catarinenses, o acréscimo de R$ 0,10 na passagem comprada antecipadamente, que passou a valer em 7 de janeiro, exige reorganização nas finanças dos usuários de ônibus.

A vendedora, Vanilda Alves Ferreira, 26 anos, usa o transporte coletivo seis vezes por semana para ir e retornar do trabalho – são dois bilhetes por dia. Em um ano, a jovem que trabalha de segunda-feira a sábado desembolsará cerca de R$ 65 a mais (se comprar a passagem antecipada) e quase R$ 95 (se adquirir no embarque).

— Eu ainda não coloquei bem na ponta do lápis, mas, no fim do mês, dá bastante diferença, porque uso bastante. Fora o trabalho, ainda tem as vezes que preciso usar o ônibus para fazer outras coisas – conta a vendedora.

Entre as maiores cidades estaduais, a que tem a passagem de ônibus mais cara é Jaraguá do Sul. No município do Norte de Santa Catarina, depois do reajuste de janeiro, a passagem antecipada sai por R$ 4,60 e na hora do embarque, R$ 5.

O secretário de Planejamento e Urbanismo de Jaraguá do Sul, Eduardo Bertoldi, explica que a queda da demanda, relacionada a um serviço que não atenderia bem aos usuários, é o principal fator para a tarifa ser tão alta. Além disso, a quantidade de caminhos diferentes – são 23 linhas e 563 itinerários – também impacta no valor da passagem.

Bertoldi diz ainda que no ano passado foi lançado um edital de licitação de serviço de transporte coletivo, pois terminou a vigência do que havia anteriormente. Porém é necessário atualizar algumas informações para que ele seja divulgado após impugnação.

— O tema transporte coletivo e o relançamento do novo edital é prioridade para administração municipal para que assim possamos ter uma prestação de serviço do transporte coletivo de qualidade, confiável e uma tarifa justa — afirma o secretário.

Sem reajuste por ociosidade e contratos emergenciais

Chapecó, assim como Criciúma e Itajaí, não teve reajuste recente e ostenta a menor tarifa entre as cidades avaliadas. No município do Oeste as tarifas variam entre R$ 2,98 (antecipada) e R$ 3,25 (dinheiro), mas o último acréscimo, de 9,96%, foi em novembro de 2016.

A assessoria de imprensa da prefeitura explica que o contrato com as duas concessionárias que hoje operam o sistema segue em caráter precário. O processo licitatório ainda está em andamento e neste momento as propostas apresentadas estão em análise. Então o novo contrato precisa ser assinado para ser discutida a atualização de tarifas locais.

Itajaí, que teve o último reajuste em dezembro de 2016, também conta com um contrato emergencial do transporte público coletivo devido a interrupções no serviço pela antiga empresa contratada em 2017. Com a rescisão contratual, houve a troca do prestador "para que a população não ficasse desassistida de um serviço essencial como o transporte público", explica Marcelo Zimmer, diretor de Engenharia de Trânsito, da Secretaria Municipal de Urbanismo de Itajaí, em nota.

Em Criciúma houve um processo de remanejamento das linhas ociosas, segundo a prefeitura, devido à queda no número de passageiros, o que possibilitou congelar os preços. A última atualização da tarifa foi em julho de 2017.

Maiores cidades catarinenses costumam ter reajuste anual das tarifas
Maiores cidades catarinenses costumam ter reajuste anual das tarifas
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Linhas municipais estão mais vazias

O cenário é de esvaziamento dos ônibus municipais, segundo dados das prefeituras das maiores cidades catarinenses. Com exceção de Chapecó e Itajaí, que teve aumento de usuários em 2018 devido a paralisações do serviço no ano anterior, as outras cidades tiveram queda neste indicador.

As reduções em 2018 na comparação com 2017, variaram entre 2% e 25%, em Balneário Camboriú. Em 2017, 120 mil usuários usavam as linhas do município do Litoral Norte mensalmente. Em 2018, o número caiu para 90 mil.

O declínio de 30 mil passageiros é justificado, segundo o gestor do Fundo Municipal de Trânsito (Fumtran) de Balneário Camboriú, Mario Cesar de Oliveira, pela maior utilização de transporte por aplicativo e outros modais, como bicicleta. Além de horários pouco definidos dos ônibus e falta de investimentos no serviço:

– Temos quatro empresas de aplicativos atuando em Balneário Camboriú, na região temos mais de 2 mil motoristas de aplicativo e, de 130 mil habitantes, temos uma frota de 95 mil veículos – diz.

Tempo de viagem pode influenciar redução

Oliveira cita também que há prioridade para uso de outros transportes alternativos. Atualmente são 50 quilômetros de ciclofaixas e a meta é chegar a 130 até 2030.

Mas o pesquisador do Observatório de Mobilidade Urbana da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Werner Kraus Júnior reforça que o ônibus ainda é a solução necessária para deslocamento de longas distâncias. Além da utilização de aplicativos, o especialista diz que em muitos casos há a substituição do transporte coletivo pelo individual, como a motocicleta:

— O fator preponderante é a queda de velocidade do ônibus. O fato é que o trânsito só piora e o ônibus fica super lento. O tempo de viagem é o principal fator a afugentar o usuário do transporte público, mas tem também o valor da tarifa. É difícil conseguir tirar carro da rua e enquanto eles não saem, ônibus vai ficando mais lento, tarifa mais cara, é um espiral — afirma.

Diante disso, a solução passa por aumentar a velocidade dos ônibus, com faixas exclusivas por exemplo, e transporte integrado, defende o pesquisador.

Como um ciclo, a queda dos passageiros impacta no aumento da tarifa, que leva o usuário a procurar alternativas:

— A origem do problema é ineficiência do transporte, por não ter um sistema ainda mais integrado, precisa ter mais ônibus, corredores exclusivos. Quando o sistema perde passageiros, quem fica paga mais para cobrir os custos — completa o secretário de Infraestrutura de Palhoça, Eduardo Freccia.

Nas cidades mais populosas, como Joinville, o tombo é ainda maior. No município do Norte de Santa Catarina, foram aproximadamente de 655,5 mil passageiros a menos no transporte coletivo no ano passado na comparação com 2017. Se comparar o ano de 2011 com o ano de 2017, por exemplo, a redução de usuários no transporte coletivo chegou a 20%.

* Colaborou Gabriela Florêncio

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