As ruas parecem ter perdido a cor. Em estacionamentos de supermercado, garagens de prédio ou no trânsito das grandes cidades, a cena se repete: uma fila de carros brancos, pretos, cinzas e prateados. De vez em quando, aparece um vermelho ou azul tentando quebrar a monotonia. Mas por que os carros coloridos ficaram tão raros?

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A resposta não está apenas no gosto do motorista. O fenômeno mistura medo de perder dinheiro na revenda, estratégia das concessionárias, custo de produção e uma preferência global por cores consideradas mais “seguras”.

Segundo o relatório global de cores automotivas da Axalta, uma das principais empresas de tintas automotivas do mundo, o branco foi a cor mais usada nos carros em 2025, com 29% de participação global. Depois vieram o preto, com 23%, e o cinza, com 22%. Ou seja: só essas três cores já representam quase três em cada quatro veículos no mundo.

Quando branco era “cor de táxi”

Antes de virar sinônimo de carro moderno, limpo e fácil de revender, o branco já carregou outro significado no Brasil. Em algumas cidades, a cor ficou fortemente associada aos táxis, o que por muito tempo afastou parte dos compradores de carros particulares. A lógica mudou com o passar dos anos: o mesmo branco que antes podia lembrar veículo de praça passou a ser visto como escolha segura, discreta e valorizada no mercado de usados.

O branco ganhou força porque virou uma espécie de escolha universal. Ele agrada frotistas, locadoras, motoristas de aplicativo, empresas e também compradores particulares. Além disso, costuma ser visto como uma cor fácil de cuidar, menos chamativa e mais simples de vender depois.

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Na América do Sul, essa preferência é ainda mais evidente. A Axalta aponta que o branco lidera na região com 35%, associado à praticidade e ao desempenho em climas mais quentes. O cinza aparece com 23%, enquanto o prata tem 14%.

No Brasil, a lógica é parecida. Um levantamento da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mostra que o branco respondia por 43,6% dos veículos emplacados no país em 2022. Na sequência vinham prata, cinza e preto.

A revenda pesa mais do que a vontade

Muita gente até gosta de carro azul, vermelho, verde ou amarelo. O problema é que, na hora de comprar, aparece uma pergunta que muda tudo: “E depois, vou conseguir vender?”.

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Como o carro ficou caro, o comprador passou a pensar no veículo quase como um investimento. Nesse raciocínio, uma cor neutra parece menos arriscada. Branco, preto, cinza e prata são vistos como opções que agradam mais gente e, por isso, seriam mais fáceis de revender.

Só que essa ideia não é uma verdade absoluta. Um estudo da Auto Avaliar citado pela Quatro Rodas mostrou que, na plataforma, carros coloridos tiveram o mesmo giro médio de estoque dos modelos básicos: 38 dias. A pesquisa também apontou que os coloridos tiveram ticket médio 14% maior que os veículos brancos, pretos, cinzas e prateados.

As concessionárias também ajudam a deixar tudo igual

A preferência pelas cores neutras vira um ciclo. Como branco, preto, cinza e prata vendem mais rápido, as concessionárias pedem mais carros nessas cores. Como as lojas pedem mais, as montadoras produzem e enviam mais unidades neutras. Com menos opções coloridas no estoque, o consumidor acaba escolhendo o que está disponível.

Esse efeito fica ainda mais forte nos carros de entrada e nas versões mais baratas. Em muitos modelos, as cores básicas aparecem sem custo adicional. Já pinturas metálicas, perolizadas ou tons mais diferentes podem custar a mais.

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