O relógio marca pouco mais de 4h. Enquanto a maior parte da cidade de Florianópolis dorme, o pátio do Aeroporto Internacional Hercílio Luz já pulsa em um ritmo diferente. As luzes que sinalizam a pista de voo desenham o “escritório” de quem decidiu, há 25 anos, que trabalhar no chão já não era o suficiente. 

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Gaúcho de nascença mas com base em Florianópolis, o comandante Dubois pilota os aviões da companhia aérea Gol há duas décadas. Sentado na cabine de comando de um Boeing 737, ele contou detalhes da rotina de forma exclusiva ao NSC Total e deu detalhes dos motivos que o levaram a trocar o sono pela responsabilidade de guiar centenas de vidas diariamente. 

O que te motivou a se tornar um piloto de avião e como começou na aviação?

Eu sempre gostei muito de avião, desde pequeno. Sempre falei que queria ser piloto mas eu não sabia como me tornar um piloto. Então, com 16, 17 anos, busquei um aeroclube no Rio Grande do Sul, fiz um primeiro voo de teste e adorei. A partir daquele dia eu não parei mais. 

Qual é sua parte favorita dessa profissão? 

Tem algumas. Eu acho que a oportunidade que a gente tem de conhecer diversos lugares e pessoas, e ter essa rotina um pouco diferente da rotina do pessoal “normal”, digamos assim, que trabalha em terra. 

Como é a sua rotina pré-voo para deixar tudo 100%?

Bom, a primeira coisa que eu faço é ir direto para o banho, já meio sonolento mesmo, para despertar. Aí faço toda higiene pessoal e a preparação da mala. Normalmente eu já deixo a minha mala pronta quando são esses horários variados assim, tão cedo da manhã. Antes de sair de casa, tenho um check-list mental que eu faço para não esquecer as coisas principais, como documentação de voo, celular e o crachá, que é o que eu preciso para pelo menos acessar as áreas do aeroporto. Com a mala já pronta, isso facilita tudo porque de manhã cedo é um pouquinho complicado de arrumar as coisas.

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O que nunca falta na sua mala para que você se sinta “em casa” em qualquer lugar do Brasil? 

Eu acho que é uma bermuda de praia e um chinelo, porque a gente nunca sabe, a gente já tem a nossa escala toda programada mas mudanças acontecem. Então, muitas vezes, não era previsto estar em algum local de praia, piscina, então sempre tenho uma bermuda e um chinelo junto comigo.

Há quantos anos você está na aviação e como você gerencia a saudade? Ela ameniza com o tempo?

Na Gol eu já estou há 20 anos, e voando há 25. Em relação à saudade, eu acho que a gente, como é uma profissão diferente, que trabalhamos por escala, não temos como evitar isso. Acabamos se acostumando, a família, os amigos, entendem isso. Tem várias datas festivas que a gente não pode estar presente, infelizmente, mas acaba que a gente se acostuma e com o passar do tempo fica uma coisa mais natural, assim, de não estar presente em todos ou em alguns momentos importantes que a gente gostaria.

Pousar aqui em Florianópolis exige um olhar diferente? Como o seu preparo ajuda a lidar com as particularidades do clima aqui no Estado?

É uma região montanhosa, então a gente deve ter atenção em relação a isso na aproximação e pouso, e também na decolagem. Existe esse fator do vento sul, que ele atrapalha um pouco. Fica um vento um pouco cruzado em relação à pista que a gente tem aqui. Mas existem técnicas que são amplamente treinadas em simulador e também instruções, voos de instrução em rota. E não é um problema, mas é um desafio.

Dizem que um dos pousos mais bonitos do Brasil é aqui em Floripa. Você concorda? O que você acha da vista?

Eu sou suspeito para falar, né? Já moro aqui e sempre gostei de vir para cá e a aproximação é linda, principalmente quando a gente faz por cima da água ali, passa próximo da área do Campeche. E se for a aproximação pelo outro lado, a gente passa também em cima, muito próximo da ponte, e tem o visual do continente, então é uma das aproximações mais bonitas do Brasil, com certeza.

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Tenho algumas, mas uma memória muito importante para mim foi quando eu pude trazer meus pais para viajar comigo pela primeira vez. [Eles] Nunca tinham voado comigo em outras aeronaves, em avião pequeno, nada. Eles me acompanharam num voo e era uma outra época, onde podiámos trazer familiares na cabine durante o voo. Depois do 11 de setembro tudo mudou. Então foi um momento muito especial ter eles a bordo aqui.

A conversa termina no exato momento que o silêncio da cabine começa a ser preenchido pelo barulho das pessoas que começam a entrar na aeronave. Em instantes, centenas de passageiros estarão a bordo, cruzando o país sob o comando de quem abdica de datas importantes e uma rotina para viver mil vidas que acontecem acima das nuvens e entre vários estados. 

O sol agora já brilha em Florianópolis, mas para o Comandante Dubois, o dia só começa de verdade quando ele tira as rodas do chão.