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Imigração

Os motivos que levam casais russos a darem à luz bebês em Santa Catarina

Qualidade de vida e saúde pública são atrativos de Florianópolis a casais russos interessados em dar à luz a crianças no Brasil, que dispõe de lei mais flexível para residência de estrangeiros

23/02/2019 - 06h48 - Atualizada em: 04/02/2020 - 22h50

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Por Roelton Maciel
Svetlana Abada decidiu deixar a Rússia com o marido e tiveram o filho Mikhail em Florianópolis
Svetlana Abada decidiu deixar a Rússia com o marido e tiveram o filho Mikhail em Florianópolis
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Uma cidade incrivelmente bela, “europeia”, cercada por 42 praias e com taxa de criminalidade “quase zero”. Assim Florianópolis é apresentada em páginas russas na internet que divulgam o Brasil como destino a casais interessados em dar à luz bebês fora da Rússia.

Mas, além dos atrativos turísticos de um cartão-postal, o que mais levaria estrangeiros a virem de tão longe para esperar o parto? A resposta envolve questões legais sobre a permanência de imigrantes no Brasil e benefícios garantidos pelo sistema público de saúde.

Páginas russas visitadas pela reportagem anunciam que a criança nascida no Brasil recebe a cidadania brasileira imediatamente, o que garante autorização de permanência a pais e irmãos do bebê. Também é indicado que a obtenção da cidadania brasileira dá acesso a mais de 150 países sem visto e condições preferenciais para entrar nos Estados Unidos.

O site BornBrazil.com, por exemplo, ainda cita que as unidades de saúde brasileiras são acessíveis a cidadãos estrangeiros. Algumas publicações destacam Florianópolis e Santa Catarina como escolhas acertadas por terem melhores índices de segurança em relação às demais regiões do país.

Essa estratégia, no entanto, entrou no centro de uma polêmica após a Justiça determinar o acolhimento de uma menina, filha de russos, nascida numa maternidade da Capital. A criança foi devolvida à família na segunda-feira, depois de nova decisão judicial.

O pedido de acolhimento partiu do Ministério Público com base em um histórico de outros seis bebês de pais russos que nasceram em Florianópolis e não foram localizados pelo Conselho Tutelar. Como há dúvidas sobre o paradeiro das crianças, a Polícia Federal vai investigar o caso. Maternidades da Capital também deverão informar sobre novos atendimentos a gestantes russas.

Consultora ajuda famílias

Para o Ministério Público, a notícia de sites que estimulam a vinda de grávidas da Rússia pode caracterizar crime federal, como estímulo ilegal à imigração. Mas quem está por trás da vinda dos casais a Florianópolis defende que não há ilegalidade. A tradutora que acompanha e dá assistência às famílias russas em Florianópolis, Olga Aliokhina Alves, garante que toda a movimentação de entrada e saída do país é documentada e informada às autoridades federais.

Casada com um brasileiro e estabelecida desde 2016 em Florianópolis, Olga fala português e é uma das principais divulgadoras da Capital em páginas, redes sociais e fóruns dedicados à vinda de russos para o Brasil. Todos os casais que deixam a Rússia, diz ela, têm boas condições financeiras e viajam por iniciativa própria.

O frio rigoroso e a situação política naquele país são motivações de quem vem ao Brasil, conhecido pelo calor e pela receptividade.

– Santa Catarina é um Estado que a gente chama de Europa brasileira, porque tem muitos descendentes europeus, tem segurança. Comparando com outras capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro, a cidade é o paraíso – diz Olga.

A fonte de renda dos russos no Brasil, diz a tradutora, costuma vir de negócios estabelecidos na Rússia e de trabalhos feitos a distância para clientes daquele país, o que dispensa noções da língua portuguesa. Para ela, a desconfiança sobre vinda e presença dos russos é uma forma de discriminação.

– Eles pagam aluguel, transporte, alimentação. Contribuem para a economia do país – reforça.

Migração não é significativa, afirma cônsul da Rússia

A migração de russos para SC tem números pouco expressivos. Apenas 21 pessoas entraram no Estado em 2017, conforme indica o levantamento mais recente da Polícia Federal. Desse grupo, 18 tiveram autorização de permanência no país e pelo menos 11 eram casados. Naquele ano, Florianópolis foi o destino de cinco mulheres russas casadas.

No ano anterior, o Estado recebeu outros 17 russos. O período de maior fluxo da Rússia para Santa Catarina ocorreu entre 2013 e 2015, com 70 deslocamentos em três anos, sendo 50 deles de russos casados.

O cônsul honorário da Rússia em Curitiba, Acef Said, diz não ter conhecimento sobre uma corrente migratória de grávidas para o Brasil – o escritório curitibano é a representação consular mais próxima de SC.

Said destaca que um acordo entre os dois países isenta os visitantes da necessidade de vistos de curta duração. Ele também diz desconhecer qualquer aspecto legal que impeça uma grávida russa de ter filho no Brasil, ou situação contrária.

– Dentro da reciprocidade que o Brasil tem com a Rússia, não há nada que impeça isso. Não há corrente migratória significativa, uma migração em massa. Acredito que sejam casos que aconteceram, assim como também deve ter casos de brasileiras que vieram dar à luz na Rússia.

Bom clima e pessoas alegres

Clima tropical, pessoas receptivas, menos discriminação. Essas foram as credenciais brasileiras que levaram a russa Svetlana Abada, 31 anos, a escolher Florianópolis para morar com o marido desde 2017. Ela já estava grávida e teve o filho Mikhail, hoje com um ano e meio, em uma maternidade da Capital. Por ter nascido aqui, o menino é considerado brasileiro.

Incomodados com o clima político na Rússia, Svetlana e o marido deixaram o país para morar antes na Tailândia. Lá, sentiram que havia pouca tolerância com estrangeiros.

O casal então passou a pesquisar países que garantam cidadania a quem nasce no território nacional. Foi quando optaram pelo Brasil.

– Pensei que seria o melhor país porque tem muito bom clima, pessoas alegres. Na Rússia é muito frio. Penso que o país é tolerante, não tem discriminação – considera.

Ainda sem fluência na língua portuguesa, Svetlana tem aulas na UFSC para acelerar a adaptação da família. Ela e o marido são programadores e fazem trabalhos freelancers para clientes russos.

O dinheiro com o aluguel de imóveis que o casal mantém na Rússia ajuda a se manter no país. Svetlana também mantém um blog em língua russa, no qual divulga as vantagens de se ter filho no Brasil.

– A situação política da Rússia não é muito favorável agora. Muitos russos estão indo embora do país para morar até aqui, no Brasil – resume.

Anúncios na internet

A reportagem identificou páginas na internet que fazem referência ao nascimento de crianças em Florianópolis. Todas escritas em russo, que enaltecem qualidades da Capital, como beleza das praias, segurança e sistema público de saúde.

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Nesses sites os usuários tiram dúvidas e são ajudados no processo. O principal atrativo é a facilidade da lei federal para imigrantes, que considera brasileira a criança nascida no território nacional, mesmo que os pais não tenham vínculo com o país. O casal tem o direito a ficar temporariamente até conseguir o visto de permanência.

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