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    Os nós do trânsito e a rotina de engarrafamentos na Grande Florianópolis

    Enquanto sonham por soluções para o transporte público integrado, moradores da região enfrentam rotina de filas e congestionamentos

    07/12/2019 - 14h45 - Atualizada em: 07/12/2019 - 17h04

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    Por Ângela Bastos
    Trânsito
    (Foto: )

    A estudante Júlia Matos de Oliveira, 19 anos, não conhece Porto Alegre. Mas o tempo que gasta entre a casa onde mora, em Palhoça, e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, onde estuda jornalismo, é o mesmo de uma viagem entre Palhoça e capital gaúcha.

    – Saio às 6h30min e, mas dependendo das filas e congestionamentos só chego perto das 9h na UFSC. Somando o tempo de ida e volta, são cinco horas – calcula Júlia.

    Levando em consideração a distância de cerca de 20 quilômetros entre os centros de Palhoça e Florianópolis, é muito tempo. Entre Palhoça e Porto Alegre a distância é de 441 quilômetros, e o tempo estimado de viagem de 4h57min. A estudante procura aproveitar o tempo de espera, mas reconhece ser cansativo e impactante nos estudos, pois normalmente perde metade da primeira aula, que inicia às 8h20min.

    Júlia é uma entre milhares de pessoas que sofrem o impacto do caos que se tornou o trânsito na região. A Capital é a única cidade entre as quatro maiores da Grande Florianópolis que possui um sistema integrado de transporte coletivo. Para que se torne realidade em nível regional, é necessário que as demais – São José, Palhoça e Biguaçu – também criem um complexo de mobilidade urbana.

    Fisicamente já existe uma integração no Terminal do Centro, o Ticen, com plataformas utilizadas por ônibus vindos desses municípios. Há, no entanto, outras questões a serem observadas, como a revisão tarifária.

    Para Matheus Hoffmann, superintendente da Superintendência de Desenvolvimento da Região Metropolitana da Grande Florianópolis (Suderf), a situação se encaminha para a execução de um plano integrado.

    – É preciso somar esforços para ações de uma gestão unificada do Estado com municípios focada no transporte integrado – diz.

    O transporte marítimo é um dos modais alternativos. Recentemente houve uma reunião na Secretaria de Infraestrutura do Estado com a presença dos quatro prefeitos. Um estudo sobre a viabilidade econômica do transporte pelo mar unindo Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu está em análise. Palhoça e São José discutem o assunto em sessões da Câmara Municipal e audiência pública.

    A expectativa é que todos os municípios façam adesão priorizando o transporte público e não o privado. Se isso ocorrer, no primeiro semestre de 2020 o edital integrando a região poderá estar na rua. Uma das primeiras ações a ser a ser executada será a criação de corredor exclusivo para ônibus na Via Expressa.

    Júlia enfrenta todo dia cinco horas de deslocamento
    Júlia enfrenta todo dia cinco horas de deslocamento
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    Assunto já reuniu os maiores especialistas em Florianópolis

    Não é de hoje que o tema trânsito é discutido. Em 2010, Florianópolis sediou I Fórum das Américas sobre Mobilidade das Cidades. Especialistas no assunto vieram da França, Alemanha, Inglaterra, Colômbia, Governo dos Açores, em Portugal. Três dias de conversa e a conclusão já experimentada em outros lugares: mobilidade envolve um conceito, e não apenas obras.

    Às vésperas de completar uma década do encontro que trouxe também bambambãs de grandes empresas de obras e engenharia brasileiras, a cidade continua a piscar em vermelho. Protagonistas deste cenário, agentes públicos e moradores têm diante de si a pergunta sobre o futuro de uma cidade que não para de crescer e atrai novos moradores.

    Mas que também aparece em pesquisas o que as ruas mostram no dia a dia. Florianópolis foi escolhida a pior capital do país quando o assunto é mobilidade urbana, como concluiu, em julho, um diagnóstico das universidades UFSC, UFRGS, UnB e Oxford Brookes Universty, da Inglaterra. Dois anos antes, em 2017, conquistava como a pior cidade brasileira para se dirigir do aplicativo Waze, numa pesquisa do Índice de Satisfação dos Motoristas.

    Dependência rodoviária

    Não é tão difícil sugerir as melhores soluções de transporte público integrado para a região da Grande Florianópolis. O maior desafio é fazer a população entender porque o óbvio não acontece, como transporte marítimo, a construção de faixas exclusivas para motocicletas, intervenções nos entroncamentos das rodovias (SCs). A dependência da matriz rodoviária, a falta de modais alternativos como ciclovias e o descaso com o pedestre buzinam na cabeça dos moradores.

    Quem no trânsito costuma olhar para o lado se pergunta: Porque tem tanto carro na rua, muitas vezes com uma única pessoa dentro? Um das respostas estaria no preço mais barato do que a passagem de ônibus.

    – Moro em Palhoça e trabalho no Centro de Florianópolis. São uns 20 quilômetros e se fosse de ônibus gastaria R$ 14, pois a passagem está em torno de R$ 7. Meu carro faz 10 quilômetros com um litro de gasolina, que agora está em torno R$ 4,30 – conta Ricardo Chaves.

    O empresário sabe dos custos com desgastes de pneus, freios, troca de óleo. Mesmo assim prefere pagar o preço de viajar de forma mais confortável, pois os ônibus andam lotados e nem sempre no horário. Acha que a inauguração da terceira faixa na Via Expressa deu mais fluidez ao trânsito. Mas é crítico na questão de alternativas de transporte.

    – Florianópolis é uma das poucas capitais do país sem transporte marítimo. Já nem falo no metrô de superfície, que ficou na promessa. Mas podia haver um sistema de vans regularizadas, como existem em outras cidades.

    Ao lado dele, a colega de trabalho Martha Lírio também reclama:

    – A região é muito bonita. Imagina sair de barca de Biguaçu ou Palhoça? Ou até mesmo ferry boat, como tem em Navegantes, e que leva os veículos de uma cidade para outra? – sugere a esteticista.

    Martha é contra o uso do asfalto por patinetes. Para ela, a redução dos espaços nas ruas e calçadas causa mais problemas do que solução para o tráfego. Atenta a conversa, a atendente Rafaela Miguel defende o contrário. Para ela, as cidades precisam de menos carros nas ruas. Além de poluir, diz, os veículos se envolvem acidentes que matam ou deixam sequelas graves.

    – Sempre que vejo alguém sentado dentro do carro reclamando do trânsito digo: vai de ônibus, criatura!

    Biometano nos ônibus para reduzir poluição do ar

    Mobilidade inclui todos os usuários, independente do modal. Assim como também exige cuidados com relação ao meio ambiente, seguindo tendência mundial. É neste intuito que o Observatório da Mobilidade Urbana da UFSC trabalha em parceria com a agência alemã GIZ para apoiar o governo do Estado na elaboração de edital de licitação para o transporte público metropolitano da Grande Florianópolis.

    O objetivo é estabelecer exigências que obriguem a empresa vencedora do certame operar com um percentual de ônibus movidos a energia elétrica ou biometano, um gás oriundo do biogás, de modo a contri buir para redução da poluição atmosférica, o qual deve ser incrementado com o transcorrer do contrato.

    A equipe da UFSC estuda opções de abastecimento e infraestrutura necessárias para que o uso de ônibus limpo não provoque qualquer prejuízo à eficiência operacional.

    – A escolha dessas tecnologias alinharia a região metropolitana da Grande Florianópolis à tendência internacional de uso de transporte público não poluente e serviria de exemplo a muitas outras cidades no país e no mundo – explica Bernardo Meyer, coordenador do Observatório de Mobilidade da UFSC.

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