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Arte urbana

Painel em Florianópolis homenageia poeta Cruz e Sousa e chama atenção para seu legado

Obra do artista Rodrigo Rizo ocupa paredões de prédio ao lado da Praça XV de Novembro

29/06/2019 - 06h10

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Por Guilherme Simon
Painel Cruz e Sousa
O poeta em seu clássico retrato, em frente ao quintal do palácio que leva seu nome
(Foto: )

Desde o começo de junho, uma imagem chama a atenção na paisagem do Centro de Florianópolis. É o poeta Cruz e Sousa, retratado em um painel que ocupa os três paredões de um prédio ao lado da Praça XV de Novembro, em frente ao quintal do palácio que leva seu nome. Ao mesmo tempo em que homenageia o artista num dos mais célebres endereços da cidade, a pintura também reacende o debate em torno da figura dele, ajudando a fazer com que sua obra e legado sejam redescobertos.

Filho de escravos alforriados, João da Cruz e Sousa nasceu na então Desterro, como se chamava a capital catarinense no ano de 1861, já em liberdade. Enfrentou a sociedade escravocrata da época com textos e críticas contundentes, como jornalista, professor e escritor. Como poeta, experimentou diferentes formas e assimilou variadas influências, até encontrar a maturidade no estilo que o consagrou: como simbolista, movimento literário do qual é considerado um dos precursores no Brasil.

Pintado em preto e branco, o mural traz Cruz e Sousa em seu clássico retrato, cercado pela água do mar e ao lado de um cisne negro. O artista Rodrigo Rizo, autor do painel, explica que a imagem teve como inspiração o universo do poeta, que é marcado por elementos místicos e que remetem à transcendência. Mas, antes de começar o trabalho, ele próprio precisou redescobrir o homenageado.

— No meu primeiro contato com o Cruz e Sousa, na escola, achei a poesia interessante, mas confesso que não compreendi muito bem. Ficou a impressão da complexidade e do rebuscamento da linguagem. Foi só quando surgiu a ideia da homenagem que eu fui pesquisar mais, e então pude me aprofundar e compreender melhor as características e a relevância dele — comenta Rizo.

O painel de 900 metros quadrados de extensão levou quatro semanas para chegar ao formato final, e o artista estima que tenham sido usados nove galões de tinta e aproximadamente 150 latas de spray. No começo desta semana, Rizo trabalhava nos últimos detalhes da pintura, com a ajuda de outros dois grafiteiros, enquanto, na rua, o mural seguia capturando a atenção de quem passava.

A todo momento, pedestres paravam na calçada para observar e fotografar a imagem com o celular, enquanto alguns motoristas diminuíam a velocidade e esticavam o pescoço para observá-la.

— Fiquei encantada porque não ainda tinha visto uma pintura como essa tão gigante, tão perfeita. A gente olha, se acalma. Com certeza é algo que embeleza a cidade e deveria se repetir em outros locais — comenta Elione Ribeiro, 58 anos, que é moradora da Barra da Lagoa, na Capital.

Ela andava pela Praça XV e parou para fotografar. Mas, perguntada sobre a imagem, confessou que sabia pouco a respeito do homem retratado nela.

– É o Cruz e Sousa? Sou bem sincera em dizer, não conheço muito sobre ele – disse Elione.

Moacir Dias, 70 anos, morador do bairro Estreito, também parou para observar o painel e, assim como Elione, aprovou a iniciativa, apesar de não conhecer muito bem o homenageado.

— Muito bonito, já deviam ter feito há mais tempo, é algo que desperta a atenção da gente. Sobre o Cruz e Sousa, sei que é poeta, mas não li muita coisa dele.

Segundo Rodrigo Rizo, a ideia da obra é justamente essa: chamar a atenção das pessoas para o artista e suscitar o debate sobre seu significado.

— Cruz e Sousa é uma personalidade ilustre de Florianópolis que é pouco reconhecida pelas novas gerações. Quando uma obra como essa é feita, coloca em evidência os símbolos que ali estão representados. Isso gera o debate e fomenta o conhecimento sobre determinado tema. Além disso, promove a valorização do artista de rua como agente multiplicador da cultura, pois coloca a arte ao acesso de todos — destaca Rizo.

painel Cruz e Sousa
O artista Rodrigo Rizo trabalha nos últimos detalhes da pintura
(Foto: )

Evidência necessária

Pesquisadora da vida e da obra de Cruz e Sousa, a professora aposentada do curso de Letras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Zilma Gesser Nunes avalia que recolocar o artista florianopolitano em evidência é necessário. Ela observa que, muitas vezes, o poeta é pouco reconhecido enquanto artista catarinense até mesmo nas universidades.

— Eu achava impressionante quando eu começava a falar de literatura de Santa Catarina nas minhas aulas e os alunos, muitas vezes já na quinta, na sexta fase do curso de Letras, ficavam surpresos ao saber que Cruz e Sousa era catarinense. Ele precisa ser reconhecido como o poeta catarinense que foi, não só pelo fato de ter sido um grande simbolista, mas também pelo aspecto identitário, como um poeta negro — comenta Zilma.

Entre as características da obra simbolista de Cruz e Sousa, a professora cita os aspectos da transcendência, do misticismo, o trabalho com as rimas e também a musicalidade dos textos, além de uma maneira de descrever marcada pela intenção.

— Às vezes ele se torna um poema um tanto quanto hermético, porque o leitor precisa mergulhar para perceber as sugestões que vão aparecendo — diz a professora, que o coloca entre os grandes do movimento literário simbolista.

Nos últimos anos, porém, Zilma tem se dedicado a pesquisar outro aspecto da produção de Cruz e Sousa: a presença dos temas ligados à negritude. O material reunido por ela ao longo desse trabalho fará parte do livro "Negro", que deve ficar pronto em breve. A obra, organizada por ela e com lançamento previsto pela editora Caminho de Dentro, faz um apanhado de textos do autor que fazem referência a temas abolicionistas e à representatividade negra.

— Esse lado do Cruz e Sousa muitas vezes passa despercebido. Mas ele é bastante presente, sobretudo nos primeiros anos de produção. Esse livro trará uma visão não usual do poeta, que vai permitir que as pessoas vejam em conjunto a obra dele que destaca o negro de modo mais amplo, tanto o negro sofrido, a luta pela abolição, como também toda a beleza e orgulho da raça descritas por ele.

Histórico de lutas

Para o pesquisador e historiador Luiz Alberto Souza, resgatar a figura de Cruz e Sousa é importante não apenas para o contexto da cidade de Florianópolis e do estado de Santa catarina, mas também para a própria cultura brasileira.

— Além de representante da literatura, ele também é um grande ícone do movimento de resistência negra no Brasil, um personagem que, no seu tempo, teve uma atuação importante no movimento abolicionista no contexto brasileiro, sendo uma pessoa que atuou em diferentes cidades em prol dessa causa, e que recebeu reconhecimento de muitas lideranças como uma figura representativa. Acho que a importância desse resgate é, sobretudo, de natureza política — destaca.

Luiz Alberto Souza pontua que a trajetória do poeta e de sua família é marcada por momentos de racismo explícito, incluindo ameaças de agressão física por textos escritos por ele, muitos dos quais mal recebidos justamente porque ele era negro.

— O Cruz e Sousa era considerado um homem inferior por conta de sua cor, algo que para ele era totalmente irracional. Ele não conseguia compreender como a cor da pele de um homem poderia ser um sinal de inferioridade.

O pesquisador acredita que a luta representada por Cruz e Sousa continua atual e pertinente, e avalia que o resgate de seu legado é um trabalho importantíssimo para inspirar novas e velhas gerações.

— Eu acho que o Cruz e Sousa é uma figura que, sobretudo como personalidade histórica, é uma personagem que diz muito sobre o nosso tempo. A experiência, a trajetória, aquilo que ele sofreu e que ele pregou, como intelectual, como artista, aquilo que ele tentou denunciar nos textos como poeta e jornalista, são temas que ainda não foram superados pela sociedade brasileira.

Obra integra projeto que valoriza arte urbana

O painel em homenagem ao poeta Cruz e Sousa é a segunda etapa do projeto Street Art Tour, que busca valorizar e incentivar a arte urbana em Florianópolis. Num primeiro momento, o trabalho registrou e catalogou em plataforma digital mais de 100 murais na capital catarinense, além de fazer outros quatro murais na cidade.

No aplicativo criado pelo projeto (disponível para iOS e Android), é possível mapear e organizar um roteiro para conhecer obras de arte urbana de grandes dimensões, como o mural assinado pelo artista Thiago Valdi em homenagem a Franklin Cascaes, localizado de frente para a esquina da rua Vidal Ramos com a Deodoro.

A iniciativa foi idealizada pelo artista Rodrigo Rizo e por Marina Tavares e Arturo Valle Junior e tem patrocínio do município de Florianópolis e da Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

painel de cima
Vista aérea mostra painel, palácio e parte do Centro de Florianópolis
(Foto: )

Principais obras de Cruz e Sousa

- Missal (1893)

- Broquéis (1893)

- Evocações (1898)

- Faróis (1900) - póstumo

- Últimos sonetos (1905) - póstumo

Linha do tempo

- 1861

Nasce João da Cruz e Sousa, em 24 de novembro, em Florianópolis (então Desterro), filho de escravos negros

- 1871

Inicia os estudos no conceituado colégio Ateneu Provincial Catarinense

- 1877

Passa a ministrar aulas particulares para se sustentar. Publica alguns versos em jornais locais

- 1881

Funda, junto com Virgílio Várzea e Santos Lostada, o jornal "Colombo", já com conteúdo abolicionista

- 1884

É nomeado promotor de Laguna, mas, por sofrer repúdio de outros políticos, não assume o cargo. Passa a chamar a atenção pelos inflamados discursos contra a escravatura. Assume a direção do jornal "O Moleque", onde publica sátiras e textos abolicionistas

- 1885

Lança sua primeira obra, intitulada "Tropas e Fantasias", em parceria com Virgílio Várzea

- 1890

Muda-se para o Rio de Janeiro, onde trabalha como arquivista na Central do Brasil

- 1893

Casa-se com a também poeta Gavita Rosa Gonçalves. No mesmo ano, publica "Missal" e "Broquéis", duas das suas principais obras e marcos do simbolismo

- 1898

Contrai tuberculose, e se muda com a família para um sítio na cidade Antônio Carlos, em Minas Gerais, mas acaba morrendo no dia 19 de março, aos 36 anos.

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