O Festival Literário de Santa Catarina teve um dia voltado à literatura infantil, nesta terça-feira (26), em Joinville. A jornalista e escritora Gabriela Romeu falou sobre as vivências que teve e as crianças que conheceu em regiões com grandes rios, que a ajudaram a escrever a obra “Diário das Águas”. A palestra contou com a presença de alunos de escolas públicas do município.
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Durante a conversa “Nem todo peixe conta onde mora”, Gabriela contou sobre as histórias que conheceu navegando por rios do país. Com base em suas andanças nasceu o “Diário das Águas”, um livro ilustrado onde o tempo é o da escuta e o ritmo é o do rio. Em suas páginas, a obra apresenta versos-piracemas, listas, nomes, receitas, poemas e dizeres compostos com os registros em desenho do artista Kammal João.
Foram 10 anos viajando a diferentes regiões do país até chegar à publicação do livro, em 2022. A autora ainda conta que suas aventuras a levaram a 87 horas transitando em estradas, uma caderneta cheia de palavras novas aprendida e oito temporais a bordo. Nenhum peixe foi fisgado, mas há incontáveis horas junto a rios brasileiros.
Escrita para o público infantojuvenil, a obra reúne também vivências de crianças e adolescentes que moram, sobretudo, às margens de grandes rios, como o Amazonas e o São Francisco. Gabriela os chama carinhosamente de “crianças das águas”.
Foram elas que ensinaram à Gabriela a verdadeira imensidão da natureza, por meio de águas calmas que geram renda, alimento e diversão a muitas famílias. Apesar de todo o conhecimento adquirido durante os 10 anos de viagens, a jornalista revelou no Festival Literário que voltou à sua terra, São Paulo, sem saber remar nem pescar.
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O assunto provocou curiosidade entre o público presente na palestra. Uma professora questionou o que levou Gabriela a escolher a água como personagem principal de seu livro.
— Foi uma, um momento da vida que eu vivi e que eu percebi que eu precisava conhecer mais aquilo. Como jornalista me mandaram para o Rio Amazonas. E aí chego no Rio Amazonas e eu não conseguia ver o outro lado. Eu não conseguia ver a outra margem. Eu falava assim: “Mas é rio mesmo? Parece o mar”. E os barcos, até os grandes, pareciam um barquinho de brinquedo. Aquela imagem foi tão arrebatadora que eu falei: “Eu preciso conhecer os rios brasileiros e o que é viver nesse balanço das águas, o que é viver com as enchentes e com as vazantes, com o ciclo das águas — respondeu.
Veja fotos da palestra de Gabriela Romeu
Carreira focada nas crianças
Gabriela Romeu é escritora, jornalista, documentarista e pesquisadora dedicada às múltiplas infâncias brasileiras. Sua trajetória é marcada pela escuta sensível das crianças e pela valorização do brincar, da imaginação e das culturas populares na literatura e nas artes voltadas ao público infantil.
Gabriela revela ao NSC Total que seu foco profissional sempre foi nas crianças. Ainda na faculdade, por exemplo, produziu um jornal para esse público.
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— Quando terminei a faculdade de jornalismo eu descobri que eu não gostava muito de notícia. Eu gostava de contar a história, mas eu não queria ser jornalista de hard news. Aí eu falei: “Ah, eu devia ter feito educação, pedagogia, ter feito arte…” — relembra.
Foi nessa época que Gabriela pensou novamente nelas: as crianças. Então, decidiu arriscar e aplicou para um processo seletivo para atuar na Folha de S.Paulo, no caderno Folhinha. Ela foi aprovada e, durante o tempo na empresa, desenvolveu projetos ligados ao universo da infância.
Ao longo da carreira, Gabriela foi migrando de forma natural para a literatura, onde encontrou a sua verdadeira paixão. Para ela, a “palavra é o nosso brinquedo”.
— Quando vi que minha carreira no jornal eu já tinha feito, eu não queria ir para outros outros setores, eu decidi me dedicar a literatura infantil. Então, na verdade, o meu interesse começou antes com as crianças, depois que veio a literatura. Com as crianças, aí fui para o jornalismo e chegou a literatura — conta.
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Confira fotos do Festival Literário de Santa Catarina
Leitores no Brasil
A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2024, mostra que o número de leitores vem caindo nos últimos anos no país. De 52% em 2019, o número de pessoas consideradas leitoras passou para 47% em 2024.
Para Gabriela Romeu, o trabalho de escritores como ela — autora de mais de 30 livros — pode contribuir para reduzir o impacto negativo das novas tecnologias na formação de jovens leitores. Ainda assim, afirma que é necessária uma atuação consistente na construção de políticas públicas voltadas à literatura.
— Nosso país precisa ter políticas públicas para que os livros cheguem às escolas, às bibliotecas, aos espaços de leitura, aos pontos de cultura. É desafiador formar leitor, sim, mas a gente precisa ter livro acessível — comenta.
Festival Literário de Santa Catarina
O Festival Literário de Santa Catarina ocorre até domingo (31) no Expocentro Edmundo Doubrawa, com atividades também no Teatro Juarez Machado.
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