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    Entrevista

    Para psicóloga, apoio familiar é fundamental como garantia de segurança da população LGBTI

    Pesquisa revelou que grande parte da comunidade LGBTI se sente insegura física ou emocionalmente nas próprias casas

    29/06/2020 - 11h01

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    Por Ângela Prestes
    Pâmela Santos é psicóloga e ativista dos direitos LGBTIs
    Pâmela Santos é psicóloga e ativista dos direitos LGBTIs
    (Foto: )

    A pandemia de coronavírus trouxe à tona uma dificuldade enfrentada por muitos gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis: a convivência com a família. Um mapeamento realizado pelo coletivo #VoteLGBT revelou que entre a comunidade LGBTI, os índices de desemprego e problemas de saúde mental são maiores se comparados ao restante da população. A ajuda psicológica é essencial para quem passa por um momento de sofrimento mental como esse. 

    Pâmela Santos é psicóloga, com especialização em Avaliação Psicológica, Neuropsicopedagogia e Educação Especial Inclusiva, Educação Permanente em Saúde, Preceptoria para o SUS e mestra em Ambiente e Saúde.

    Ela destaca a necessidade do desenvolvimento e fortalecimento de políticas públicas e programas que garantam às pessoas LGBT condições de viver com dignidade e proteção em relação à manutenção da própria vida. Confira a entrevista a seguir:

    Qual a importância do apoio da família para quem é LGBTI?

    Geralmente a família nuclear, biológica, é o primeiro grupo que reproduz a violência contra as pessoas LGBTQIA+, seja a violência psicológica (humilhações, desrespeito), verbal (xingamentos, gritos) física, sexual, privação de liberdade, econômica, LGBTfobia e preconceito. Essas violências acontecem concomitantemente e dependendo do grau de dependência da pessoa, podem ser mais intensas se pensarmos, por exemplo, no caso de crianças e adolescentes que têm uma maior dependência em relação à família por conta da própria fase da vida. Em tempos de pandemia, as pessoas LGBTQIA+ que estão em quarentena com as famílias que podem ser violentas, encontram uma intensificação do sofrimento em consequência dessas violências. Assim, é evidente que o apoio familiar é fundamental como garantia de segurança dessa população. Vale destacar que muitas vezes esse apoio não é encontrado na família biológica, e isso faz com que as pessoas LGBTQIA+ estabeleçam esses vínculos com outros grupos que cumpram esse papel afetivo, de apoio e proteção.

    Há relatos sobre como a participação ativa na comunidade LGBTI ajuda a enfrentar esse tipo de problema. Como a privação dessa convivência impacta na vida da pessoa?

    Justamente porque é na comunidade LGBTQIA+ que essa população encontra suporte, identificação, possibilidade de trocas afetivas e segurança; essa comunidade é o espaço onde as pessoas são aceitas como são, sem julgamentos. As pessoas precisam do contato afetivo com outras para dar significado à própria existência. Se a comunidade LGBTQIA+ era o único espaço para esse contato, se percebe o aumento da vulnerabilidade dessa população e a necessidade de reinventar a maneira de se relacionar e de manter esses vínculos, que são essenciais para manutenção da saúde mental. Um exemplo dessa nova forma de participação comunitária foi a Parada LGBT de SP, que aconteceu no último dia 14 de forma on-line e possibilitou que muitas pessoas pudessem se conectar e refletir sobre essa nova condição que estamos vivendo. A necessidade de isolamento social transformou as formas de relações, e de um modo geral as consequências do isolamento impactam as pessoas como um todo, mas não estamos em iguais condições. Sendo assim, os grupos mais vulneráveis, como a população LGBTQIA+, acabam por sofrer mais esses impactos e necessitam de mais atenção.

    Quais as consequências posteriores que o isolamento pode causar para a saúde mental de quem sofre esse tipo de abuso?

    A população LGBTQIA+, quando comparada com pessoas heterossexuais, já apresenta maior propensão ao desenvolvimento de transtornos mentais como depressão e ansiedade, maior uso, abuso e dependência de drogas lícitas e ilícitas, estão mais suscetíveis ao suicídio e sofrem com mais conflitos familiares, tudo em consequência do convívio diário com o estigma social e com o enfrentamento do preconceito, que se manifesta de diferentes formas. Uma pesquisa feita pela ONG Vote LGBT, trouxe como resultados preliminares a grande preocupação dessas pessoas em lidar com questões de saúde mental nesse momento. Tanto durante esse período quanto após, será necessário buscar formas de minimizar esses impactos e promover espaços de acolhimento à essas demandas específicas, que muitas vezes são invisibilizadas.

    Que conselhos você daria para pessoas que estão passando por situações como essa?

    As experiências são sempre muito pessoais e individuais, mas existem alguns canais de apoio para quem sofre esses tipos de violência. É importante destacar que nesse momento precisamos estar isolados, mas isso não significa que precisamos estar sozinhos. É fundamental se informar sobre onde buscar ajuda, seja de maneira on-line ou presencial, buscar identificar uma rede de apoio alternativa, buscar informações nesse momento através de canais seguros na internet, no YouTube, e é especialmente importante entender quando se faz necessário pedir ajuda especializada. Destaco que a LGBTfobia é crime e pode ser denunciada.

    Você tem notado nesse período um aumento da angústia por quem precisa conviver com a família e não tem apoio?

    Infelizmente a maioria dos casos de pessoas LGBTQIA+ que chegam aos serviços de saúde e clínicas privadas trazem essa demanda de conflitos familiares e sofrimento decorrente do preconceito. Esse período desestabilizou nossa forma de conviver, nossos hábitos, nossa rotina, nossa autonomia e, como não poderia deixar de ser, diminuiu as possibilidades de busca de apoio. Não temos mais escola nem faculdade, nossa possibilidade de transitar está diminuída e também diminuíram nossas interações. Esses são fatores que intensificam o sofrimento e dificultam as possibilidades de apoio, porém elas ainda existem.

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