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    Oscar 2020

    "Parasita": politicagem ou quebra de paradigmas?

    O filme sul-coreano fez história no Oscar 2020 ao ser o primeiro longa falado em um idioma que não o inglês a vencer a categoria de Melhor Filme

    14/02/2020 - 12h07 - Atualizada em: 14/02/2020 - 12h21

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    Marina
    Por Marina Martini Lopes
    "Parasita", filme do cineasta sul-coreano Bong Joon-ho, ganhou o mundo ao longo de 2019 e foi o grande vencedor do Oscar 2020
    "Parasita", filme do cineasta sul-coreano Bong Joon-ho, ganhou o mundo ao longo de 2019 e foi o grande vencedor do Oscar 2020
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    Em política, o termo "janela de Overton" se refere ao conjunto das ideias aceitas no discurso público: com o passar dos anos e a mudança de paradigmas, uma ideia que não era sequer tolerada pode passar a ser aceita por um determinado grupo de pessoas, se espalhar a partir dele, e, um dia, até mesmo se tornar senso comum. Parasita, filme do cineasta sul-coreano Bong Joon-ho que ganhou o mundo ao longo de 2019 e foi o grande vencedor do Oscar 2020, parece ter feito a ideia "um filme estrangeiro, falado em outra língua que não o inglês, ganhar os principais troféus na maior premiação do cinema norte-americano" entrar na janela de Overton: um feito inédito na longa história dos Prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, cuja primeira edição foi realizada em 1929.

    As vitórias de Parasita (que foi nomeado Melhor Filme, além de ter ganhado os troféus de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Roteiro Original) e de Bong Joon-ho (que levou o prêmio na categoria Melhor Direção) foram celebrada por cinéfilos de todo o mundo, que viram no acontecimento uma possível maior abertura das premiações cinematográficas e do próprio mercado norte-americano a filmes produzidos em outros países e falados em outros idiomas.

    Em anos anteriores, afinal de contas, os fãs de cinema já haviam passado por frustrações envolvendo a questão: em 2019, Roma, do diretor mexicano Alfonso Cuarón, venceu a categoria Melhor Filme Estrangeiro, mas perdeu o prêmio principal para Green Book: O Guia, de Peter Farrelly - em um resultado "ofensivo", nas palavras do crítico Daniel Medeiros, doutorando em Cinema e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema. "A questão é que a Academia não costuma premiar o melhor filme", ele diz. "Normalmente, o eleito é um filme mediano, às vezes menos artístico ou experimental, que agrada mais gente. Green Book não era, de maneira nenhuma, o melhor filme indicado, mas foi o filme vencedor."

    "Quem acompanha esse mundo já tem na cabeça o que se chama de 'filme de Oscar': certos filmes, certos temas, certos diretores que sempre se repetem", comenta Ramayana Lira de Sousa, professora do Curso de Cinema e Audiovisual da Unisul e presidente do Fundo Municipal de Cinema de Florianópolis. "Por isso tanta gente apostava em 1917, talvez até em Era Uma Vez em... Hollywood. Parasita parecia uma aposta muito fora da realidade."

    1917, o drama de guerra do diretor Sam Mendes, também já havia vencido as principais categorias em todas as premiações anteriores, como o Globo de Ouro, o Bafta e o prêmio do Sindicato dos Produtores de Hollywood; um favoritismo que costuma se repetir no Oscar. "A empolgação com o Oscar tem que ser temperada com a percepção de que se trata de uma premiação entregue por uma indústria específica, nacional, voltada para a produção estadunidense de cinema - então é um prêmio que reflete os movimentos dessa indústria", Ramayana destaca. O máximo que a Academia havia feito até agora era premiar O Artista, um filme francês mudo - ou seja, um caso em que o idioma estrangeiro não foi um obstáculo.

    Ramayana vê com otimismo o destaque dado a Bong Joon-ho. "Dentro dessa coisa massificada que é a indústria cinematográfica, sempre há espaço para pequenas rotas de fuga dessa trajetória que parece ser sempre a mesma", opina. "Existe um reconhecimento do desgaste da própria indústria hollywoodiana. Hollywood olha para si e vê que falta fôlego nos seus filmes. Eles são produzidos a toque de caixa, muitas vezes obedecendo a fórmulas que não oferecem mais nenhum frescor estético, nenhum desafio para o espectador. A indústria estadunidense tem percebido que tem menos a oferecer ao mundo, e ido buscar o que o mundo tem a oferecer." E é interessante notar, claro, que esse não é um movimento isolado: nos últimos anos, a Academia tem dado passos, ainda que tímidos, em direção a uma maior internacionalização. Os cineastas mexicanos Alfonso Cuarón, Alejandro González Iñárritu e Guillermo del Toro levaram, juntos, metade dos troféus de Melhor Direção da década de 2010.

    Mas existe um outro lado nisso. "Parasita ganhou por uma questão política", crava Daniel. Ele explica: "Ele era sim o melhor filme concorrendo - mas isso nunca foi garantia de sair vencedor. Neste ano, o Oscar foi extremamente criticado pela falta de representatividade entre seus indicados. Não havia nenhuma mulher concorrendo na categoria de direção, nenhum ator negro concorrendo, apenas uma atriz negra indicada. E isso pesou nos votos. É quase como se fosse uma maneira de tentar contornar as críticas. A Academia parece estar sempre tentando corrigir erros que na verdade volta a repetir."

    Ou seja, a vitória do longa sul-coreano não quer dizer necessariamente que outros filmes internacionais terão espaço garantido em edições futuras da premiação. "Há muita coisa em jogo", dia Daniel. "As pessoas se esquecem de que os grandes estúdios chegam a separar orçamento para fazer campanha para que seus filmes sejam nomeados e premiados."

    Bong Joon-ho, diretor de "Parasita"
    Bong Joon-ho, diretor de "Parasita"
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    Uma questão central - e pouca lembrada - é a da audiência: atualmente o Oscar tem, nos Estados Unidos, pouco mais de metade da audiência que costumava ter há dez ou quinze anos. O grande público norte-americano tem uma reconhecida resistência a ver filmes falados em outros idiomas e a depender de legendas. Será que, caso a Academia se abra a filmes independentes, internacionais, a audiência não pode cair ainda mais? "Eu acho que a tendência é justamente o contrário", reflete Daniel. "Devemos ver cada vez mais filmes de grandes estúdios, blockbusters mesmo, sendo nomeados; como aconteceu com Pantera Negra em 2019."

    A discussão em torno dos motivos que levaram as estatuetas do Oscar até as mãos de Bong Joon-ho, porém, não tira os méritos do diretor. "Bong Joon-ho faz filmes de fácil comunicação com o público, mas que ao mesmo tempo não subestimam o espectador", Ramayana comenta. "Ele pode ser uma surpresa para o grande público, mas quem conhece a filmografia do Bong Joon-ho já viu em outros filmes o que ele fez em Parasita", completa Daniel. "Talvez o que tenha chamado atenção especificamente para esse filme tenha sido a abordagem da divisão de classes, que foi um dos grandes temas de 2019 - e que está presente em outros filmes da temporada, como o próprio Coringa."

    Para o público, o que fica é a lição deixada por Bong Joon-ho em seu discurso no Globo de Ouro: "Quando superarem a barreira das legendas, vocês vão conhecer muitos filmes incríveis", declarou o cineasta, ao receber mais um de tantos troféus por Parasita. E, por mais divertido que seja participar de apostas sobre o Oscar e assistir à cerimônia, prestar mais atenção em produções vindas de lugares que não os grandes estúdios hollywoodianos não deveria depender de janela de Overton, campanhas milionárias ou prêmios acumulados. Ainda mais levando em conta tudo o que está em jogo na hora de distribuir as estatuetas.

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