nsc
    dc

    SEM CACHÊ

    Pedido para que artistas se apresentassem de graça na Ponte Hercílio Luz gera protestos 

    Profissionais da música de Florianópolis se consideram desrespeitados pelo governador Carlos Moisés, que pediu artistas voluntários 

    06/01/2020 - 10h57 - Atualizada em: 06/01/2020 - 11h58

    Compartilhe

    Por Ângela Bastos
    Ponte Hercílio Luz
    A programação do Projeto Viva a Ponte e se encerrou na tarde deste domingo
    (Foto: )

    A atriz Tônia Carrero (1922-2018) esteve poucas vezes em Florianópolis. Mas uma de suas frases é lembrada pela classe artística da cidade quando o assunto é a (des)valorização do trabalho.

    — Pedem pra darmos a única coisa que temos para vender.

    A expressão foi resgatada diante da polêmica que se formou com a decisão do governo do Estado em não pagar cachê para os profissionais da área que durante cinco dias participaram da reabertura da Ponte Hercílio Luz. A programação do Projeto Viva a Ponte envolveu atrações artísticas, esportivas, gastronômicas e se encerrou na tarde deste domingo com a apresentação da Orquestra de Baterias de Florianópolis.

    O papel dos governos é apoiar, incentivar e patrocinar Sílvia Beraldo, professora de música, compositora e arranjadora.

    — Não se pede para um engenheiro fazer uma obra de graça ou a um dentista fazer tratamento gratuito. Qual o motivo em se pedir a um músico, a um cantor, a um instrumentista? — indaga Sílvia Beraldo, professora de música, compositora, arranjadora.

    Para Sílvia, também autora de trilhas para filmes, a proposta feita pelo governador Carlos Moisés que escreveu nas redes sociais que procurava “gente boa pra solenidade, artistas voluntários (sem ônus para o Estado), mas eternizados na história de Santa Catarina e do Brasil” foi desrespeitosa.

    — O papel dos governos é de apoiar, incentivar e patrocinar a cultura. Esta atitude inverteu o processo, e por isso lembramos da Tônia Carrero: o governador Moisés pediu aos artistas que dessem a única coisa que eles têm para cobrar, o trabalho, fruto da profissão.

    Cada um sabe de si, mas existe a depreciação da categoria" Cláudia Zininho, cantora

    A cantora Cláudia Zininho também se posicionou de forma contrária. Ela conta ter sido convidada pelo governo para cantar Rancho de Amor à Ilha, de Zininho, mas se negou.

    — Achei vergonhoso recrutar as pessoas, pois se tratava de um evento que há 30 anos está aí subtraindo os cofres públicos. Só isso já mostra a disparidade e o absurdo, acrescido do demérito em que o governador coloca a cultura da cidade.

    — Cada um sabe o valor de seu trabalho e cobra ou deixa de cobrar o que quiser, mas a depreciação da categoria não é levada em conta.

    Para Claúdia, é importante que se forme uma consciência do papel do artista, do profissional que vive da arte para depois não ter que “esmolar por aí”.

    O poder público se mostra adversário e não aliado para fomentar a cultura” Wagner Segura, violonista

    Para o violonista Wagner Segura, que há anos mantém uma escola e responsável por ensinar gerações, o pedido do governador em que as apresentações fossem gratuitas é mais uma prova do baixo nível com que a arte e a cultura estão sendo tratadas. Para Segura, ainda que não houvesse verba, o governador deveria ter tratado o assunto de uma forma mais sensível.

    — Se o governador de Santa Catarina tem essa cara de pau, o que esperar sobre uma política de cultura? Se a maior autoridade do Estado tem essa mentalidade - e seus assessores, já que nenhum se manifestou em contrário - o que se pode aguardar para os próximos anos?

    Para o músico, “o poder público se mostra adversário, e não aliado para fomentar a cultura”. Segura observa que os teatros estão fechados, que não existe uma apresentação nas praças nos mercados, nas praias.

    — A gente se sente envergonhado, mas não se pode esperar nada. Ao contrário, cada vez tem menos participação do governo atual.

    Gastam R$ 600 milhões para resgatar o patrimônio, mas não valorizam os artistas da terra" Denise de Castro, cantora

    Formada em Música pela Udesc/Ceart, a cantora Denise de Castro também acha que a iniciativa do governador foi desastrosa. A professora de piano, teclado e canto na Escola Livre de Música Compasso Aberto, no centro de Florianópolis, acredita na falta de valorização dos artistas locais:

    — Vejam bem: é feito uma festa para entregar um patrimônio histórico à cidade, obra esta onde foram gastos cerca de R$ 600 milhões, se organiza uma festa de cinco dias em comemoração e o evento fica sem uma cara cultural?

    Para Denise, o não pagamento de cachê permitiu com que não houvesse cobrança sobre a qualidade das apresentações:

    — Eu atravessei a ponte com uma trilha de um sertanejo desafinado e voltei com uma música gospel completamente descontextualizada. Imagino que os turistas presentes pensaram que aqui não há compositores que cantem a nossa terra — diz.

    Segundo a assessoria do governo, mais de 1,1 milhão de pessoas passaram pelo Viva a Ponte.

    Para o governo, o Viva a Ponte pretendeu ser um espaço democrático

    O governo do Estado reagiu à manifestação dos artistas. Em nota, explica que o projeto Viva a Ponte pretendeu ser um espaço democrático para que diferentes artistas da cultura popular, de diversos estilos e de todas as regiões do Estado pudessem participar do histórico. Com isso, subiram ao palco, durante sete dias de evento, variados estilos musicais, além de folclore, coral e contação de histórias.

    Para participação dos artistas o Estado publicou um edital de chamamento público.

    O Governo do Estado diz reconhecer e enaltece a importância da cultura para a vida das pessoas e informa ter investido, em 2019, cerca de R$ 9,8 milhões, com recursos próprios, em dois editai para o setor: o Prêmio Elisabete Anderle e Prêmio Catarinense de Cinema. Conforme a nota, foi a primeira vez que o governo estadual pagou no mesmo ano os valores: R$ 5.600.000,00 ao Elisabete Anderle, destinados a projetos de Patrimônio Cultural, Artes e Artes Populares, e R$ 4.260.000,00 para o Prêmio Catarinense de Cinema.

    Deixe seu comentário:

    Últimas notícias

    Loading... Todas de Política

    Colunistas