A cura do câncer é um dos principais objetivos da medicina moderna, apenas entre o período de 1999 a 2024 foram publicados 2,6 milhões de artigos sobre o tema. Porém, uma inteligência artificial encontrou possível fraude em cerca de 261 mil destes estudos.

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O software de IA encontrou padrões suspeitos em quase 10% do montante dos trabalhos analisados neste período. O sistema reconheceu semelhanças entre esses textos e pesquisas já retiradas de circulação por possível ligação com “fábricas de artigos”.

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O que foi descoberto?

Essa descoberta é de um estudo publicado no periódico The BMJ que utilizou um modelo baseado no BERT, um sistema de inteligência artificial desenvolvido para reconhecer relações e padrões presentes em textos.

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Os pesquisadores treinaram a ferramenta com 2.202 artigos já retirados de circulação por suspeita de terem sido produzidos por fábricas de pesquisas, empresas especializadas na venda de artigos. Depois, com esse padrão, o modelo analisou títulos e resumos de estudos sobre câncer.

Durante os testes de validação, a ferramenta alcançou uma precisão de 91% na separação entre os textos fraudulentos e legítimos

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“Construímos essencialmente um filtro de spam científico.”

afirmou Adrian Barnett, pesquisador da Universidade de Tecnologia de Queensland e um dos autores do trabalho em comunicado oficial

Quase 10% de artigos suspeitos

Ao aplicar o modelo a 2.647.471 publicações, os pesquisadores sinalizaram 261.245 artigos. O resultado representa 9,87% de todo o material analisado pela ferramenta.

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Outro ponto destacado pelos pesquisadores foi que a proporção de textos suspeitos está aumentando com o passar dos anos. As publicações dos anos 2000 possuem cerca de 1% de textos suspeitos, mas em 2022 essa proporção já ultrapassa 16% do total.

O aumento também apareceu entre os 10% de periódicos com maior fator de impacto. Ou seja, mesmo essas equipes de revisão editorial também falham em encontrar esses artigos suspeitos (Foto: Mikhail Nilov / Pexels)

Dentre os textos suspeitos, a maioria deles eram as chamadas pesquisas básicas. Esse tipo de trabalho estuda células, genes ou mecanismos biológicos, buscando propriedades que possam ser utilizadas posteriormente em novos tratamentos e medicamentos.

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Além disso, artigos relacionados a câncer de estômago, fígado e ossos registraram algumas das maiores proporções de textos sinalizados. A pesquisa também encontrou um volume elevado em estudos sobre câncer de pulmão.

Possível fraude, mas incerta

Apesar da dimensão dos números, os autores não classificam automaticamente os artigos sinalizados como fraudulentos. O sistema encontrou suspeitas baseadas em padrões linguísticos, mas não investigou cada texto individualmente a fundo.

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Uma pesquisa legítima pode usar estruturas comuns de sua área, padrões ou apresentar um estilo semelhante ao encontrado em textos problemáticos. Por isso, falsos positivos não podem ser descartados.

Além disso, a ferramenta analisou principalmente títulos e resumos. Ela não verificou diretamente os cadernos e credenciais de cada autor (Foto: Artem Podrez / Pexels)

Fábricas de artigos científicos

As chamadas paper mills, ou fábricas de artigos, são empresas que produzem pesquisas falsas ou de baixa qualidade para pesquisadores interessados em aumentar artificialmente o número de publicações no currículo ou empresas interessadas em publicidade acadêmica.

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Em alguns casos, essas organizações vendem um artigo inteiro. Em outros, comercializam posições entre os autores, permitindo que uma pessoa apareça como responsável por uma pesquisa da qual não participou.

Entre os sinais mais comuns neste tipo de operação estão:

  • estruturas de texto repetidas em vários artigos;
  • dados, experimentos ou imagens possivelmente fabricados;
  • autores que compraram espaço na publicação.

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A fraude neste tipo de trabalho costuma ser difícil de notar à primeira vista, pois, em sua maioria, contam com elementos validadores: dados sólidos, linguagem técnica e referências. O reconhecimento da ilicitude geralmente só é possível comparando-os com textos legítimos.

Uma pesquisa publicada na revista PNAS encontrou indícios de redes criminosas que conectam produtores de textos, compradores de autoria, intermediários e periódicos vulneráveis à infiltração desse tipo de artigo.

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Os pesquisadores reuniram dados de artigos, imagens duplicadas, processos editoriais e revistas removidas de bases científicas. A análise encontrou mais de 32 mil trabalhos suspeitos associados a diferentes editoras.

Entre 2016 e 2020, a produção atribuída a essas redes praticamente dobrou a cada 18 meses, ritmo superior ao crescimento das publicações científicas legítimas durante o mesmo intervalo.

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Segundo os pesquisadores, essas redes driblam regras mais rígidas ao ajustar textos ou migrar de revista (Foto: Ron Lach / Pexels)

Malefícios dos artigos falsos

Um artigo de laboratório não muda imediatamente o tratamento de uma pessoa com câncer. Entretanto, ele pode influenciar quais moléculas serão estudadas, quais experimentos receberão recursos ou quais hipóteses serão testadas.

Quando dados fabricados entram nessa cadeia, outros cientistas podem gastar tempo e dinheiro tentando reproduzir resultados inexistentes. Pesquisas posteriores também podem citar o artigo e ampliar o alcance da informação falsa.

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“Se estudos fabricados entrarem na base de evidências, eles podem enganar cientistas reais e, no fim, retardar o progresso para os pacientes.”

afirmou Barnett, autor do primeiro estudo mencionado