nsc
dc

CIÊNCIA

Pesquisa que encontrou coronavírus no esgoto de Florianópolis pode ajudar a traçar histórico do vírus

Estudo que encontrou material em coleta de novembro de 2019 comprova que vírus circulava meses antes dos primeiros casos confirmados, dizem pesquisadores

02/07/2020 - 16h22 - Atualizada em: 02/07/2020 - 16h23

Compartilhe

Lucas
Por Lucas Paraizo
Coronavírus
Presença das partículas virais aumentou a cada amostra entre novembro do ano passado e março de 2020
(Foto: )

A pesquisa sobre coronavírus em esgotos divulgada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) nesta quinta-feira (2) pode ajudar estudos internacionais na tarefa de buscar a origem do vírus. Em um resultado inédito nas Américas, as pesquisadoras catarinenses concluíram que o SARS-CoV-2 já circulava em Santa Catarina desde novembro de 2019. Os primeiros casos confirmados no Brasil foram registrados somente no final de fevereiro de 2020.

> Painel: acompanhe a evolução da Covid-19 em Santa Catarina

O resultado da pesquisa traz respostas e também uma série de novas perguntas durante a pandemia. Segundo a professora da UFSC Gislaine Fongaro, do Laboratório de Virologia Aplicada da universidade, é possível que pessoas em Florianópolis já estavam contaminadas e não apresentaram sintomas, ou apenas não foram diagnosticadas com covid-19, visto que em novembro de 2019 a doença ainda não era conhecida. Os primeiros casos confirmados em Wuhan, na China, ocorreram apenas no fim de dezembro.

- Na época não tinha como desconfiar, não se sabia ainda que o vírus existia. Mas o vírus realmente circulava antes da gente saber. Esse é o primeiro resultado de amostra retrospectiva de esgoto no Brasil. Em Wuhan, em Múrcia na Espanha e na Itália houveram acessos em esgoto retrospectivo e também comprovaram que antes mesmo de ter os primeiros casos diagnosticados, o esgoto já era testemunha que o vírus estava por ali - explica a pesquisadora.

O grupo de pesquisa da UFSC analisou amostras congeladas de esgoto bruto da rede de saneamento de Florianópolis, antes do material passar pelas estações de tratamento. As primeiras amostras analisadas eram do começo de outubro do ano passado e tiveram resultado negativo. As primeiras partículas virais do coronavírus apareceram em 27 de novembro, em uma amostra da região central de Florianópolis. O volume de partículas encontradas foi aumentando a cada nova análise, de novembro até março, conforme a pandemia avançou.

Os detalhes da pesquisa foram divulgados pelas pesquisadoras Gislaine Fongaro, Patrícia Hermes Stoco e Maria Elisa Magri em uma coletiva de imprensa virtual nesta quinta-feira à tarde. Os resultados não são mais preliminares e passaram por uma série de testes que comprovaram a presença do vírus. O próximo passo é identificar o tipo de coronavírus presente nas amostras, se é apenas de uma cepa ou de tipos diferentes, e comparar o resultado com bancos de dados internacionais.

Fongaro explicou que o esgoto sanitário é um caminho para análise do coronavírus pois ele é excretado pelas fezes humanas. No entanto, por características do SARS-CoV-2, o risco do esgoto representar um canal de contaminação é baixo, pois o vírus se degrada rapidamente e perde seu poder de infecção. Para aparecer nas fezes humanas e, consequentemente no esgoto, as pesquisadoras apontam que o vírus já estava presente pelo menos 20 dias antes - tempo necessário para circular pelo organismo de uma pessoa.

Além de estudos sobre a origem e a trajetória do novo coronavírus, o estudo aprofundado da presença do vírus nos esgotos pode trazer novas ferramentas de análise e combate à pandemia, como estimativas de pessoas infectadas por região.

Colunistas