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    Pesquisadores debatem infectar pessoas de propósito para testar vacinas contra o coronavírus

    Os defensores dessa estratégia, chamada de teste de desafio humano, dizem que ela poderia economizar tempo, já que, em vez de realizar os testes da maneira convencional, os pesquisadores poderiam simplesmente infectá-las

    15/07/2020 - 13h31

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    Por The New York Times
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    O teste de desafio foi usado para testar vacinas contra febre tifoide, cólera, malária e outras doenças.
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    *Por Denise Grady

    Uma maneira rápida de ver se uma vacina contra o coronavírus funciona seria imunizar pessoas saudáveis e depois expô-las deliberadamente ao vírus, sugerem alguns pesquisadores.

    Os defensores dessa estratégia, chamada de teste de desafio humano, dizem que ela poderia economizar tempo, já que, em vez de realizar os testes da maneira convencional – esperando as pessoas vacinadas encontrarem o vírus naturalmente –, os pesquisadores poderiam simplesmente infectá-las.

    O teste de desafio foi usado para testar vacinas contra febre tifoide, cólera, malária e outras doenças. Para a malária, os voluntários enfiaram os braços em uma câmara cheia de mosquitos para serem picados e infectados. Mas havia os chamados medicamentos de resgate para curar os que ficassem doentes. No entanto, não há cura para a Covid-19.

    Por razões éticas e práticas, a ideia de usar o teste de desafio para uma vacina contra o coronavírus provocou um debate acalorado.

    Em um rascunho de relatório publicado no mês passado, a Organização Mundial da Saúde declarou que o teste de desafio poderia produzir informações importantes, mas que seria terrível realizá-lo devido ao potencial do coronavírus "de causar doenças graves e fatais e à sua alta transmissibilidade".

    O relatório, feito por um painel consultivo com 19 membros, forneceu diretrizes detalhadas sobre a maneira mais segura de conduzir o teste de desafio, recomendando que ele seja limitado a pessoas saudáveis com idade entre 18 e 25 anos, pois elas têm menos risco de desenvolver doenças graves ou de morrer em decorrência do vírus. O vírus – em uma dose cuidadosamente calculada para infectar, mas pouco suscetível de causar doenças graves – seria pingado pelo nariz.

    Mas o painel também mostrou que seus membros estavam divididos, quase meio a meio, em várias questões importantes. Eles discordaram em muitos pontos: se o teste deveria ser realizado mesmo que não exista nenhum tratamento altamente eficaz para ministrar aos participantes que ficarem doentes; se o teste realizado em adultos jovens saudáveis poderia prever a eficácia de uma vacina para idosos ou outros adultos em grupos de alto risco; e se os testes de desafio poderiam realmente acelerar o desenvolvimento da vacina.

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    Nos Estados Unidos, os pesquisadores do governo dizem que, embora seu foco principal sejam os ensaios clínicos tradicionais, eles já começaram a se preparar para realizar o teste de desafio em humanos, caso ele seja necessário para testar vacinas ou tratamentos. O Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas está desenvolvendo cepas do vírus que podem ser usadas para infectar os participantes.

    O dr. Anthony Fauci, diretor do instituto, disse em uma entrevista, na semana passada, que o teste de desafio pode ser necessário se a pandemia diminuir e não houver infecções naturais suficientes para determinar em um estudo tradicional se uma vacina funcionou. Mas, com base no crescente número de casos, ele não acredita que haverá um número insuficiente de infecções em julho e agosto, quando vários dos grandes testes estão programados para começar.

    Citando preocupações em colocar pessoas saudáveis em risco, Fauci explicou que qualquer teste de desafio teria de ser conduzido "com exame intenso e absoluto por um grupo independente de especialistas em ética e por pessoas independentes que não têm nada a ver com o teste".

    Mas o Instituto Nacional de Saúde, a agência responsável pelo instituto, ofereceu uma avaliação mais cautelosa ao dizer que o governo "não está planejando apoiar a realização de teste de desafio com humanos para a Covid-19. Há uma expectativa de transmissão natural suficiente para estudos de eficácia que serão lançados no verão boreal de 2020. O desenvolvimento de um modelo de teste de desafio com humanos levaria mais tempo que esse cronograma, e, além disso, o teste de desafio com humanos levanta várias considerações éticas sérias", escreveu a porta-voz Renate Myles em um e-mail.

    Entre os maiores defensores do teste de desafio está o dr. Arthur L. Caplan, bioeticista do Centro Médico NYU Langone. "Realmente, não ouvi objeções éticas convincentes", disse o médico em uma entrevista.

    Um teste de desafio poderia se aproveitar de uma menor taxa de mortalidade em pessoas entre 18 e 29 anos, sugeriram Caplan e o dr. Stanley Plotkin, especialista em vacinas e professor emérito da Universidade da Pensilvânia, em um artigo publicado em abril na revista "Vaccine". "Apesar do perigo, acreditamos que seja ético convocar voluntários agora, desde que eles sejam informados sobre os riscos conhecidos e desconhecidos", escreveram eles.

    Outros pesquisadores teceram argumentos semelhantes. "Essa abordagem não é isenta de riscos, mas, a cada semana que a implantação da vacina atrasa, vemos muitos milhares de mortes em todo o mundo", escreveu uma equipe liderada pelo dr. Nir Eyal, bioeticista da Rutgers, em março, em um artigo no "The Journal of Infeccious Diseases".

    O grupo de Eyal sugeriu escolher uma faixa etária entre 20 e 45 anos e até propôs o uso de um grupo de controle que receberia uma injeção de placebo em vez da vacina, mas que ainda seria exposto ao vírus, de modo que pelo menos alguns certamente ficariam doentes.

    "Acho que isso é uma loucura. É muito arriscado", disse Caplan. Não existe tratamento altamente eficaz para a Covid-19 e não há maneira certa de prever quem se recuperará rapidamente e quem ficará gravemente doente.

    "Múltiplas medidas seriam implementadas para garantir que, antes do consentimento, os participantes em potencial entendessem por completo os riscos incomuns envolvidos no estudo", escreveu o grupo de Eyal.

    O dr. Jeffrey Kahn, diretor do Instituto de Bioética Johns Hopkins Berman, questionou incisivamente qualquer forma de teste de desafio para a Covid-19, dizendo que os participantes não podem estar totalmente informados sobre os riscos, pois pouco se sabe sobre o vírus. "Há muita incerteza."

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    Embora não seja comum, alguns jovens saudáveis infectados com o vírus ficaram gravemente doentes sem explicação e outros morreram.

    "Basta um desses casos em que intencionalmente infectamos alguém com esse coronavírus ao testar uma vacina. O que diríamos então? Valeu a pena?", indagou Kahn.

    Vários fabricantes de vacinas tiveram reações neutras à ideia. O dr. Paul Stoffels, diretor científico da Johnson & Johnson, informou que a empresa consideraria realizar o teste de desafio apenas se houvesse um tratamento disponível. Ele também afirmou que ensaios maiores e tradicionais em Fase 3 forneceriam mais informações de segurança.

    O dr. Tal Zaks, diretor médico da Moderna, que espera iniciar o teste de vacinas em Fase 3 este mês, declarou em entrevista que a questão de um teste de desafio "provavelmente será discutível no que se refere ao nosso desenvolvimento". "Se um modelo desse tipo estivesse disponível, olharíamos para ele, mas eu odiaria colocar as pessoas em risco. Agora estamos liderando esta corrida e isso pode ser relevante para outras vacinas que vierem depois de nós", comentou Zaks.

    Outros fabricantes de vacinas estão considerando a ideia. Adrian Hill, diretor do Instituto Jenner da Universidade de Oxford, que desenvolveu uma vacina contra o coronavírus cujos testes estão na Fase 3, disse que havia uma "utilidade potencial" no teste de desafio para vacinas e tratamentos, e que seu instituto, que realizou estudos anteriores sobre malária, febre tifoide e outras doenças, pode realizar um para a Covid-19 antes do fim do ano, para testar a eficácia da vacina. Ele observou que os estudos também são uma boa maneira de comparar vacinas.

    Segundo ele, os testes seriam aceitáveis mesmo sem tratamento, porque os participantes seriam jovens e saudáveis, e seriam expostos a uma dose baixa do vírus, portanto qualquer doença que ocorresse provavelmente seria "autolimitada". Acrescentou, no entanto: "Ter um tratamento seria útil. Quando começarmos a fazer isso, pode ser que haja um."

    Caplan argumenta que é provável que as primeiras vacinas candidatas falhem e que será cada vez mais difícil recrutar as 20 mil ou 30 mil pessoas necessárias para cada teste subsequente. O teste de desafio realizado em um pequeno número de participantes poderia identificar mais rapidamente os produtos que não funcionam, o que permitiria que os pesquisadores os descartassem e reservassem estudos maiores para as candidatas mais promissoras.

    Porém os testes de desafio feitos em pequena escala correm o risco de não observar efeitos colaterais raros que podem se tornar um problema sério quando a vacina é administrada a milhões de pessoas.

    "O número de pessoas que terão recebido a vacina no momento do licenciamento será muito pequeno em comparação aos testes de eficácia da Fase 3", explicou o dr. William Schaffner, especialista em doenças infecciosas da Universidade Vanderbilt e membro de um grupo que revisará os dados da vacina como consultor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

    Como muitas vacinas candidatas envolvem novas tecnologias, "esse é mais um motivo que torna necessária uma grande base de segurança", argumentou Schaffner. Ele acrescentou que o teste de desafio também pode ser visto pelo público como um atalho e, assim, minar a confiança nas vacinas contra o coronavírus: "Acho que não é uma ótima ideia."

    Os que defendem a proposta apontam que os voluntários de um teste de desafio contra o coronavírus deveriam ser jovens e saudáveis, sem problemas crônicos de saúde. Eles também teriam um risco "substancial" de contrair a doença de qualquer forma – mesmo sem serem deliberadamente expostos –, porque vivem em locais com muitos casos confirmados e altas taxas de transmissão, por conta de seu emprego ou das condições de vida.

    Eles ficariam em quarentena e seriam monitorados de perto e, caso adoecessem, receberiam o melhor tratamento disponível – possivelmente o remédio antiviral remdesivir ou o plasma convalescente de pessoas que se recuperaram da doença. Mas, até agora, os benefícios do remdesivir foram descritos como "modestos" e os estudos sobre o plasma convalescente ainda estão em andamento. O esteroide dexametasona reduziu a taxa de mortalidade em um estudo, mas é recomendado apenas para os casos mais graves.

    O artigo do grupo de Eyal chegou a um acordo com Josh Morrison, de 34 anos. Há oito anos, ele doou um rim a um estranho e agora gere um grupo de defesa de doadores de rim. A oportunidade de salvar a vida de outra pessoa significou muito para ele, e ele vê o teste de desafio como uma chance de repetir o feito.

    "Se isso puder acelerar a criação de uma vacina para a doença Covid-19, estamos dispostos – sem reservas – a ser infectados por médicos com o novo coronavírus", escreveu ele, em conjunto com Sophie Rose, uma estudante de epidemiologia de 22 anos, no "The Washington Post".

    Morrison, que teve uma breve carreira como advogado corporativo, começou a organizar outras pessoas interessadas em ser voluntárias em um grupo chamado 1DaySooner. Até agora, cerca de 30 mil pessoas de 140 países se inscreveram on-line para participar de um teste de desafio. Doações de US$ 700 mil permitiram que eles contratassem três funcionários em período integral.

    "Há riscos significativos em um parto e em uma doação de rim. Ninguém deve fazê-los de forma impensada, mas permitimos que as pessoas consintam. Espero que haja um tratamento eficaz quando o teste for realizado, mas, se não, acho que seria razoável avançar com o teste de desafio", disse Morrison em entrevista.

    Sua esperança é que um centro de pesquisa estabelecido conduza o teste. Muitos de seus esforços foram direcionados para encontrar uma empresa que produzisse lotes do vírus para uso no teste.

    "Nosso objetivo não é gerenciar o processo de fabricação ou o processo de teste, mas sim fornecer as condições prévias, para que, caso o teste de desafio se torne útil, ele esteja disponível", continuou ele.

    Até agora, os doadores já ofereceram um total de US$ 1 milhão para a produção do vírus, caso Morrison encontre um fornecedor. Ele disse ter um candidato promissor, mas não quis revelar o nome da empresa.

    Vários fabricantes de vacinas manifestaram interesse em realizar o teste de desafio, mas as discussões foram confidenciais, por isso ele não pode dar nomes. Ele acredita, no entanto, que o teste será efetuado. "Não acho que isso seja uma fantasia", completou Morrison.

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