Um piru-piru, de nome científico de Haematopus palliatus, foi avistado em São Francisco do Sul a mais de 200 quilômetros do seu local de nascimento. Desde que recebeu uma anilha de monitoramento, a ave identificada como C0 só foi vista uma vez, na mesma região onde nasceu, na Ilha Comprida, em São Paulo. A viagem ao Litoral Norte catarinense surpreendeu os pesquisadores que acompanham a espécie ao longo da costa brasileira.

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Quem é o C0

O piru-piru C0 nasceu em novembro de 2024 na região de Ilha Comprida, no Litoral Sul do estado de São Paulo. A ave recebeu duas anilhas de identificação ainda filhote, uma metálica oficial e uma colorida com código, que permite identificar o indivíduo a distância.

Ele só foi avistado em dezembro de 2025, na mesma região do nascimento. Desde então, estava “desaparecido” até ser visto novamente em março de 2026 na Praia do Estaleiro, na Vila da Glória.

Veja fotos de piru-piru

Encontro do piru-piru C0 em SC

A bióloga e ornitóloga Karina Ávila faz parte do Projeto Aves Limícolas e acompanha o C0. O reencontro do indivíduo em Santa Catarina integrou um estudo feito pela profissional.

— [A ave] foi encontrada por um observador de aves de Santa Catarina, Maurício Weingartner, que registrou o indivíduo e conseguiu ler o código da anilha. A partir disso, ele compartilhou a informação, e conseguimos confirmar que se tratava do mesmo indivíduo que havia sido anilhado em Ilha Comprida. Esse tipo de descoberta só é possível graças à ciência cidadã, porque não temos como acompanhar essas aves continuamente em toda a costa — explica Karina.

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De acordo com a bióloga, encontrar o C0 em São Francisco do Sul foi de extrema importância para mapear os movimentos da espécie pela costa brasileira.

— Ainda sabemos muito pouco sobre os movimentos dessa espécie no Brasil. Em outras regiões, já se sabe que os indivíduos podem se deslocar ao longo da costa, principalmente os jovens. Mas aqui no estado de São Paulo, esse tipo de registro ainda é raro. Além de que essa espécie se encontra como ameaçada de extinção no Litoral Paulista. Por isso, esse caso é tão importante, porque traz uma evidência concreta de deslocamento a longa distância e ajuda a entender melhor como essas populações estão conectadas — afirma.

O piru-piru está mais presente em áreas de praia mais abertas, com menor nível de perturbação e com condições adequadas para se alimentar e, principalmente, se reproduzir.

— Santa Catarina também é uma região importante para a espécie no Brasil, tanto para a reprodução quanto para a congregação de indivíduos ao longo da costa — diz a profissional.

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Curiosidades sobre o piru-piru

Um piru-piru é uma ave limícola — que vive ou se alimenta em áreas úmidas rasas — bem marcante, principalmente pelo bico vermelho e forte, que chama bastante atenção. Ele usa esse bico para se alimentar de moluscos e outros invertebrados que encontra na areia e na zona entremarés.

De acordo com a bióloga e ornitóloga, o piru-piru é uma espécie bastante territorial, especialmente durante a época de reprodução. Os casais costumam defender uma área da praia e podem ficar anos utilizando o mesmo território.

— Uma coisa que chama muita atenção é a forma como eles se reproduzem. Eles não constroem um ninho propriamente dito, é só uma pequena depressão na areia, muitas vezes nas dunas de restinga. Isso faz com que os ovos e os filhotes fiquem extremamente expostos e dependam muito de camuflagem — conta.

A bióloga explica que essa forma de reprodução deixa os animais em risco, mesmo quando empregam táticas para não serem avistados. Porém, a estratégia de sobrevivência nem sempre funciona, principalmente em praias com muita movimentação de pessoas.

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— Outra curiosidade é que os pais são bastante atentos e defensivos. Eles costumam vocalizar bastante e até simular ferimentos para afastar possíveis ameaças do ninho. E apesar de ser uma espécie relativamente comum em outras partes das Américas, aqui no estado de São Paulo ela está ameaçada, justamente porque depende de um tipo de ambiente que vem desaparecendo e sofre muita pressão nas áreas onde ainda ocorre — afirma.

Monitoramento da espécie

O Projeto Aves Limícolas é baseado no monitoramento contínuo ao longo do município de Ilha Comprida e em outras áreas do litoral de São Paulo. Durante a temporada reprodutiva, a equipe percorre as praias regularmente em busca de ninhos, para fazer a identificação de casais e acompanhar todo o processo, desde a postura dos ovos até o desenvolvimento dos filhotes.

Um dos pilares do trabalho é o anilhamento de aves adultas e filhotes. São usadas anilhas metálicas oficiais e anilhas coloridas com códigos visíveis a distância. Isso permite identificar os indivíduos sem necessidade de recaptura, levando ao acompanhamento de movimentos, sobrevivência, fidelidade ao local e dispersão.

— Também utilizamos câmeras trap instaladas próximas aos ninhos, que ajudam a identificar as causas de fracasso reprodutivo. Isso tem sido fundamental para documentar diferentes tipos de impacto, como a presença de pessoas, cães, veículos e também eventos naturais — detalha a bióloga.

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Mensalmente, o projeto realiza um censo nas praias, para acompanhar a população da região e registrar tendências ao longo do tempo.

— Um dos nossos principais objetivos é posicionar o piru-piru como uma espécie-bandeira, contribuindo para a proteção não apenas da própria espécie, mas também dos ecossistemas de dunas e das muitas outras espécies que dependem deles, incluindo aves limícolas migratórias que utilizam essa região, uma das áreas costeiras mais importantes do estado de São Paulo — conta.

O trabalho faz parte do Projeto Piru-piru Paulista, vinculado à pesquisa de doutorado de Karina, em andamento na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

— Ele tem sido possível graças ao apoio do programa dos Pequenos Fundos para a Conservação das Aves Limícolas Neotropicais e do programa de financiamento da Wader Quest. Além disso, contamos com o apoio de Instituições como o Instituto Ambiecco e BioSensu, o apoio das APA’s Ilha Comprida e Litoral Sul, a base do ICMBio NGI de Iguape-SP e a Prefeitura de Ilha Comprida — pontua.

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