A morte da policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, encontrada com um tiro na cabeça no apartamento onde morava, no bairro Brás, em São Paulo, passou a levantar uma série de questionamentos. As informações são do g1.

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Laudos periciais, imagens de câmeras de segurança e depoimentos de socorristas apontam inconsistências na versão inicial de suicídio apresentada pelo marido da vítima, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos.

O caso foi registrado como suicídio no dia 18 de fevereiro. A família da policial, no entanto, contestou a hipótese, o que levou à exumação do corpo e à realização de novos exames no Instituto Médico-Legal (IML) da capital paulista.

Veja fotos do caso

Laudo aponta lesões no pescoço e no rosto

O laudo necroscópico realizado após a exumação do corpo identificou lesões no rosto e no pescoço da vítima. Segundo os peritos, há indícios de que a policial pode ter desmaiado antes de ser atingida pelo disparo na cabeça.

De acordo com o documento, as marcas são descritas como lesões “contundentes”, causadas por pressão e escoriações compatíveis com estigmas ungueais, ou seja, marcas de unhas. Os peritos também apontaram que a vítima não apresentou sinais de defesa.

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Câmeras mostram policiais no apartamento horas depois

Imagens de câmeras de segurança registraram a entrada de três policiais mulheres no apartamento onde a vítima foi encontrada morta, cerca de dez horas após o disparo.

Segundo uma testemunha ouvida pela investigação, as agentes teriam ido ao local para limpar o imóvel. As imagens mostram que elas entraram no prédio acompanhadas por uma funcionária do condomínio e permaneceram cerca de 50 minutos no apartamento.

As policiais foram identificadas como uma soldado e duas cabos. O vídeo não mostra a saída de objetos do imóvel. Elas deverão prestar depoimento no inquérito.

Depoimentos de socorristas levantam inconsistências

Relatos de socorristas que atenderam a ocorrência também levantaram dúvidas sobre a versão apresentada pelo tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, marido da vítima.Em depoimento, ele afirmou que estava tomando banho quando ouviu o disparo.

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No entanto, bombeiros que chegaram ao apartamento disseram que ele estava seco e que não havia marcas de água no chão que indicassem que ele havia saído às pressas do banho. Um sargento do Corpo de Bombeiros relatou ainda que o oficial estava de bermuda, sem camisa e aparentemente calmo no momento do atendimento.

Um bombeiro também estranhou a conduta do marido porque ele “falava calmamente” ao telefone, questionava a todo momento o atendimento prestado pelos bombeiros e insistia que a vítima fosse retirada com pressa e levada imediatamente ao hospital.

Os socorristas também observaram que o oficial não apresentava nenhuma marca de sangue no corpo ou nas vestimentas, o que indicaria que ele não teria tentado prestar os primeiros socorros à esposa.

Posição da arma chamou atenção

Outro ponto citado nos depoimentos é a posição da arma encontrada na mão da policial. Um dos socorristas afirmou que ela estava “bem encaixada”, de uma forma incomum em casos de suicídio. O profissional disse que decidiu fotografar a cena por considerar a situação atípica.

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Segundo os relatos, o sangue já estava coagulado quando as equipes chegaram ao apartamento e não havia cartucho da bala no local.

Cronologia também é questionada

Uma vizinha do casal relatou à polícia ter ouvido um estampido forte por volta das 7h28min. A primeira ligação feita pelo marido ao serviço de emergência ocorreu cerca de meia hora depois, às 7h57min.

Na chamada, ele afirmou que a esposa havia se matado. Equipes de resgate chegaram ao local às 8h13min.

Entre os contatos feitos pelo oficial naquela manhã está também uma ligação para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ele esteve no prédio e subiu ao apartamento pouco depois às 9h7min.

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O advogado da família, José Miguel da Silva Junior, questiona a presença do magistrado no local.

“Ele vai ter que explicar por que estava lá. Pelo relato que temos, o desembargador foi a primeira pessoa acionada após o disparo.”

Investigação

Procurada, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que “todas as circunstâncias relacionadas à morte da Sd. PM Gisele Alves Santana são apuradas por meio de inquéritos instaurados pela Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar”.

Acrescentou ainda que “a instituição não compactua com irregularidades ou desvios de conduta e ressalta que, caso seja constatada qualquer ilegalidade, as medidas cabíveis serão adotadas”.

O que dizem as defesas

Em nota divulgada antes do laudo feito após a exumação, a defesa do tenente-coronel Geraldo Neto afirma que ele não é investigado, suspeito ou indiciado no processo até o momento. Segundo os advogados, o oficial tem colaborado com as autoridades desde o início e permanece à disposição para ajudar na elucidação dos fatos.

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Já a defesa do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan informou que ele foi chamado ao apartamento como amigo do tenente-coronel e que eventuais esclarecimentos serão prestados à polícia judiciária.

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