Tome cuidado com o acesso facilitado e mais barato às famosas “canetas emagrecedoras” trazidas de países vizinhos, como o Paraguai. O mercado paralelo desses medicamentos esconde riscos biológicos graves que nenhuma perda de peso compensa.

Continua depois da publicidade

A Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTox) publicou uma nota técnica acendendo a luz vermelha sobre essa prática. Além disso, um estudo da Unicamp analisou alguns desses medicamentos fabricados no Paraguai e confirmou que eles continham, sim, a molécula ativa original, porém sem o registro da Anvisa, não é recomendado a compra deste medicamento.

Para que um medicamento chegue de forma segura ao seu organismo, ele depende de um controle rigoroso que envolve desde estudos clínicos profundos até as Boas Práticas de Fabricação e embalagens adequadas. A Anvisa é uma das agências reguladoras mais respeitadas do mundo justamente por esse rigor técnico. Quando você compra um produto sem o registro da Anvisa, você abre mão de qualquer garantia de qualidade.

Continua depois da publicidade

Conversei com a Fernanda Waechter, farmacêutica, toxicologista e atual coordenadora do Grupo Especializado em Toxicologia Regulatória da SBTOX ( Sociedade Brasileira de Toxicologia), sobre esta prática:

Para começarmos, a SBTox publicou recentemente uma Nota Técnica reforçando a importância de consumir apenas medicamentos aprovados pela Anvisa. Do ponto de vista toxicológico e regulatório, o que o selo da Anvisa garante ao consumidor brasileiro que um registro estrangeiro (como o do Paraguai, por exemplo) não consegue garantir?

Continua depois da publicidade

“Uma aprovação da Anvisa significa que aquele medicamento passou pela avaliação da Anvisa, que é uma das mais criteriosas dentre as agências regulatórias do mundo inteiro. Isso garante para nós consumidores que o medicamento atende ao que é exigido pela agência quanto a critérios de qualidade, segurança e eficácia. Garante que o medicamento não vai trazer riscos de toxicidade indesejados para a população. Quando nós falamos de agências de outros países, os critérios podem ser diferentes, então não conseguimos garantir que um medicamento aprovado lá fora também seria aprovado pela Anvisa, que atenderia a todos os critérios exigidos aqui.”

Uma análise recente da Unicamp mostrou que alguns medicamentos emagrecedores vindos do Paraguai continham a mesma molécula ativa do medicamento de referência. Por que apenas “ter o mesmo princípio ativo” não é o suficiente para dizer que um medicamento é seguro e eficaz?

Continua depois da publicidade

“Para que os medicamentos demonstrem eficácia e segurança, eles precisam não só conter o princípio ativo, mas o mesmo precisa estar na concentração certa, e demonstrar através de testes que o comportamento desse medicamento no organismo humano vai realmente levar ao efeito farmacológico que buscamos.

O medicamento precisa apresentar bioequivalência com o medicamento referência, o qual já foi aprovado pela Anvisa, e no caso específico da tirzepatida, por se tratar de uma molécula sintética que apresenta comportamento de uma macromolécula biológica, são necessários estudos para demonstrar comparabilidade com o medicamento referência, ou estudos clínicos.

Continua depois da publicidade

Dentro do estudo de comparabilidade por exemplo, além de demonstrar que os IFAs (insumos farmacêuticos ativos) são comparáveis, outros aspectos que podem impactar na segurança do medicamento são avaliados, como por exemplo os níveis de impurezas derivadas do peptídeo, formação de oligômeros, níveis de impurezas que podem levar a imunogenicidade, estabilidade, dentre outros. “

Como o processo de fabricação, as embalagens e a capacidade da substância de atingir o local correto no organismo (biodisponibilidade) afetam o resultado final do tratamento?

Continua depois da publicidade

“O resultado do tratamento somente vai ser obtido se o medicamento conseguir cumprir o seu propósito: levar ao efeito farmacológico sem causar toxicidade. O processo de fabricação vai permitir que o medicamento seja obtido com a pureza necessária para isso, e com um nível aceitável de impurezas para evitar problemas de toxicidade. A embalagem e as condições de armazenamento vão permitir que o medicamento se mantenha estável durante o seu prazo de validade, que não degrade, o que poderia levar a uma queda no teor (quantidade do ativo) e formação de mais impurezas indesejadas.

Ou seja, a seleção correta do material de embalagem e das condições de armazenamento garante que o medicamento será seguro e eficaz no momento do uso. E a biodisponibilidade é quanto do ativo que chega no sangue, que pode ser afetada por exemplo pelos excipientes da formulação, e impacta diretamente no efeito farmacológico também. Porque não adianta a concentração do ativo estar certa no medicamento, mas ele não conseguir chegar na circulação sistêmica, se isso for necessário para que ele exerça a sua ação.

Continua depois da publicidade

No caso da tirzepatida, por ser um medicamento administrado por via subcutânea, a influência desses fatores costuma ser menor do que em medicamentos de administração oral, embora ainda existam aspectos da formulação que podem afetar a absorção e o desempenho do produto.”

A nota da SBTox alerta bastante sobre as “impurezas” e cita o Guia 83/2025 da Anvisa. O que são essas impurezas e como elas ou desvios no processo de síntese podem alterar o perfil de segurança de um medicamento no organismo?

Continua depois da publicidade

“As impurezas são compostos que estão presentes nos medicamentos mas que não foram intencionalmente adicionados. Elas podem ser formadas tanto em decorrência da degradação do ativo, como podem ser resíduos do processo de fabricação utilizado para obter o ativo, por exemplo.

Apesar de não serem desejadas, muitas delas são inevitáveis, mas elas podem não ser um problema se seus níveis estiverem abaixo de limites considerados seguros e forem adequadamente controladas. Por isso é importante a presença de um toxicologista nessa avaliação, a qual também faz parte da avaliação da Anvisa para aprovação de um medicamento. O Guia 83/2025 da Anvisa trata desse tema e descreve as expectativas da agência quanto à avaliação de segurança de impurezas que estejam em níveis mais elevados, para garantir que as mesmas não apresentarão um risco para o paciente.

Continua depois da publicidade

Quando acontecem desvios no processo de síntese ou fabricação, isso pode afetar o perfil de impurezas de um medicamento. Uma impureza que antes não estava presente pode surgir, de modo que uma nova avaliação será necessária, para entender se pode haver algum problema de segurança em decorrência desse desvio, dessa mudança no processo. “

No caso de medicamentos peptídicos ou biológicos (como a tirzepatida), qual é o real perigo de transportá-los ou armazená-los sem o controle rígido de temperatura, algo comum no mercado informal? O que acontece com a molécula?

Continua depois da publicidade

“Quando um medicamento precisa ser armazenado de forma refrigerada, isso acontece porque em temperatura ambiente ele pode degradar, levando a uma queda no teor do ativo e à formação de impurezas. Por mais que para as indústrias, um medicamento precisar de cadeia fria se torna muito mais trabalhoso, mais caro, além de que pode reduzir a adesão do paciente ao tratamento, em alguns casos isso é inevitável para o medicamento manter a qualidade e segurança.

Os medicamentos peptídicos como a tirzepatida são especialmente mais sensíveis a variações de temperatura e umidade por causa da sua estrutura química mais suscetível à degradação. Dentre as possíveis impurezas que podem ser formadas em decorrência dessa degradação estão compostos que podem ter potencial imunogênico, ou seja, que podem levar a reações alérgicas. Por isso a importância de manter o armazenamento conforme recomendações da bula.””

Continua depois da publicidade

O processo de fabricação ilegal ou sem o devido padrão pode gerar produtos de degradação e impurezas perigosas. Em medicamentos biológicos e peptídicos, como essas canetas, variantes estruturais incorretas podem aumentar o potencial imunogênico do produto. Isso significa que o seu corpo pode desencadear reações imunológicas adversas e graves.

Outro ponto a ser levantado aqui é que estamos falando de substâncias biológicas sensíveis que exigem controle estrito de temperatura. Comprando de vendedores clandestinos em redes sociais, não há rastreabilidade. Um desvio térmico no transporte desestrutura a molécula, anulando o efeito ou criando compostos tóxicos.

Continua depois da publicidade

Para finalizar, a comercialização desses produtos sem registro em plataformas digitais viola as políticas das próprias redes e é proibida no Brasil. O uso de medicamentos deve prevenir complicações clínicas, lesões irreversíveis e mortes, e não causá-las.

O processo de emagrecimento saudável exige acompanhamento médico, diagnóstico correto e medicamentos de procedência garantida, adquiridos em farmácias regularizadas. Não transforme a busca pelo bem-estar em um caso de intoxicação ou internação hospitalar. Na dúvida, consulte sempre seu médico e exija medicamentos que passaram pelo crivo da nossa vigilância sanitária. A sua vida vale muito mais do que um clique facilitado no celular.

Continua depois da publicidade

Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.