Enquanto cidades costeiras ao redor do mundo se preparam para o avanço do mar, a Groenlândia deve viver o fenômeno inverso. É o que aponta um estudo publicado na revista científica Nature Communications intitulado “Projections of 21st-century sea-level fall along coastal Greenland” (Projeções da queda do nível do mar no século XXI ao longo da costa da Groenlândia).

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Segundo o estudo, publicado em janeiro de 2026, o nível relativo do mar ao longo da costa da ilha pode cair até 2,5 metros até 2100, no cenário de altas emissões de gases de efeito estufa. A pesquisa mostra ainda que, sob um cenário de baixas emissões, a queda mediana projetada é de cerca de 0,9 metro até o fim do século. Já em um cenário de altas emissões (RCP 8.5), a redução pode chegar a 2,5 metros, em comparação com os níveis registrados em 2017.

Um paradoxo climático

A Groenlândia é um dos principais contribuintes para o aumento do nível médio global do mar. O derretimento de sua camada de gelo adiciona grandes volumes de água aos oceanos, elevando o nível do mar em outras regiões do planeta. Localmente, porém, o efeito é o oposto.

Isso ocorre porque, à medida que o gelo perde massa, dois processos entram em ação. O primeiro é o chamado ajuste glacioisostático: a crosta terrestre, antes comprimida pelo peso do gelo, começa a subir. O segundo é a diminuição da atração gravitacional exercida pela enorme massa de gelo sobre o oceano ao redor. Com menos gelo, essa força enfraquece, e a água tende a se redistribuir.

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O resultado combinado é a queda do nível relativo do mar ao longo da costa groenlandesa.

O papel do manto terrestre

Um dos achados mais relevantes do estudo é que a resposta da Terra sólida pode ser mais rápida do que se pensava. Os pesquisadores identificaram indícios de que o manto sob a Groenlândia apresenta uma viscosidade efetiva menor em escalas de tempo centenárias.

Na prática, isso significa que a deformação viscosa, um tipo de deformação contínua, irreversível e dependente do tempo, sofrida por materiais sob tensão constante, também conhecida como escoament, contribui significativamente para a queda projetada do nível do mar, respondendo por cerca de 20% a 40% do sinal total associado às mudanças futuras no gelo.

Esse resultado sugere que projeções que consideram apenas a resposta elástica da crosta podem subestimar a magnitude da queda do nível do mar na região.

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Um laboratório natural

A queda do nível do mar não significa ausência de riscos, segundo os pesquisadores. Na verdade, portos podem se tornar rasos demais para embarcações de grande porte, canais de navegação podem ficar intransitáveis em maré baixa e infraestruturas costeiras podem perder funcionalidade.

Com cerca de 60 mil habitantes vivendo ao longo da costa, a Groenlândia deve se tornar um laboratório natural, segundo a pesquisa, uma vez que será possível observar como a perda de gelo, a deformação da crosta terrestre e a redistribuição do oceano interagem em tempo quase real.

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