O início do ciclo de colheita da safra de grãos no Centro-Oeste e no Paraná tem um efeito pouco comentado fora do setor imobiliário: uma parte do capital que sai do campo vai direto para o Litoral Norte de Santa Catarina. Bruno Cassola, corretor especializado em imóveis de alto padrão, afirma que os produtores rurais respondem hoje por cerca de 30% dos compradores de alto padrão em cidades como Balneário Camboriú e Itajaí, especialmente na Praia Brava.

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O Conselho Regional de Corretores de Imóveis de Santa Catarina (Creci-SC) reitera que o agronegócio impulsionou um boom imobiliário no litoral catarinense. Os dados divulgados em dezembro do ano passado mostram que, no primeiro trimestre de 2025, o agronegócio cresceu 12,2%, segundo o IBGE. Isso teria sido o principal responsável por impulsionar o Produto Interno Bruto (PIB) do país, que avançou 1,4% entre janeiro e março.

Com isso, o conselho destaca que os grandes produtores rurais têm intensificado a diversificação patrimonial e os imóveis de luxo vêm ganhando destaque como uma das principais escolha pela elevada liquidez financeira e foco em ativos seguros. Santa Catarina virou o destino “queridinho” justamente pelas cidades com apelo turístico, infraestrutura sólida e valorização imobiliária consistente.

Como era Balneário Camboriú antes desse “boom”?

Entenda mais sobre os motivos

O corretor Bruno Cassola avalia que a lógica está na conversão do lucro volátil das commodities em ativo imobiliário. É uma forma de proteger patrimônio em um mercado que, na avaliação dele, oferece liquidez acima da média nacional e valorização que acompanha ou supera as oscilações do dólar. Cassola elenca quatro fatores que explicam o porquê o agronegócio tem preferido o litoral catarinense a outras formas de aplicação.

O primeiro motivo é o que ele chama de descorrelação com o “risco-Brasil”. Enquanto a saca de soja e a arroba do boi estão expostas a variações climáticas e até cambiais, o metro quadrado em localizações nobres de Balneário Camboriú teria uma curva de valorização mais independente da macroeconomia nacional.

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— O imóvel de frente para o mar ou em localizações nobres atua como uma “apólice de seguro” para o produtor. Em anos de quebra de safra ou baixa de preços internacionais, a liquidez do ativo imobiliário em SC permite a recomposição de caixa e proteção patrimonial — afirma.

O segundo fator é o potencial de locais como a Praia Brava de Itajaí. Cassola compara Balneário Camboriú a um mercado já consolidado, “semelhante ao ouro” nas palavras dele, e posiciona a Praia Brava como um polo de crescimento exponencial. Isso atrai o perfil de investidor que aposta na escassez territorial e no ciclo de valorização desde o imóvel na planta. O CRECI-SC destaca que Itapema também tem atraído investidores de todo o país pelo mesmo motivo e estima-se que cerca de 70% dos compradores de imóveis de alto padrão na cidade atualmente sejam ligados ao setor agro.

O terceiro ponto é estrutural, em que grandes incorporadoras da região passaram a oferecer planos de pagamento semestrais ou anuais, sincronizados com as janelas de colheita da soja e do milho. Essa adaptação ao fluxo de caixa do campo permite, segundo o especialista, que o produtor adquira imóveis entre R$ 3 milhões e R$ 20 milhões sem comprometer o giro operacional do próprio agronegócio.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) divulgou em dezembro de 2025 que o agronegócio foi responsável pelos resultados positivos dos índices macroeconômicos, como a redução da inflação. Ou seja, sem a contribuição do agro, haveria risco de novo descumprimento da meta, o que exigiria manutenção de uma política monetária mais restritiva, uma vez que a taxa Selic estava em 15% ao ano.

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Cassola aponta a logística como o fator decisivo. Os dois aeroportos internacionais na região em Navegantes e em Florianópolis, além do aeroporto Costa Esmeralda e de helipontos em alguns empreendimentos, teria transformado o litoral catarinense em uma base de operações para famílias do agronegócio. Com o monitoramento remoto das lavouras, a segunda geração desses herdeiros opta por residir na costa e gerenciar as operações no Mato Grosso, Paraná ou Rio Grande do Sul à distância.