Após passar seis semanas com as águas próprias para banho, a Vigorelli, única praia de Joinville, voltou a ficar imprópria, segundo último relatório de balneabilidade publicado pelo Instituto de Meio Ambiente (IMA) na sexta-feira (16). No geral, uma das principais causas disso é o esgoto não tratado, o que não acontece na região da praia, que possui tratamento. Especialistas explicam o que pode ter causado a balneabilidade negativa na Vigorelli.

Continua depois da publicidade

Segundo o IMA, a água é considerada imprópria para banho quando em mais de 20% de um conjunto de amostras coletadas nas últimas 5 semanas anteriores, no mesmo local, for superior que 800 Escherichia coli (bactéria) por 100 mililitros ou quando, na última coleta, este resultado for superior a 2000. Este último caso é o que foi identificado na Vigorelli. Na última coleta, o local apresentou 5475 Escherichia coli por 100 mililitros.

Veja fotos da Vigorelli, a praia de Joinville

Quando a água é considerada própria ou imprópria para banho

    • Própria: quando em 80% ou mais de um conjunto de amostras coletadas nas últimas 5 semanas anteriores, no mesmo local, houver no máximo 800 Escherichia coli por 100 mililitros.

    • Imprópria: quando em mais de 20% de um conjunto de amostras coletadas nas últimas 5 semanas anteriores, no mesmo local, for superior que 800 Escherichia coli por 100 mililitros ou quando, na última coleta, o resultado for superior a 2000 Escherichia coli por 100 mililitros.

De acordo com o IMA, a alteração em relação às semanas anteriores, que indicavam condição própria, pode ocorrer em função de situações pontuais e momentâneas, comuns em áreas costeiras urbanizadas, como influência de drenagens pluviais, lançamentos irregulares, variações de maré, correntes marinhas e menor renovação da água em determinados períodos.

Continua depois da publicidade

“Mesmo na ausência de chuva nas 24 horas anteriores à coleta, esses fatores podem provocar elevação temporária da concentração bacteriológica, sem caracterizar contaminação contínua da praia. Os resultados anteriores demonstram que a qualidade da água costuma se recuperar, o que reforça o caráter episódico da ocorrência”, informou o órgão.

O professor Celso Voos, Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista nas regiões da Vigorelli e Vila da Glória, corrobora com a explicação dada pelo IMA, principalmente porque a região possui rede de esgotamento sanitário.

— Atualmente com a implantação da ETE da Vigorelli, que atende todas as edificações da região, a qualidade de água do efluente (saída) após o tratamento possui um nível de qualidade adequado ao lançamento nos recursos hídricos — lembra o professor.

Das 30 amostras analisadas na Vigorelli durante o ano de 2025, apenas duas indicaram que as águas estariam impróprias para banho. 

Continua depois da publicidade

Segundo o especialista, neste caso, um primeiro fator que deve ser considerado é que chuvas intensas tendem a piorar o índice de balneabilidade, reduzindo a proporção de pontos próprios para banho e aumentando o risco de contaminação microbiológica na zona costeira.

— Durante e após períodos de chuva, a água que escoa pelas ruas carrega resíduos, sedimentos, esgoto mal conectado e outros contaminantes para rios, canais e, por fim, para o mar, deteriorando a qualidade da água para banho — cita.

O professor explica, inclusive, que a recomendação é evitar banho de mar nas primeiras 24 a 48 horas após chuvas intensas e em áreas próximas à saída de canais ou galerias de águas pluviais, assim como de foz de rios.

Mas, no caso da Vigorelli, outro fator deve ser levado em consideração: o Rio Cubatão. Ele é o principal rio da região e, de acordo com Voos, a bacia hidrográfica deste rio possui um percentual muito baixo de coleta e tratamento de esgoto. Desta maneira, em momentos de alta pluviosidade, o Rio Cubatão lança na baía Babitonga uma grande quantidade de contaminantes.

Continua depois da publicidade

— A questão das chuvas intensas é certamente um dos motivos. A princípio as chuvas intensas, quase que diárias em Joinville, tem provocado essa deterioração da qualidade de água para os banhistas. Mas, de fato, o vilão disso tudo é a falta de coleta e tratamento de esgoto — ainda cita.

O IMA destacou também que a balneabilidade reflete a condição da água no momento da coleta e que o monitoramento é realizado de forma contínua e sistemática, com divulgação transparente à população. O Instituto segue acompanhando o ponto e reforça a importância de que a população consulte regularmente os boletins de balneabilidade antes de utilizar as praias para banho.

O que são as bactérias que podem ser encontradas no relatório de balneabilidade

O professor Voos destaca ainda que a resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) prevê que as águas sejam consideradas impróprias também em caso de: surtos de doenças de veiculação hídrica, presença visível de esgoto, lixo, óleos, pH fora da faixa 6–9 em águas doces, florações de algas nocivas ou outros fatores que contra indiquem o banho.

O documento explica que os Enterococos (Enterococcus spp.) são bactérias intestinais usadas como indicadores de contaminação fecal em água, especialmente em ambientes marinhos e salobros, na avaliação de balneabilidade. Eles são um dos três grupos bacterianos aceitos como indicadores para classificar águas próprias ou impróprias para banho, ao lado de coliformes termotolerantes e Escherichia coli.

Continua depois da publicidade

— A presença de enterococos em concentrações acima dos limites da norma indica contaminação fecal recente e, portanto, possível presença de patógenos, como vírus, bactérias e protozoários, associados a doenças de veiculação hídrica — explica o especialista.

Veja fotos antigas da Vigorelli