Abrir ou fechar a porta e a janela do quarto durante a noite pode alterar significativamente a qualidade do ar, e isso pode ter impacto no sono e impactar o desempenho cognitivo no dia seguinte. A conclusão é de uma tese de doutorado defendida em 2023 na Technical University of Denmark (DTU), que investigou como a qualidade do ar em dormitórios influencia o descanso noturno e as funções mentais ao acordar.
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O estudo Bedroom ventilation and sleep quality (Ventilação do quarto e qualidade do sono), analisou dados coletados em câmaras climáticas e em quartos residenciais na Dinamarca e na Bélgica. A pesquisa combinou experimentos laboratoriais, estudos de campo e intervenções controladas para medir os efeitos da ventilação sobre indicadores objetivos e subjetivos de sono.
Aumento de CO₂ está associado a pior qualidade do sono
Os experimentos mostraram que a redução da ventilação, indicada pelo aumento da concentração média de dióxido de carbono (CO₂) de 800 ppm para até 1.700 ppm, esteve associada a maior latência para adormecer, ou seja, o tempo até pegar no sono, e redução do sono profundo.
“A qualidade do ar no quarto pode afetar suas habilidades cognitivas, como a capacidade de concentração, compreensão e reação. Dormir em um quarto bem ventilado beneficia suas habilidades cognitivas”, afirma Pawel Wargocki, professor associado da DTU Sustain.
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Em um dos estudos de campo, quando a concentração média de CO₂ subiu de 856 ppm para 1.927 ppm, os participantes apresentaram menos tempo de sono profundo, mais sono leve e maior número de despertares noturnos. Em outra análise, a elevação de 812 ppm para 1.369 ppm também reduziu significativamente o sono profundo.
Já quando os quartos foram ventilados com janelas abertas, reduzindo a concentração média de CO₂ para cerca de 761 ppm, houve aumento da duração do sono e melhora no desempenho cognitivo medido no dia seguinte.
Impacto também aparece no desempenho cognitivo
Além das alterações nos estágios do sono, os pesquisadores observaram que os participantes relataram melhor desempenho cognitivo após noites com maior ventilação. Em testes objetivos aplicados na manhã seguinte, houve melhora quando os indivíduos dormiram em ambientes com menor concentração de CO₂.
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Segundo a tese, embora o CO₂ não seja necessariamente o agente causal direto dos efeitos, ele funciona como marcador da qualidade da ventilação e da presença de poluentes associados à respiração humana (bioefluentes).
Taxa de ventilação recomendada
A pesquisa mediu ainda a taxa de emissão de CO₂ por pessoas dormindo — cerca de 11 litros por hora por adulto saudável — dado relevante para o dimensionamento de sistemas de ventilação.
Com base nos resultados, o estudo recomenda ventilação de aproximadamente 10 litros por segundo por pessoa durante o sono. Em um quarto médio de 32 m³, isso corresponderia a uma taxa de renovação de ar próxima de 1,1 trocas por hora.
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Nos levantamentos realizados na Dinamarca, a mediana de renovação de ar foi de 0,4 trocas por hora — abaixo de padrões europeus mais rigorosos, que recomendam até 0,7 trocas por hora.
Abrir janelas pode ser alternativa — com ressalvas
Nos casos em que não há sistema de ventilação mecânica, abrir janelas se mostrou uma estratégia eficaz para reduzir concentrações de CO₂, compostos orgânicos voláteis (VOCs) e material particulado (PM10). A medida melhorou a percepção de qualidade do ar e foi associada a noites de sono mais longas.
Os autores, no entanto, alertam que a abertura de janelas deve considerar possíveis efeitos adversos, como ruído externo, poluição urbana ou desconforto térmico.
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Limitações do estudo
A tese reconhece limitações, como o número relativamente reduzido de participantes em alguns experimentos e a predominância de adultos saudáveis sem distúrbios crônicos do sono. Os resultados não permitem generalização automática para todas as populações.
Ainda assim, o trabalho contribui para preencher uma lacuna científica sobre o impacto da ventilação noturna na saúde e reforça a importância da qualidade do ar também durante o período de sono.






