Com as casas de alto padrão e movimento tranquilo da Rua Coronel Feddersen, no bairro Itoupava Seca, poucos imaginam que aquele endereço já foi uma pista de pouso improvisada. Foi ali, em um campo feito às margens do Rio Itajaí-Açu, que Blumenau viu um avião tocar o solo pela primeira vez. Os registros históricos divergem ao tratar da data exata: algumas fontes apontam o dia 5 de maio, enquanto outras indicam 7 de maio de 1932. O que não muda é o cenário descrito em relatos da época. Mesmo sob chuva e com atraso de duas horas, mais de 100 pessoas foram ao local para assistir ao pouso do avião Iguaçu, um biplano De Havilland DH-60 Moth, com motor de 80 cavalos, como conta o Aeroclube de Blumenau.
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Como descreve o blog do pesquisador Adalberto Day, a aeronave era pilotada pelo capitão e dono do avião Holland e trazia como passageiro Joachim von Rübeck, organizador da futura empresa aérea Aero Lloyd Iguassu Fluggesellschaft, que pretendia estabelecer uma linha aérea entre São Paulo e o Vale do Itajaí. O pouso aconteceu em uma grande área pertencente ao dono de terras Luiz Böttger, cedida após acordo com o então prefeito Antônio Cândido de Figueiredo, que viabilizou a preparação do campo para ser pista de pouso improvisada. A chegada do avião rompeu um longo silêncio no céu blumenauense, que até então só havia visto sobrevoos.
Quando o avião Iguaçu finalmente apareceu no horizonte, em 1932, o suspense tomou conta. Antes de alinhar para o pouso, a aeronave precisou alterar a rota pelo mau tempo na região do Morro da Boa Vista. Ao retornar e tocar o solo blumenauense, um breve silêncio antecedeu os aplausos da multidão. O cônsul alemão em Blumenau, Otto Rohkohl, esteve presente e saudou os tripulantes. O avião foi levado a um abrigo improvisado e, na manhã seguinte, seguiu viagem rumo a Brusque e Florianópolis, conforme apurou a pesquisadora Edith Kormann. A linha aérea com São Paulo não se concretizou, mas o episódio abriu caminho para outro marco. Em 3 de maio de 1933, foi inaugurada a rota Blumenau-Curitiba, operada pela mesma Aero Lloyd Iguassu.
Porém, o fascínio pela aviação em Blumenau é ainda mais antigo. Em 1º de julho de 1924, a cidade recebeu o aviador alemão Erich Laskowski, que ministrou uma conferência chamada “A Aviação Alemã e, especialmente, a Aviação Sem Motor”. Naquele período, a Alemanha ainda sofria restrições impostas depois da Primeira Guerra Mundial, o que impulsionou o volovelismo, uma prática de voos com aeronaves sem motor, o que despertou o interesse de entusiastas da cidade.
Dois anos depois, em 1926, esse entusiasmo ganhou forma. Em uma reunião no Bar e Restaurante de Oscar Gross, na Rua XV de Novembro, 35 apaixonados pela aviação fundaram a Fliegerbund Blumenau, ou Sociedade Blumenauense de Aviação, confraria dedicada a estudar e fomentar a prática do voo. Entre músicas, conversas e bebidas, surgia ali uma das primeiras organizações aeronáuticas do país. O grupo decidiu construir um planador próprio e assim surgiu o Phoenix, considerado por registros históricos como um dos primeiros planadores construídos no Brasil.
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Saiba mais da história do Aeroclube de Blumenau
Mesmo antes de existir oficialmente, a aviação já se movimentava em Blumenau. O aeroclube foi formalmente estabelecido em 22 de abril de 1941, com reconhecimento do extinto Departamento de Aviação Civil e do Ministério da Aeronáutica. O prefeito na época, José Ferreira da Silva, convidou o instrutor Dauto Caneparo, de Florianópolis, para ministrar o primeiro Curso de Formação de Pilotos, com material cedido pela Força Aérea Brasileira.
A primeira turma contou com 40 alunos e, sem sede própria, o aeroclube utilizava uma sala cedida em parceria com o Clube Náutico América, onde eram ministradas as aulas teóricas.
Em janeiro de 1942, chegou à cidade o Piper J3 PP-TJH, o primeiro avião destinado exclusivamente à instrução de pilotos em Blumenau. Décadas depois, o campo da aviação mudaria de endereço, daria origem ao Aeroporto Quero-Quero e veria pousar aeronaves comerciais da TAC, da Rio-Sul e da TAM. Hoje, o espaço segue ativo, principalmente para a aviação geral e a formação de novos pilotos, o que mantém vivo um sonho iniciado muito antes do asfalto e as mansões tomarem conta da antiga pista improvisada.





