Uma “lhama” circulando pelas trilhas da Praia Mole, em Florianópolis, parece improvável hoje, mas fez parte da paisagem da praia no início dos anos 1980. Em uma época em que a região ainda era pouco ocupada, o animal andava solto pelo costão e chamava a atenção por cuspir e morder o calcanhar de quem cruzava a trilha até a praia.
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Apesar de ser parecido com uma lhama, o animal era na verdade um guanaco — uma espécie ancestral da lhama, mas menor, mais esguio, com pelagem marrom-avermelhada. O guanaco (Lama guanicoe) é um dos quatro camelídeos sul-americanos ainda existentes e, ao contrário da lhama e da alpaca, nunca foi domesticado.
Em Florianópolis, porém, o guanaco recebeu o nome de Zé. Ele chegou à Praia Mole ainda filhote, trazido por um casal de portugueses que haviam feito uma viagem de Kombi pela América do Sul.
Na época, o casal vivia em uma casa isolada no costão da Praia Mole, com acesso apenas por trilha em meio à vegetação. O guanaco circulava solto pela área, junto com outros dois cachorros que pertenciam ao casal.
A certa altura, o casal foi embora de Florianópolis devido a problemas pessoais, deixando a casa e os animais aos cuidados de duas irmãs. Uma dela é Patrícia Portella, de 58 anos, que na época era uma adolescente.
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— Eu me lembro perfeitamente da primeira vez que eu vi essa lhama. Eu fui na Praia Mole e dar uma volta, quando eu vi, falei: “Nossa, que bicho maluco, que bicho doido” — recorda-se Patrícia.
Como era a vida com a “lhama”
Cusparadas e mordidas
Segundo Patrícia, Zé se alimentava de mato, frutas e verduras — uma dieta próxima à de guanacos em vida livre na América do Sul, baseada principalmente em gramíneas e arbustos típicos de ambientes áridos, como o altiplano andino, onde a vegetação é escassa e adaptada ao clima seco. Para aparar a lã, era chamado um tosador acostumado a trabalhar com ovelhas.
Segundo a cuidadora, Zé não era dócil:
— A gente tava sempre trocando o Zé de lugar. Botava aqui, botava ali. Só que essa trilha também era trilha de quem ia pra praia. E quando chegava alguém para atravessar a trilha, ele dava um corridão na pessoa, porque o guanaco, ele te cospe, ou morde o calcanhar — recorda a cuidadora.
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Patrícia diz que costumava passear tranquilamente pelo costão com Zé.
— A gente morava no costão direito, eu pegava ele e saía caminhando até o costão esquerdo, e voltava com ele caminhando do meu lado numa boa — lembra.
Da praia para o sítio
Patrícia e a irmã cuidaram do guanaco durante três anos. Quando o proprietário retornou, a lhama foi doada para um sítio em Ratones. O final, porém, não foi feliz:
— Eu só sei que o sítio não foi muito legal não, sabe? Se não me engano, ele pegou uma bicheira, não cuidaram dele direito, não sei o que que houve, morreu — lamenta Patrícia, que estima que o animal tenha vivido cerca de dez anos no total.
É permitido ter um guanaco no Brasil?
Nos anos 1980, a legislação ambiental era incipiente e o pouco que existia incidia principalmente sobre a proteção e o uso da fauna silvestre nativa do Brasil. À época, ainda não existiam a Lei de Crimes Ambientais nem o Decreto de Infrações Ambientais.
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Atualmente, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) considera o guanaco uma espécie da fauna exótica, por não estar incluído na lista de animais isentos de controle isentos de controle ambiental. Nessa lista, popularmente conhecida como “lista de animais domésticos”, estão lhamas e alpacas, mas não o guanaco.
Segundo o Ibama, a posse legal de animal silvestre (nativo ou exótico) requer que o proprietário possua documentação que comprove a origem legal do espécime. Também é necessário manter recintos adequados à manutenção e ao bem-estar do animal.
“No caso de animais da fauna exótica, o cuidado deve ser redobrado quanto à segurança contra fugas, a fim de impedir escapes. A fuga ou o abandono de animais exóticos podem resultar em processos de invasão biológica, capazes de causar danos ambientais significativos, muitas vezes irreversíveis”, afirmou o Ibama, ao NSC Total.






