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    Quando o ambiente de trabalho causa depressão: entenda como reconhecer o problema

    Psiquiatra aponta que é fundamental atenção de equipe e gestores para o tratamento adequado de pessoas com depressão no ambiente corporativo

    12/01/2021 - 14h24

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    Estúdio
    Por Estúdio NSC
    Precisamos falar sobre saúde mental no trabalho
    (Foto: )

    Cargas muito altas de trabalho podem representar prejuízos para a saúde. A saúde mental no ambiente corporativo tem preocupado gestores dos mais diversos ramos da indústria, principalmente pelo crescente número de pessoas registradas com depressão decorrente do trabalho.

    Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, há, em todo o mundo, cerca de 300 milhões de pessoas com depressão, e o ambiente de trabalho nocivo é apontado como um dos principais causadores de problemas psicológicos e físicos.

    Mudar esse cenário é fundamental não somente para o bem-estar pessoal, mas também para o mercado. A depressão gera perda de produtividade e isso, ainda de acordo com a OMS, custa aproximadamente um trilhão de dólares ao ano para a economia global.

    O Movimento Falar Inspira a Vida propõe requalificar a conversa sobre depressão, quebrando estigmas e abordando as diferentes formas da doença. Embora não possamos falar que há uma forma de depressão causada pelo trabalho, o ambiente de trabalho nocivo e uma série de fatores, como excesso de cobrança e jornadas excessivas, pode servir como gatilho ou agravar o quadro de depressão.

    Para falar dessas questões, convidamos o Dr. Arthur Guerra, psiquiatra, professor da Faculdade de Medicina da USP e da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental

    Quais os primeiros sinais de que o trabalho está causando ou está relacionado à depressão?

    O primeiro sinal de que o trabalho pode estar relacionado à depressão é o desajuste da pessoa em relação ao ambiente profissional. Esse sinal deve ser identificado primeiramente pelo supervisor imediato ou líder da equipe.

    Mais do que um psicólogo, um médico do trabalho ou outros colegas, o supervisor imediato é quem consegue saber se aquela pessoa vem apresentando um comportamento diferente, se está mais irritada, se está tendo um rendimento pior da sua função profissional. O supervisor deve ser capaz de notar se aquela pessoa “parece uma outra pessoa” porque, por exemplo, passou a chegar a atrasada, está desanimada, tem pensamentos negativos, está desatenta, com pouca paciência com seus colegas e com os erros que são normais em todo trabalho. Normalmente, esses são sinais de um quadro misto de depressão e ansiedade.

    Como os demais funcionários devem abordar a questão com um colega com depressão sem serem invasivos?

    Os colegas devem manter uma postura respeitosa e de empatia. É importante que se coloquem no lugar daquela pessoa que está com depressão e pensar “se fosse comigo, como eu estaria me sentido e como eu esperaria que meus colegas agissem?”

    Sobretudo, é indicado que os colegas conversem com o superior imediato ou líder da equipe, que, em geral, são profissionais capazes de fazer a leitura da situação e encaminhar para o tratamento adequado.

    Cabe ao supervisor desmistificar, perante a equipe, a necessidade de tratamento psiquiátrico, falando abertamente e evitando que o funcionário com depressão seja considerado “louco” ou “doente mental” pelos colegas. É determinante mostrar que o tratamento psiquiátrico tem como uma das principais funções evitar que o quadro depressivo se torne crônico.

    Considerando que a pessoa com depressão nem sempre percebe-se nessa condição e/ou não sabe como buscar ajuda, é indicado que outros funcionários reportem casos de colegas com depressão ao RH ou aos superiores?

    Sim. Essa conduta é indicada.

    Ainda há muitos estigmas em relação à saúde mental e a pessoa com depressão tende a se sentir pouco apoiada e a achar que depressão pode ser considerada uma falta de vontade, como se fosse um problema moral, e não um problema médico, psiquiátrico. Por isso, costuma existir essa resistência inicial em se abordar a questão, o que atrapalha no diagnóstico precoce e no encaminhamento para o tratamento adequado.

    Um papel absolutamente fundamental nessas condições é o do gerente de Recursos Humanos. Quem trabalha em RH consegue, muitas vezes até mais que profissionais da saúde, fazer o diagnóstico inicial, conversar sobre o assunto e encaminhar o funcionário com depressão para que seja tratado da melhor maneira.

    É importante que esse time seja treinado para que consigam identificar precocemente quadros de depressão e outros problemas de saúde mental.

    Existe uma forma ideal de os gestores lidarem com funcionários com depressão?

    Sim. A forma ideal é abrir o jogo. Quando o diagnóstico já tiver sido feito, é falar “prezada(o) funcionária(o), você tem um problema de saúde, uma doença, e nós precisamos cuidar de você”.

    Os gestores devem demonstrar interesse sincero em cuidar do funcionário com depressão, deixando claro que querem o funcionário bem e com saúde física e mental. Do ponto de vista corporativo é mais rentável e traz mais estabilidade para a empresa manter um funcionário em boas condições de pertencimento.

    Nesse sentido, os cuidados devem ser tanto no encaminhamento para o tratamento adequado quanto no modelo de respeito que deve ser adotado por todos da equipe, para que a pessoa com depressão possa ser reintegrada assim que se sentir segura.

    COMO ACOLHER A PESSOA COM DEPRESSÃO NO AMBIENTE DE TRABALHO

    O Movimento Falar Inspira a Vida acredita que pequenas mudanças na abordagem sobre depressão podem fazer muita diferença. As pessoas com depressão precisam de acolhimento e escuta para que se sintam seguras para buscar tratamento adequado.

    Funcionários com quadro depressivo tendem a apresentar dificuldade de concentração, lapsos de memória, atrasos nas entregas e outros problemas que podem comprometer os resultados e isso pode gerar uma cobrança excessiva, principalmente por parte dos colegas.

    Para entender melhor como tornar a conversa sobre depressão mais empática, baixe gratuitamente o guia Depressão: Quando falar e ouvir inspira a vida.

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