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    Presos em casa? É hora de jogar!

    Com uma parte tão grande da vida transferida para a internet, os jogos de tabuleiro são deliciosamente táteis, com o prazer quase indecente de jogar os dados, distribuir as cartas e andar com a peça do jogo pelas casas do tabuleiro

    12/05/2020 - 13h02

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    Por The New York Times
    jogo
    (Foto: )

    Nas melhores circunstâncias, sou uma má perdedora e uma vencedora desajeitada e vacilante. Ainda assim, passei boa parte do último mês jogando todos os tipos de jogos: Twenty Questions, I Spy, jogos de memória, de estratégia e até esconde-esconde nos limites do meu apartamento de três quartos.

    Na maior parte do tempo, brinco com jogos de tabuleiro com uma paixão que não tinha desde os nove ou dez anos, quando trapaceava no Candy Land (eu colocava a Queen Frostine como a segunda carta do baralho e dizia alegremente à minha irmã: "Pode ficar com a primeira!").

    Se você, assim como eu, cresceu com um jogo de Ludo faltando peças, ou com uma Batalha Naval com um par de navios a menos, preciso dizer que os jogos de tabuleiro melhoraram muito desde então.

    Meus livros continuam parados e não tenho paciência para ver um filme, ou mesmo uma série de 23 minutos até o fim, sem olhar para o telefone. Então, como é possível ficar uma hora e meia focada nos camelos de um mercado indiano, no jogo Jaipur, ou simulando uma colcha de retalhos em Patchwork?

    Embora eu tenha cortado quase todos os gastos desnecessários, vivo procurando tabuleiros usados de jogos infantis – Outfoxed!, Ticket to Ride: First Journey, Sushi Go! – e até alguns jogos para adultos no eBay. Outro dia, caí no abismo do Google ao comparar quebra-cabeças cooperativos. Quando finalmente consegui sair do buraco, descobri que havia encomendado o Sherlock Holmes: Consulting Detective de um site na Inglaterra. O preço do frete estava surpreendentemente bom.

    Com uma parte tão grande da vida transferida para a internet, os jogos de tabuleiro são deliciosamente táteis, com o prazer quase indecente de jogar os dados, distribuir as cartas e andar com a peça do jogo pelas casas do tabuleiro. E muitos desses jogos são lindos, cheios de cores e formas. Mas, afinal, os livros da biblioteca também são táteis. Portanto, por que a preferência pelos jogos?

    Escrevi para Joey Lee, diretor do Laboratório de Pesquisa em Jogos da Faculdade de Educação da Universidade Columbia, esperando que pudesse me dar uma resposta. Segundo ele, jogos criam um "círculo mágico", uma ideia mais ou menos emprestada do historiador cultural Johan Huizinga. Lee afirmou que esse círculo, dentro do qual todos concordam em seguir as mesmas regras e restrições, fornece "uma estrutura e um ambiente que levam ao riso, à criatividade, à alegria e a outros momentos de prazer que surgem da capacidade de resolver problemas, do desenvolvimento das estratégias, do trabalho em grupo ou da competição com outros jogadores".

    Isso foi uma maneira grandiosa de descrever o que acontece quando meu filho de três anos e eu combatemos trolls em My First Castle Panic, mas faz sentido.

    Nicholas Fortugno, designer de jogos e palestrante, explicou por que jogar com meus dois filhos pequenos melhora nossas tentativas frustradas de estudar em casa. "Os jogos eliminam as diferenças de idade. Se tenho dez anos e estou jogando com meus pais, a estrutura de autoridade que geralmente governa meu comportamento é suspensa. Durante o jogo, somos iguais", disse.

    Quando tento ensinar o sistema de notação numérica à minha filha de seis anos, não é possível ignorar que existe uma hierarquia entre nós. Quando jogamos Zeus on the Loose, que exige a prática de adição e subtração enquanto tentamos ocupar o Monte Olimpo, jogamos de igual para igual.

    Ou mais ou menos.

    Devo confessar que tenho trapaceado em muitos desses jogos com a avidez de sempre, mas agora em favor de meus oponentes. Perder oferece lições importantes – gentileza, resiliência, aceitação da aleatoriedade dos dados. Mas ficar confinado em casa sem festas de aniversário ou brincadeiras com os amigos já é uma lição grande o bastante. Por isso, as crianças sempre acabam ganhando de mim quando jogamos Scary Bingo.

    Eu e meu marido também temos jogado alguns jogos de tabuleiro, que são uma folga merecida de outros jogos como "Ei, você viu o saldo da previdência?", ou "Por que você está bebendo tanto?". Todas as vezes que conversei com especialistas em jogos, pedi a eles que fossem meus concierges ("Prefiro sommelier", disse Fortugno) e recomendassem jogos que não nos deixassem à beira do divórcio, ou que, pelo menos, nos ajudassem a deixar isso para depois do lockdown. Também mencionei que sou aquele tipo de monstro que leva jogos a sério demais.

    "Jogos de tabuleiro são uma das poucas válvulas de escape em que isso é socialmente aceitável, desde que você não perca a cabeça e vire a mesa se for derrotada", disse Erik Arneson, autor de livros sobre jogos de tabuleiro.

    Ele recomendou o Patchwork, "um joguinho adorável para duas pessoas sobre a fabricação de colchas de retalhos". Por coincidência, meu marido e eu havíamos acabado de comprar uma cópia de Patchwork que estava em oferta. Arneson tinha me alertado de que, às vezes, eu ficaria com raiva do meu marido por roubar uma peça de que eu precisava. Ele tinha razão. Mas essa irritação, diferentemente dos meus sentimentos sobre a divisão da carga emocional, era pequena e bem definida.

    Ainda assim, sugeri que deveríamos escolher jogos mais cooperativos. Diversos especialistas concordaram que o melhor jogo cooperativo é Pandemic, sem ironia. Passamos, porém, algumas noites jogando Sherlock Holmes e experimentando jogos de fuga de salas fechadas. Isso também parece meio irônico, já que durante a pandemia temos a sensação de que estamos trancados em uma sala, com a diferença de que, no jogo, fugir é uma possibilidade.

    "Os jogos podem ser uma forma saudável de escapismo. Quando você se senta para jogar, está dentro dos parâmetros do jogo. Durante uma ou duas horas, concentra-se em cuidar de suas cabras, suas ovelhas e seu celeiro, e sente que está no controle. Acho que isso ajuda muito a relaxar", afirmou Robert Hewitt, diretor do Brooklyn Game Lab, um programa do contraturno escolar que, atualmente, funciona pela internet. (Espero sinceramente que esse jogo das cabras não seja apenas um exemplo hipotético.)

    Naomi Clark, professora do Centro de Jogos da Universidade de Nova York, descreveu os jogos como um espaço seguro para a prática de padrões de pensamento que se tornaram arriscados no mundo real, como o planejamento de longo prazo ou a alocação de recursos. Clark também mencionou uma série de pesquisas em neurociências que sugerem que os jogos ocupam os caminhos neurais que, do contrário, levariam a pessoa de volta a experiências traumáticas, como uma pandemia. "Os jogos conduzem o cérebro por outros caminhos e permitem que sua mente se cure", explicou.

    Daqui a dois ou seis meses, ou assim que o lockdown acabar, não consigo imaginar que passaremos tanto tempo jogando juntos. As crianças ficarão a maior parte do tempo na escola; os espetáculos da Broadway retornarão em algum momento. Daremos alguns jogos a nossos amigos, doaremos outros à coleção da Biblioteca do Brooklyn. Mas, enquanto isso, vamos continuar a abrir as caixas, ajeitar os tabuleiros, embaralhar e distribuir as cartas.

    Alguns dos jogos prediletos da nossa família são:

    Animal Upon Animal: é como Jenga, mas melhor. Nesse jogo de habilidade, os jogadores devem empilhar peças de madeira (um jacaré, ouriços, pinguins, alguns bichos estranhos que podem ser lagartos).

    Outfoxed: um jogo colaborativo para crianças, que imaginam ser galinhas que investigam uma raposa que roubou uma torta. A raposa ainda não nos venceu – mesmo quando não deixo as crianças trapacearem.

    Scary Bingo: as regras desse jogo são simples e conhecidas. Uma pessoa sorteia e os jogadores marcam as casas corretas. Porém, em vez de números, o jogo tem um design inteligente e cheio de monstros esquisitos.

    Para dois adultos:

    Exit: esses jogos de fuga de salas fechadas têm alguns aspectos frustrantes. Você precisa ser muito preciso na maneira como manipula as peças e alguns elementos são destruídos durante o jogo, o que os torna descartáveis. Mas os quebra-cabeças são deliciosos de resolver e não são tão difíceis se você ler as dicas preliminares.

    Patchwork: a aparência é terrível e o jogo parece ser simples demais. Afinal, um jogo sobre colchas de retalho não pode ser muito difícil, não é mesmo? "Patchwork", no entanto, obriga os jogadores a planejar os movimentos com bastante antecedência.

    Sherlock Holmes: Consulting Detective: esse jogo cooperativo é meticulosamente construído e extremamente envolvente. Você e seu parceiro representam Irregulares de Baker Street que precisam solucionar um mistério digno de Sherlock Holmes.

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