nsc
dc

Meio ambiente 

Problemas de saúde por agrotóxicos levam agricultores a escolherem orgânicos em SC  

Com a saúde calejada pelo uso dos defensivos agrícolas, produtores rurais contam como mudaram suas vidas ao migrar para a produção sem o uso de defensivos 

02/11/2019 - 09h00 - Atualizada em: 04/11/2019 - 07h06

Compartilhe

Karollayne
Por Karollayne Rosa
Número de agrotóxicos liberados no para uso no Brasil cresceu em 2019
Amauri Eloi Batisti e Gabriela Fuck Batisti mudaram a atuação de trabalho
(Foto: )

Há 20 anos, o agricultor Aluíso Stolarczk trabalhava com a família na propriedade em Major Gercino, na Grande Florianópolis, quando, com uma bomba nas costas, pulverizava a plantação de fumo com um produto químico. Entre uma borrifada e outra, caiu desacordado em meio à roça.

Até hoje, aos 63 anos, não lembra pela própria memória como foi parar à beira da plantação, mas recorda do cheiro forte do composto químico que sentiu antes de desmaiar. Daquele dia em diante, Stolarczk passa mal só de sentir o cheiro do veneno. Na cidade de Aluíso, estima-se que 66% dos produtores rurais trabalhem com agrotóxico.

Começa a arder o nariz, a garganta. Dali a pouco, o estômago fica embrulhado. Se continua [o contato], começo a vomitar, com muita dor de cabeça Aluíso Stolarczk, agricultor

Àquela época, o uso de agrotóxicos era constante na plantação da família. Nos dias em que o corpo de seu Aluísio não reagia imediatamente ao contato com a substância durante a aplicação, o mal-estar aparecia depois. O estresse era uma constante na vida do marido, como lembra a companheira Maria Salete. Atualmente, mesmo com a saúde do corpo em dia, o agricultor toma um comprimido por dia para afastar a depressão, herança maldita que a esposa suspeita ser herdada após anos de contato com os agrotóxicos. Seu Aluísio acredita que dificilmente estaria vivo se não tivesse deixado a agricultura convencional:

– Eu cresci, fiquei velho e a gente nunca escutava dizer “tal fulano faleceu de câncer”. Hoje em dia, no região está cheio de casos.

Foi também no interior do município majorense, que cresceu o casal Amauri Elo Batisti e Gabriela Fuck Batisti. Certa vez, quando a agricultora se ajeitou na cama para dormir ao lado do esposo, parecia que tinha deitado ao lado de uma bomba de veneno.

O agricultor tinha passado o dia borrifando inseticida na comunidade Boa Esperança. Passava sempre pela manhã para evitar o mormaço que vinha com o avançar das horas. Naquele dia, o ar começou a faltar assim que a noite chegou, de tal forma que a esposa percebeu a agonia.

Cada vez que Amauri falava alguma coisa, ela tinha a sensação de que o marido soprava veneno nela.

– Parece que ele tinha comido aquilo – lembra a esposa.

Quando ia amarrar o fumo que passou o dia colhendo, a mistura do tabaco com o agrotóxico produzia uma sensação insuportável para Gabriela:

– Tinha que vomitar um pouco, amarrar um pouco, vomitar mais um pouco, e assim ia. No outro dia ficava... não sei se igual porre de bebida, porque eu nunca tomei, mas era terrível. Comecei a tomar remédio, mas mesmo assim eu vomitava.

O agricultor, hoje com 43 anos, lembra bem como a sensação se repetia. Nem a manga comprida da blusa e a roupa trocada todos os dias às 12h dava conta. Usava luva e máscara, mas o cheiro sempre ultrapassava. Sentia enjoo e sensação de mal-estar:

– Dá uma coisa assim que parece que a gente vai morrer. Ataca tudo os nervos, braço, perna. Pensa numa coisa esquisita. Oito anos depois, ainda passo mal quando sinto o cheiro do veneno.

O que as duas famílias têm em comum foi a mudança de vida. Hoje, seu Aluísio, dona Salete, Amauri e Gabriela fazem parte do grupo de 1.582 agricultores catarinenses ativos certificados no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, do Ministério da Agricultura. Os episódios de intoxicação foram determinantes na decisão de deixar a produção convencional e apostar no modelo livre de agrotóxicos.

No caso de Aluísio e Salete, essa decisão foi tomada há cerca de 10 anos. Anos antes, eles tinham feito um curso sobre como lidar com os produtos tóxicos e começaram a pensar sobre o assunto. Por insistência da esposa, cansada de ficar doente e de ver o esposo adoecer em toda época de safra, decidiram parar de plantar fumo.

– Tínhamos quatro filhos pequenos nessa época e ela imaginava que não daria conta de criar os filhos. Porque o fumo é um vício quando a gente está nele. Sem ele, morre de fome. Se a gente tivesse saído antes era melhor – conta o agricultor.

A transição para a agroecologia veio com a oportunidade de produzir uva biodinâmica – semelhante à orgânica. Dona Salete lembra: “Era tudo ou nada”. Para tornar as frutas orgânicas, era preciso transformar a plantação inteira, parando de vez com os agrotóxicos. O que exigia um investimento financeiro para tornar a propriedade apta para produção, afastando a possibilidade de contaminação. Neste ano, o casal completa uma década de produção orgânica. Hoje, fazem parte de uma associação de produtores rurais locais que em breve comercializará suco de uva.

No caso de Amauri e Gabriela, a escolha foi feita após colocarem na balança o que estava em jogo. Optaram pela saúde. Inicialmente, saíram do campo, mas voltaram dois anos depois. O primeiro contato com a produção orgânica foi em 2011. Começaram com a produção de banana. Depois, veio o aipim, a batata doce, a batata-aipo, o açafrão, a cebolinha e diferentes tipos de chás. Aos fundos da casa, no espaço onde antigamente ficava a plantação de fumo, está sendo construída a indústria do casal, que pretende dar mais agilidade na distribuição dos produtos comercializados.

Além das feiras, o que o casal e outros agricultores produzem chegam até os consumidores em uma grande cesta por meio de assinaturas mensais. Além disso, os alimentos orgânicos podem ser encontrados também no prato de crianças e adolescentes que estudam na rede municipal de ensino da região.

Diferentes fatores influenciam no desenvolvimento de uma doença. Por isso, há dificuldades em estabelecer uma relação direta com o contato com agrotóxicos.

Isolar esses fatores causadores é possível somente a partir de estudos com milhares de pessoas sendo acompanhadas ao longo de anos, conforme explica o médico pneumologista do Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Santa Catarina (CIATox/SC), Pablo Moritz. Mas nem por isso os impactos negativos na saúde deixam de ser considerados, segundo ele.

– A gente só vai descobrir isso depois de décadas errando, produzindo alimentos dessa maneira e depois descobrindo os efeitos na população – afirma Moritz.

Todos os casos de intoxicação por agrotóxico que chegam às unidades de saúde do Estado, sejam agudos ou crônicos, são registrados pela Ciatox.

– Individualmente, é sempre muito difícil. É por probabilidade. Se a pessoa se expôs àquilo e a gente não encontra outra causa, é provável o nexo causal, e a gente pode sim inferir pela probabilidade que aquela foi a principal causa – explica.

Nexo causal é o nome dado ao fator causador de uma doença.

Leia mais:

O Brasil não pode ser quintal de agrotóxicos banidos, diz médica que trata câncer infantil

Ainda não é assinante? Assine e tenha acesso ilimitado ao NSC Total, leia as edições digitais dos jornais e aproveite os descontos do Clube NSC. Acesse as últimas notícias no NSC Total

Colunistas