“Por volta dos seis anos entendi que ser negra era um problema para a sociedade.” A frase da escritora Djamila Ribeiro, no livro “Pequeno Manual Antirracista”, ecoa para além das páginas e se reflete no cotidiano de pessoas negras em todo o Brasil há séculos. Em Joinville, cidade do Norte de Santa Catarina, isso não seria diferente. A professora e mestre em Educação Josiane Neves da Silva Sant’Anna também passou por momentos desafiadores na infância, que refletiram em quem ela se tornaria como pessoa e profissional. Anos mais tarde, foi vencedora de um prêmio nacional que aborda o tema étnico-racial que faz diferença no dia a dia da educação joinvilense.

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Josiane começou a trabalhar cedo, com apenas 14 anos de idade. Naquela época, a ofereciam apenas vagas de emprego como babá e empregada doméstica, profissões que costumam ser socialmente desvalorizadas. Ela, porém, queria ir além das expectativas. Ainda muito nova, conseguiu um trabalho na área administrativa. Nessa época, ela já compartilhava a vida com seu marido, Pedro.

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Quando a família já contava com quatro integrantes, Josi atendeu um chamado para ingressar em uma nova profissão: a pedagogia. Ela voltou às salas de aula para estudar, algo que ela sempre amou fazer. Ao conviver com profissionais e colegas da Associação Catarinense de Ensino (ACE), se apaixonou pela educação infantil.

— Na minha época de escola já existia racismo. Mas eu me via culpada, pensava: “O que tem de errado comigo para as pessoas me tratarem desse jeito?”. A gente acha que é culpada por ter nascido negra, por ter o cabelo do jeito que temos. E tentamos nos moldar como a sociedade quer que sejamos. Então pensamos: “Vou alisar o meu cabelo para que não riam dele, ou vou amarrar. Vou usar maquiagens para ficar um pouquinho mais clara, não vou ficar muito no sol. Vou andar mais com pessoas brancas e não com muitas pessoas negras. E assim a gente vai se distanciando da nossa cultura — reflete.

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Educação antirracista

Josiane afirma que, desde o início da sua carreira na área da educação, sempre foi convidada a encabeçar projetos sobre questões étnico-raciais. Mas foi apenas em 2020 que ela, junto com outros colegas, iniciaram um projeto que foi reconhecido nacionalmente. Com a pandemia, porém, os planos foram retirados do papel aos poucos.

Em maio de 2020, um acontecimento que chocou o mundo impulsionou uma proposta mais profunda na Escola Municipal Monsenhor Sebastião Scarzello, localizada no bairro Itaum. A morte de George Floyd e o movimento Vida Negras Importam levou à criação do projeto “O seu olhar melhora o meu”, coordenado por Josiane, Maria Fabiane Israel e Ana Cláudia Zeszotko.

A ideia se expandiu para uma discussão sobre raça e cor. A equipe docente propôs que as crianças e adolescentes desenvolvessem desenhos de pessoas pretas, para que então fossem transformadas em bonecos de pano. Após essa etapa, os brinquedos seriam trocados entre os alunos. Entretanto, o conceito foi criticado por algumas famílias.

— As professoras conversaram com as crianças, de forma online, e fizeram uma provocação [sobre o tema].  E ali começou uma chuva de racismo. Tinham pais que ligavam para a escola e diziam que todas as vidas importam, que não eram só as vidas pretas, que os filhos não iriam fazer bonecos de “vodu” e que só iam fazer o trabalho só se fossem bonecos brancos — relembra.

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Como a unidade ainda estava iniciando o letramento racial de todos os docentes e funcionários, a equipe do projeto decidiu liberar a criação de bonecos de todas as cores. No entanto, quando chegou o momento de trocar os brinquedos, o racismo se fez presente mais uma vez.

— Foi em novembro, na semana da Consciência Negra e os pais não tiveram nem cuidado. Eu estava, junto com a diretora e a supervisora, acolhendo as crianças para que elas pegassem um boneco. E tiveram pais que falaram: “meu filho não vai levar esse boneco de macumba para casa”, “meu filho não vai levar esse boneco preto para casa”. E aquilo ali me deixou muito chocada porque nós estávamos vivendo um momento de tanta dor com a pandemia e mesmo assim as pessoas não se comoviam com a dor do outro — relembra.

Avanço do projeto

Com a realidade racista encontrada, a equipe liderada pela professora Josi decidiu expandir o projeto em 2021, quando as aulas voltaram a ser presenciais. Assim nasceu “O seu olhar melhora o meu” em sua totalidade, visando o letramento racial dos estudantes e suas famílias.

— Promover dentro desse espaço práticas, discursos e encontros que valorizassem e respeitassem a cultura afro-brasileira dentro e fora da escola. E isso seria possível com material didático que trouxesse representatividade para todas as crianças — conta.

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O projeto, no entanto, iniciou dentro da sala dos professores. Josi pediu para que seus pares refletissem sobre o racismo e analisassem o ambiente escolar, como a presença de outras atividades relacionadas a temas raciais e a presença de bonecos pretos à disposição das crianças da educação infantil.

— A gente começou, com essa formação de professores, a possibilitar práticas educativas em que as crianças pudessem se sentir pertencentes àquele território na sua inteireza, do jeito que cada criança era com as suas histórias, com as suas culturas. E muitas coisas foram sendo desconstruídas e reconstruídas — afirma.

Além da inclusão racial, a equipe também passou a trabalhar na integração de crianças surdas, já que a escola é uma das unidades de referência para o ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Outras deficiências que pudessem ser encontradas no corpo discente também seriam compreendidas pelas ações.

— Nesse processo foram sendo desenvolvidas propostas, teatros, histórias. Começamos a levar para dentro da escola personalidades negras de relevância nacional, que de uma maneira ou de outra construíram um conhecimento que impactou a sociedade no Brasil — relata.

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Essas personalidades, então, eram estudadas dentro das salas de aula durante todo o ano letivo. Antes de encerrar o aprendizado, os professores escolhiam uma pessoa negra de Joinville, que tinha uma atuação parecida à personalidade estudada, para uma conversa com os estudantes.

— Por exemplo, foi pesquisada a doutora Jaqueline Goes de Jesus, cientista que mapeou o coronavírus, e nós conseguimos levar duas enfermeiras negras para falar da área da saúde. Ou quando pesquisamos o Machado de Assis, que entre as escritas veio a questão do julgamento, do advogado. E aí a gente levou uma advogada negra para conversar com as crianças — explica.

A professora afirma que todos os aprendizados e conversas foram importantes para que as crianças, principalmente as negras, percebessem que outras pessoas vieram do mesmo lugar que elas e têm histórias parecidas.

— Elas começaram a perceber que também poderiam ir além do que a sociedade, muitas vezes, fala que pode. Então, as crianças começaram a se empoderar dentro da escola — diz.

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Empoderamento das crianças e denúncias de racismo

Josiane relembra que o resultado do projeto foi visto logo com as primeiras turmas participantes. As meninas que usavam os cabelos presos passaram a soltá-los após a visita de uma cabeleireira que cuida de fios cacheados e crespos.

— Depois, os meninos negros vieram nos questionar: “profe, mas vocês fizeram coisas para as meninas e não fizeram para nós?”. E aí a gente levou o Zumbi dos Palmares enquanto um super-herói e trabalhamos com os meninos qual o superpoder que eles tinham. E isso foi muito importante para esses meninos, porque o corpo negro dentro da escola é um corpo em movimento. E isso está na ancestralidade negra, do movimento da ginga — diz.

A professora ainda relata que após as primeiras atividades já foi possível perceber uma mudança de comportamento dentro da comunidade escolar. Alunos passaram a denunciar atos de racismo que aconteciam dentro e fora do colégio. Em conjunto com o corpo docente, decidiam as melhores formas de tratar os casos.

— As crianças viam ações racistas e falavam: “fulano cometeu racismo”. E a gente afirmava que temos que dar nome, porque não é bullying, não é preconceito, não é discriminação. É racismo. E falamos para as crianças que racismo era crime, que precisava ser combatido. Não tolerado, e sim combatido. Como uma guerra mesmo, para que isso parasse de acontecer — lembra.

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Resultados e reconhecimento

Nos últimos cinco anos, o projeto “O seu olhar melhora o meu” impactou mais de 3 mil crianças e adolescentes da Escola Municipal Monsenhor Sebastião Scarzello, além de aproximadamente 70 funcionários anualmente — e incontáveis familiares.

Em 2022, o projeto foi reconhecido na 8ª edição do Prêmio Educar, organizado pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), uma organização não governamental. Naquele ano, o prêmio teve como lema “educar com equidade racial e de gênero”,

— Ficamos entre os 16 projetos do Brasil com maior relevância na questão social. Ficamos muito felizes por ter participado. Depois, fomos até São Paulo e participamos de formações. A partir dessa viagem, também fomos convidados pelo Instituto Gesto, da Fundação Lemann, a ir para o Rio de Janeiro apresentar o projeto para 16 estados — relembra.

Para Josiane, o projeto foi um divisor de águas e ajudou a modificar o projeto político-pedagógico da escola, prevendo ações de combate ao racismo todos os anos.

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Educação antirracista

O projeto, no entanto, alterou mais do que a história e conhecimento dos estudantes impactados. Josiane Neves da Silva Sant’Anna passou a se enxergar com outros olhos e a se dedicar ainda mais à luta contra o racismo.

Em 2024, a professora escreveu um capítulo do livro “Por uma infância sem racismo: pesquisa, práticas e formação de professores”, organizado por Luana Tolentino e Cristina Carla Sacramento, referências no tema. Com as oportunidades, Josiane passou a se posicionar ainda mais fortemente como uma professora antirracista e a levar o debate para todos os espaços que ocupa.

— Eu falo que na educação antirracista não tem como ser diferente. Porque o racismo é sorrateiro, silencioso e cruel. Tem uma autora que eu gosto muito, a pesquisadora brasileira Bárbara Carine, que fala que se a educação não for antirracista, não é educação. E eu concordo com isso. Não tem como uma docente entrar numa sala de aula querendo que todas as crianças sejam iguais. Porque não são — afirma.

Josiane ainda aponta que, atualmente, questões de gênero, sexualidade e deficiências também não podem ser deixadas de lado. Contudo, um dos principais cuidados que é necessário hoje em dia é o olhar atento aos materiais didáticos que, muitas vezes, contam uma versão eurocêntrica da sociedade.

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— Eu cresci pensando que Machado de Assis era branco, porque ele foi embranquecido para ser aceito. Eu estudei em na Escola Municipal Doutor Abdon Baptista, que foi prefeito de Joinville e era negro. Eu nunca soube disso. Eu abria os livros didáticos e via as pessoas negras só nos lugares de servir. Se eu soubesse que teve um homem que foi perfeito e era negro, me impulsionaria. Se falassem para mim, por exemplo, da Antonieta de Barros, que era uma mulher negra e que foi muito importante em Santa Catarina, me impulsionaria — relata.

Josiane ainda explica que para mudar a educação não é preciso jogar tudo fora, mas desconstruir tudo o que já é feito para reconstruir de uma forma que inclua todas as minorias. Assim, a professora também escreve a história de Joinville.