Em meio ao aumento das tensões internacionais e à multiplicação de conflitos armados ao redor do planeta, o Exército Brasileiro trabalha em uma revisão estratégica para redefinir riscos e ameaças à defesa nacional. O estudo, elaborado internamente, deve ser concluído nas próximas semanas e levado ao Alto Comando da Força, possivelmente em junho. Com informações da CNN Brasil.
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Sem grande divulgação pública, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, assinou uma portaria que oficializa a política de transformação da força terrestre. O documento revela como a instituição pretende adaptar sua estrutura para cenários de guerra contemporâneos e futuros, prevendo mudanças organizacionais, doutrinárias, tecnológicas e também na formação militar.
A avaliação parte de um cenário internacional considerado mais instável. O texto destaca que há uma “tendência consistente” de crescimento dos investimentos militares em diversos países e afirma que o Brasil precisa acompanhar esse movimento.
Na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), por exemplo, os países-membros assumiram recentemente o compromisso de ampliar os gastos com defesa de 2% para 5% do Produto Interno Bruto (PIB).
O contexto global é marcado não apenas pelas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. Segundo levantamento divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) durante as reuniões de primavera da entidade, mais de 30 países registraram conflitos armados em 2024, atingindo cerca de 45% da população mundial.
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Como a guerra impacta o seu bolso
Ainda conforme o FMI, aproximadamente 1,9 milhão de pessoas morreram em conflitos nos últimos 15 anos. Paralelamente, cresce o movimento de rearmamento internacional, pressionando os orçamentos públicos e elevando o endividamento dos países.
No Brasil, o governo retirou do arcabouço fiscal cerca de R$ 30 bilhões em gastos previstos para modernização das Forças Armadas ao longo de seis anos. Mesmo assim, o próprio Exército considera o valor insuficiente diante das necessidades de reaparelhamento.
Além da limitação orçamentária, a força identifica outro problema: a dificuldade de acesso a equipamentos militares no mercado internacional. O documento afirma que a demanda mundial por materiais bélicos já supera a capacidade de produção disponível.
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Esse cenário reforça, segundo a política de transformação, a necessidade de fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira, considerada estratégica para garantir autonomia em áreas críticas de proteção militar.
O impacto desse aquecimento global do setor já é percebido pelo Exército, que enfrenta obstáculos até mesmo para recompor estoques de munições.
A análise estratégica também destaca mudanças no perfil dos conflitos atuais. O texto cita a rápida evolução tecnológica, a disseminação de sensores, drones e armamentos de precisão como elementos centrais das guerras contemporâneas.
O documento ainda aponta dois fatores considerados relevantes para o Brasil. O primeiro é o papel estratégico da América do Sul em um cenário multipolar, especialmente pela concentração de recursos naturais vistos como alvo de interesse internacional.
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O segundo é o avanço do crime organizado transnacional, cada vez mais sofisticado e com impacto crescente sobre a soberania e a governança regional.
Diante disso, o Exército conclui que a eficácia em combate depende diretamente de fatores como superioridade de informação, mobilidade, proteção, sustentação logística e capacidade de ataque em todos os níveis operacionais.
Tropas de prontidão
Uma das principais mudanças previstas pela política de transformação envolve a manutenção de parte das tropas em elevado estado de prontidão. A meta é que pelo menos 20% dos efetivos estejam preparados para responder rapidamente a eventuais ameaças externas.
Militares envolvidos na elaboração do projeto classificam a medida como uma estratégia de “dissuasão assimétrica”. A ideia é permitir que o país tenha capacidade de reação imediata mesmo diante de adversários potencialmente mais bem equipados.
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Na prática, essas unidades seriam capazes de se deslocar rapidamente para qualquer região do território nacional, atuando na contenção inicial de ameaças e reduzindo danos estratégicos.
Hoje, o Exército possui 25 brigadas operacionais. A previsão é que cinco delas assumam esse perfil de pronta resposta. Segundo fontes militares, as unidades escolhidas inicialmente são:
- Brigada Paraquedista, no Rio de Janeiro;
- Brigada Aeromóvel, em Caçapava (SP);
- Brigada de Infantaria de Selva, em Marabá (PA);
- Brigada de Infantaria Mecanizada, em Campinas (SP);
- Brigada de Cavalaria Blindada, em Ponta Grossa (PR).
A nova organização institucional do Exército divide as tropas em quatro categorias de atuação.
As chamadas forças de emprego imediato serão responsáveis pela resposta inicial em áreas de fronteira ou regiões próximas a possíveis crises.
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Já as forças de emprego de prontidão poderão atuar em qualquer ponto do país, com capacidade ofensiva para neutralizar ameaças.
As forças de emprego continuado terão papel estratégico em conflitos longos e de grande escala, atuando na defesa territorial, formação de reservas mobilizáveis e apoio ao Estado.
Por fim, as forças de emprego no multidomínio serão preparadas para operações integradas em diferentes ambientes, podendo atuar em módulos vinculados à Força Terrestre Componente (FTC) ou a comandos conjuntos.
O plano de transformação também prevê mudanças nas áreas de doutrina militar, desenvolvimento de capacidades e formação profissional. Entre os objetivos está a qualificação de militares para utilização de tecnologias consideradas emergentes e disruptivas.
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O Estado-Maior do Exército (EME) foi designado como responsável por conduzir o processo, sob coordenação da 7ª Subchefia.
As diretrizes da política serão debatidas ao longo deste ano antes de serem apresentadas oficialmente ao Alto Comando do Exército no fim de 2026.
As medidas aprovadas deverão ser incorporadas imediatamente ao atual planejamento estratégico da força, válido para o período de 2024 a 2027, servindo também de base para o ciclo seguinte, entre 2028 e 2031.








