Quem é Kerexu Yxapyry, liderança indígena do Morro dos Cavalos, em Palhoça

Kerexu é coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib)

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(Foto: Patrick Rodrigues)

Se levarmos em conta os números e a diversidade de povos indígenas na Amazônia, aquela região é muito mais representativa do que Santa Catarina. Porém, quando se trata de expressão política, temos no Estado lideranças tão relevantes quanto às amazônicas. Uma das vozes mais potentes é de Kerexu Yxapyry, liderança na aldeia Itaty, no Morro dos Cavalos, em Palhoça, e coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

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Gestora ambiental formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Kerexu é professora da escola indígena Tekoa Itaty, integrante do grupo “Kunhangue Rembiapó” de mulheres indígenas Guarani e fundadora do Centro de Formação Tataendy Rupa. Em português ela se chama Eunice Antunes.

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– Trago essa militância política como uma missão de vida – contava ela, em junho, recém-chegada de uma viagem à Europa em que com outras lideranças denunciaram no Parlamento Europeu, em Bruxelas, na Bélgica, perdas e violações de direitos humanos dos povos originários no Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).

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Kerexu, avó e mãe de três filhos, é filha de Adão Karai Tataendy Antunes, líder espiritual Guarani já falecido, e de Ivete de Souza. Em novembro de 2017, Ivete sofreu um ataque dentro de casa e teve uma mão decepada. Os jovens que praticaram o ato não teriam sido identificados. Em 2015, Kerexu foi escolhida pela comunidade para ser cacica no Morro dos Cavalos, o que a fez ser considerada como a primeira mulher a ocupar o cargo entre os Guarani do país enquanto liderança política.

A trajetória dela é marcada pela luta da homologação da terra indígena e em busca de maior visibilidade. Assim como ocorreu em 2018, neste ano ela concorreu nas eleições de outubro ao cargo de deputada federal pelo PSOL. Não alcançou o coeficiente eleitoral para integrar a deseja Bancada do Cocar da Câmara Federal, mas em um cenário diverso político e financeiro recebeu 35.215 votos.

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Desde que começou a envolver a comunidade, como crianças, jovens, mulheres e idosos na proteção do território do Morro dos Cavalos, também chegaram denúncias e conflitos que fazem parte da pauta nacional dos indígenas na defesa do meio ambiente. A atuação ganhou uma dimensão maior, como a defesa do bioma a Mata Atlântica.

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– O foco mundial é a Amazônia, mas aqui em Santa Catarina existe a floresta da Mata Atlântica que sofre com a especulação imobiliária e com o avanço do agronegócio irregular ao não respeitar limites. Sou uma voz que levo esse apelo para fora do país com a esperança de que por estarmos num estado que produz muito alimento, o mundo também se some na proteção da nossa mata e assim mantermos o equilíbrio de todos os biomas – explica Kerexu.

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As palavras têm ações concretas na comunidade. Ao lado do Centro de Formação Tataendy Rupa foi criado um canteiro com mudas com prioridade para a agroecologia. O objetivo é produzir espécies para reflorestar áreas degradadas dentro do território. Foi montada uma estufa com sistema de irrigação e a água puxada de uma nascente. O adubo é feito por compostagem. As famílias seguem o hábito de trocar sementes com Guarani de outras aldeias.

– Acreditamos que a semente precisa germinar em terra boa. Às vezes, aqui pode estar fraca, mas lá na outra aldeia melhor. Então, a gente faz este sistema de troca, principalmente com o milho tradicional, e suas várias espécies, o que para nós é um presente, é algo sagrado – explica a líder da aldeia Itaty.

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Saem os pinus, entram as árvores frutíferas

Durante a reportagem especial sobre os povos originários de Santa Catarina, nossa equipe acompanhou Kerexu até a parte alta do morro. Caminho de chão, íngreme e onde o carro fica na metade. Trata-se de espaço bastante degradado devido ao aterro das obras da BR-101. Na subida é perceptível um extenso plantio de pinus. Visão que também tem que passa pela rodovia: dos dois lados da estrada a mata nativa vai dando lugar aos eucaliptos. A plantação foi feita por antigos madeireiros, os quais deixaram o rastro em estradas presentes mesmo 50 anos depois.

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A preocupação com o mato faz sentido: o eucalipto exige muita água para a sobrevivência, sendo que o cultivo de maneira inadequada faz secar as reservas das águas subterrâneas próximas da superfície, os chamados lençóis freáticos. Alertados sobre a possível inutilização do solo, os Guarani criaram um Plano de Gestão Territorial e Ambiental para, a partir desse, começar a recuperação de parte do terreno.

Com o apoio do Ministério Público Federal foi feito um projeto com as mulheres, para a retirada dos pinus menores e o reflorestamento do lugar. Devido ao tamanho da área o projeto segue reduzido, mas o sonho é expandir.

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– Estamos trabalhando com árvores nativas. Plantamos próximo das nascentes dos rios e como muitas são frutíferas a gente já sente a diferença: vários pássaros antes desaparecidos voltaram para este lugar em busca de alimento – observa Kerexu.

Com 17 anos, monitor ambiental celebra retorno dos animais

Werá Antunes, 17 anos, é monitor ambiental do projeto e explica que o objetivo é focar nas áreas mais críticas. Estudante do Ensino Médio na escola Indígena Itaty, ele conta que além de árvores nativas também plantam milho, mandioca e batata doce para ajudar na alimentação.

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– Recebo uma bolsa como monitor, assim como outras duas pessoas. Me considero privilegiado, pois trabalho com algo que para nós Guarani é muito importante, a mata, e tudo que ela nos dá. Por isso, não vejo como um trabalho – diz.

Werá conta que desde criança alimentava um sonho: um dia ser uma grande liderança da aldeia. Acredita que isso venha do que observava em casa, onde o pai exercia o cacicado. Hoje, a mãe dele é cacique na aldeia Yakã Porã, na Enseada do Brito, também em Palhoça.

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– Hoje, com 17 anos, me sinto um líder. Nosso trabalho está fazendo animais voltarem para cá, e isso provoca alegria no meu povo, e acho que é isso que um líder deve fazer.

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