Um medicamento já comum no tratamento do diabetes pode ter um efeito inesperado: ajudar a proteger os rins contra o envelhecimento. 

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Em um experimento, cientistas aceleraram o “relógio biológico” em um animal de vida curta e observaram, em poucas semanas, alterações renais que em humanos levariam décadas para aparecer.

O estudo, publicado na Kidney International, testou os inibidores de SGLT2 — usados no diabetes e com aplicações em alguns quadros cardíacos e renais — e encontrou sinais de preservação da estrutura e da função do órgão, com menos inflamação e menor perda de microvasos.

O truque científico: um peixe que “envelhece rápido”

Para acelerar respostas que normalmente exigiriam anos de observação, os pesquisadores apostaram em um animal pouco conhecido fora dos laboratórios: o killifish turquesa africano (Nothobranchius furzeri). 

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Esse pequeno vertebrado tem um ciclo de vida muito curto, de poucos meses, o que permite acompanhar o envelhecimento em tempo recorde. 

Ao longo do envelhecimento, os rins do peixe passaram a apresentar alterações parecidas com as vistas em pessoas mais velhas: piora da filtragem, redução de vasos finos que irrigam o tecido (microvasculatura) e aumento de inflamação. 

Esses achados reforçam o modelo como uma forma rápida de estudar o “desgaste” renal e testar intervenções.

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Onde entram os inibidores de SGLT2

Os inibidores de SGLT2 são conhecidos por reduzir a reabsorção de glicose nos rins, ajudando a controlar a taxa de açúcar no sangue em pacientes com diabetes tipo 2. 

Com o tempo, estudos clínicos também passaram a associar essa classe a benefícios cardiovasculares e renais em diferentes perfis de pacientes, o que aumentou o interesse em entender os mecanismos por trás dessa proteção. 

No estudo com o killifish, os pesquisadores trataram os animais com um inibidor de SGLT2 e observaram que, com o passar do tempo, os rins se mantiveram em melhores condições do que no grupo sem tratamento.

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Em termos práticos, houve preservação da microvasculatura renal, menos sinais de dano estrutural e melhor funcionamento geral. 

O que o remédio parece proteger, na prática

Em um resumo do que mais chamou atenção, os resultados apontam para três frentes que costumam andar juntas no envelhecimento do rim:

  • Vasos sanguíneos mais preservados: a rede de capilares e pequenos vasos, essencial para a saúde do tecido renal, sofreu menos “rarefação” com o uso do SGLT2i. 
  • Menos perda de função e menos proteína na urina: o estudo relata melhora em marcadores ligados à integridade do filtro renal (o glomérulo), com redução de proteinúria no modelo. 
  • Inflamação e metabolismo celular mais estáveis: os dados sugerem uma manutenção mais “jovem” do funcionamento celular, incluindo vias ligadas à energia e comunicação entre células. 

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Um detalhe importante: segundo divulgações do próprio grupo, apesar da proteção renal, a intervenção não teve como objetivo “esticar” a vida do peixe e não necessariamente prolongou a longevidade. A mensagem central é outra: preservar qualidade de funcionamento do órgão durante o envelhecimento. 

Isso vale para todo mundo? Calma com a conclusão

O estudo é um passo relevante porque observa envelhecimento em um organismo vivo e dá pistas de mecanismos.

Mas ele não significa que pessoas saudáveis devam usar inibidores de SGLT2 para “prevenir” envelhecimento renal por conta própria. Resultados em modelo animal ajudam a explicar processos, porém não substituem evidências clínicas diretas para prevenção em indivíduos sem indicação médica. 

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Além disso, essa classe de medicamentos é de prescrição e tem efeitos adversos que precisam ser avaliados caso a caso, como maior risco de infecções genitais por fungos, desidratação em pessoas suscetíveis e, em situações específicas, um tipo raro de cetoacidose.

Por isso, qualquer uso deve ser decidido com acompanhamento médico, especialmente em quem já tem doença renal, usa diuréticos ou tem histórico de quedas de pressão. 

O que essa descoberta muda no debate sobre saúde dos rins

Mesmo com as ressalvas, a pesquisa reforça uma tendência: os rins estão no centro de uma conversa maior sobre envelhecimento saudável.

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Um ponto forte do trabalho é mostrar, em ritmo acelerado, como a microcirculação e o metabolismo do tecido renal parecem ser decisivos para a perda de função com a idade, e como os SGLT2i podem atuar preservando essas peças do quebra-cabeça. 

Para o leitor, a utilidade prática é dupla. Primeiro, ajuda a entender por que médicos passaram a olhar para certos remédios “além do açúcar no sangue”.

Segundo, serve como lembrete de que preservar rim não começa no consultório, quando a taxa de filtração já caiu, e sim em escolhas consistentes ao longo do tempo.

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Como cuidar dos rins no dia a dia

Enquanto a ciência refina as terapias, algumas medidas seguem como pilares para atravessar as décadas com menor risco de perda renal:

  • Controlar pressão arterial e glicemia, quando for o caso.
  • Evitar uso frequente e sem orientação de anti-inflamatórios.
  • Manter hidratação adequada ao seu perfil de saúde (excesso também pode ser problema em condições específicas).
  • Dar atenção a exames de rotina, como creatinina, eGFR e urina (especialmente em quem tem diabetes, hipertensão ou histórico familiar).

No fim, o “peixe que envelhece em meses” não entrega uma pílula mágica, mas oferece um atalho científico valioso: ele permite ver o que dá errado mais cedo, testar intervenções com rapidez e entender melhor como proteger um órgão que trabalha o tempo todo, mesmo quando ninguém está olhando.

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Hábitos para fortalecer a saúde dos rins 

*Por Raphael Miras