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    Ricos cortam gastos, prejudicando trabalhadores que contam com isso

    À medida que a desigualdade de renda cresceu nos EUA, a desigualdade no consumo também cresceu

    01/07/2020 - 18h06

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    Por The New York Times
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    *Por Emily Badger e Alicia Parlapiano

    Nova York – Nos restaurantes de Manhattan ao redor do Lincoln Center, as gorjetas muitas vezes aumentavam e diminuíam com a mudança da programação. Um popular musical clássico poderia significar mais clientes antes da apresentação e mais renda. Uma atriz mais famosa como Eliza Doolittle poderia fazer o mesmo. O fim de uma grande temporada, como a de "My Fair Lady", significava o oposto: as gorjetas ficariam mirradas por um tempo.

    "Dependíamos do sucesso da programação do Lincoln Center, e realmente prestávamos atenção", disse Emma Craig, que era garçonete no Atlantic Grill, a um quarteirão de distância, antes da crise do coronavírus.

    Ela ainda não voltou a esse emprego nem ao outro, como cantora em um clube privado no centro da cidade. Em ambas as ocupações, ela afirmou que depende "do dinheiro que vem dos ricos".

    A recessão esmagou esse tipo de trabalho em particular: serviços que dependem diretamente dos gastos – e dos caprichos – dos abastados.

    Economistas do grupo de pesquisa Opportunity Insights, com sede em Harvard, estimam que um quarto dos americanos de maior renda foi responsável por cerca de metade do declínio do consumo durante esta recessão. E isso causou estragos para os trabalhadores de serviços com salários mais baixos na outra ponta de muitas de suas transações, dizem os pesquisadores.

    "Uma das coisas que essa crise evidenciou é a interdependência da nossa saúde. E estamos vendo o espelhamento disso no lado econômico", observou Michael Stepner, economista da Universidade de Toronto.

    À medida que a desigualdade de renda cresceu nos EUA, a desigualdade no consumo também cresceu. Isso significa que, quando os ricos gastam, movimentam mais a economia do que há 50 anos. E mais trabalhadores dependem deles.

    Dito de outra forma, esse choque econômico em particular – que interrompeu muitos gastos presenciais, mesmo de pessoas ricas que nunca perderam o emprego – foi devastador para uma economia na qual muitos trabalhadores de baixa renda contam com os gastos de pessoas de alta renda.

    Stepner e os economistas Raj Chetty, Nathaniel Hendren e John Friedman coletaram dados de cartões de crédito, de firmas de folha de pagamento e de outras companhias privadas que monitoram como e onde as pessoas gastam seu dinheiro, e como as empresas e seus funcionários foram afetados como resultado. Ao relacionar gastos com cartão de débito e crédito ao CEP residencial de milhões de titulares de cartões, todos anônimos, eles estimam que as famílias nas áreas de renda mais baixa reduziram seus gastos em cerca de 30 por cento, dos níveis pré-coronavírus ao ponto mais baixo no fim de março. Agora, com a ajuda do estímulo do governo, os gastos da população de baixa renda caíram apenas cerca de cinco por cento.

    Para um quarto da população de maior renda, os gastos se recuperaram muito mais lentamente, depois de cair 36 por cento no ponto mais baixo. "Não é apenas o fato de ser um pouco maior em matéria de percentual. Em dólares absolutos, isso é como metade do jogo", disse Chetty sobre a mudança dos ricos.

    Os pesquisadores apontam para vários padrões curiosos ligados a esse fato: o desemprego foi elevado em condados ricos, que haviam passado basicamente incólumes pela última recessão. E os americanos de baixa renda que vivem nesses condados mais ricos foram particularmente atingidos. Seus gastos caíram mais do que os gastos dos trabalhadores de baixa renda nos condados mais pobres.

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    Em relação ao CEP de pequenas empresas, as quedas mais acentuadas nas receitas e nas horas trabalhadas ocorreram nos bairros de maior renda. Esse é um padrão que não pode ser totalmente explicado por diferenças nos casos de coronavírus.

    Na região onde Craig trabalhava, perto do Lincoln Center, a receita das pequenas empresas caiu 72 por cento no ponto mais baixo e ainda está abaixo da metade.

    Em recessões passadas, o setor de serviços costumava ser uma das partes mais resistentes da economia. Em tempos de baixa, os consumidores normalmente reduzem os gastos com grandes bens duráveis, como uma nova máquina de lavar ou um carro. Mas, mesmo que você possa ficar com seu carro um pouco mais, não consegue adiar por mais dois anos a lavagem de roupa a seco.

    Os restaurantes sempre foram o setor em que os trabalhadores demitidos em outras partes da economia encontravam trabalho no passado.

    Portanto, nunca vimos nada parecido com essa recessão do setor de serviços – em que os garçons perderam o emprego antes dos trabalhadores da construção civil, e em que restaurantes e salões de beleza, anteriormente prósperos, sofreram as perdas mais acentuadas.

    O setor de serviços também foi se expandindo ao longo do tempo, substituindo empregos em fábricas, que eram mais estáveis e pagavam melhor. Especialmente em cidades grandes e caras, o vasto setor de serviços é agora o lugar em que os ricos e os pobres se encontram.

    "O que temos visto com o aumento da desigualdade nas últimas décadas é que indivíduos com renda cada vez mais modesta sobrevivem porque trabalham onde há consumo", comentou Lawrence Katz, economista de Harvard, que analisou as descobertas de seus colegas. E esse consumo, acrescentou, está há tempos nas mãos das famílias mais ricas.

    Segundo Katz, se tivéssemos tido esse mesmo tipo de choque econômico há 50 anos, a magnitude do efeito da atitude dos ricos atingiria os pobres de modo mais leve. Simplesmente não havia tantas ligações entre eles. (Há 50 anos, não havia home office para os ricos, algo que mantém seu rendimento intacto.)

    Agora, cidades como Washington, que passaram relativamente ilesas pela Grande Recessão – graças à sua alta renda mediana e sua força no setor de serviços –, estão sendo muito mais prejudicadas na recessão do coronavírus. Os dados iniciais de desemprego confirmam isso.

    Até abril, Washington perdeu dez por cento de seus empregos. Durante a Grande Recessão, esse índice chegou a aumentar três por cento.

    Os condados de San Francisco e San Mateo perderam 16 por cento de seus empregos durante a pandemia, aproximadamente a mesma taxa do resto do país. Na recessão anterior, esses condados ganharam empregos, enquanto o emprego no resto do país caiu três por cento no geral e quase cinco por cento nos condados mais pobres. O desemprego foi ainda mais desigual nas recessões de 2001 e 1991, com a perda de emprego sendo mais acentuada nos condados mais pobres.

    Em outras palavras, em tempos de bonança – ou mesmo em crises mais típicas – a proximidade com os ricos proporciona aos trabalhadores com salário mais baixo um maior grau de segurança no trabalho. Neste momento peculiar do coronavírus, esse arranjo parece extremamente precário, particularmente para mulheres e trabalhadores negros e hispânicos, desproporcionalmente empregados no setor de serviços.

    Nas últimas semanas, os gastos dos pobres quase se recuperaram para níveis pré-crise, graças aos cheques de estímulo federal – o consumo de baixa renda aumentou após 15 de abril, após o recebimento dos depósitos – e à ampliação do seguro-desemprego. Mas a taxa de desemprego permanece no nível mais alto desde a Grande Depressão. A retomada dos gastos da classe mais alta está sendo mais lenta. Houve também o crescimento do consumo on-line, o que não ajuda as empresas locais.

    Patricia Namyalo, garçonete de um restaurante de hotel em Capitol Hill, Washington, não tem bons pressentimentos do que está por vir. Ela se lembra de quando o movimento começou a diminuir no início de março, antes que a quarentena na cidade entrasse em vigor, e bem antes que membros do Congresso, que às vezes jantam no hotel, entrassem em recesso por causa da crise.

    "Houve dias em que fomos trabalhar e havia um total de oito mesas para o brunch. E esse movimento deveria ser compartilhado entre quatro funcionários", contou Namyalo, imigrante de 38 anos de Uganda.

    Ninguém queria ir para casa por causa dos US$ 11 por hora garantidos no hotel sindicalizado, e era preciso manter essas horas em um restaurante vazio para compensar as gorjetas perdidas. Em retrospectiva, Namyalo acredita que seus clientes sabiam o que estava por vir. "A classe alta já sabia que os EUA seguiriam o exemplo. E pessoas como eu – não entendi bem na época", afirmou ela.

    Ela suspeita que o mesmo seja verdade agora. Os consumidores mais ricos sabem que não voltarão aos seus antigos hábitos de jantar fora ou gastar tão cedo, mesmo com a reabertura das cidades. Enquanto isso, trabalhadores com salários mais baixos esperam, torcendo para ser chamados de volta ao trabalho.

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