A experiência de degustar um prato de frutos do mar à beira da Lagoa da Conceição em uma comunidade isolada que só se chega por barco ou trilha é uma daquelas vivências que ainda não “viralizaram”, mas que mostram um lado tradicional de Florianópolis. A Costa da Lagoa atrai moradores da Capital e turistas de diversos destinos que buscam os restaurantes da sua “rota gastronômica” própria como opção de passeio fora do óbvio.

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São mais de 15 restaurantes que vão do ponto 13 ao 21 com os peixes e frutos do mar como principal pedido. A carapeva, peixe pescado ali mesmo na Lagoa, é a estrela.

Para chegar até esses lugares “escondidos” da Ilha da Magia, boa parte dos restaurantes oferece translado de barco gratuito, saindo do Canto dos Araçás, próximo ao início da trilha da Costa, sendo necessária a reserva em alguns casos. Também é possível utilizar o transporte público pela Coopercosta ou Cooperbarco, saindo da Lagoa da Conceição ou do Rio Vermelho, ou ainda fazer a trilha até a comunidade e aproveitar as delícias da região depois da caminhada.

Seja pela lagoa ou pela trilha, a experiência já começa no caminho, com uma imersão na natureza preservada da Costa da Lagoa e na vivência da comunidade que depende dos barcos para ir e vir. Ao chegar no local, poder admirar a imensidão das águas enquanto desfruta de um peixe ou camarão torna tudo ainda mais especial.

Um dos restaurantes mais tradicionais dessa rota, em operação há 40 anos, é o Paraíso da Néia. Localizado no ponto 18, Dulcineia Gonçalves de Andrade, a “Néia”, foi quem fundou o espaço, que hoje é administrado pela filha e pelo genro. A dona Néia relata que os filhos já deram a ela o título de “beijoqueira”, por ficar na parte das mesas fazendo a “social” com os clientes.

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— De vez em quando eu faço algumas coisinhas, mas não quero mais compromisso com a cozinha. Mas eu tô sempre aqui, tô sempre conversando — conta.

Veja fotos do restaurante Paraíso da Néia

A ideia de abrir um restaurante no local que leva o nome de “paraíso” pela vista que parece sair de dentro de um sonho surgiu a partir da casa de madeira da família, que foi desmanchada, em um terreno a poucos metros dali. Com as madeiras da residência, Néia e o marido começaram a construir a primeira estrutura do restaurante, que funciona no mesmo local até hoje. As mesas, por exemplo, eram todas azuis, da mesma cor que a antiga casa.

Na época, Néia trabalhava como rendeira e o marido em uma vendinha com a tia. O peixe frito e o camarão, junto com acompanhamentos como arroz, batata e pirão, foram os primeiros pratos servidos no negócio que até hoje se destaca pelos frutos do mar frescos e de qualidade.

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— Na verdade o meu marido já tinha uma vendinha com a tia dele, vendia farinha, às vezes uma bebidinha, umas coisinhas. Aí, no fim, nessa coisa da madeira da casa, a gente inventou: “ah, vamos fazer, né? Se der, deu. Se não der também”. E daí tá aí, ó, há 40 anos — relembra.

O início foi difícil, com pouco movimento e uma clientela pequena. Pouco a pouco, o Paraíso da Néia foi conquistando espaço entre os turistas que vinham até a Costa da Lagoa. Por ser um dos mais tradicionais da região, o restaurante viu a gastronomia se desenvolver e atrair cada vez mais os olhares de quem vem de fora. Há cerca de 30 anos, o fluxo aumentou e demandou que a estrutura fosse ampliada.

— A gente teve que arrumar a cozinha, a gente aumentou tudo assim, porque já faz uns 30 anos que melhorou bastante. Muito movimento — conta.

O local conta com cerca de 40 mesas, que ficam cheias durante a temporada de verão, conta Néia. A carapeva, peixe da região, é um dos pratos que mais sai, assim como o camarão à milanesa, anchova grelhada e o prato do Mané, que combina camarão, anchova e acompanhamentos como pirão, arroz e batata frita.

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Conquista de selo trouxe maior qualidade aos produtos

Alessandro Milton Ramos, genro de dona Néia, é quem administra o restaurante atualmente, e conta orgulhoso do feito inédito obtido pela empresa: o selo de inspeção da Vigilância Sanitária para manipulação do pescado. Uma área própria para que o produto comprado dos produtores seja higienizado e manipulado foi construída no restaurante, seguindo os parâmetros requeridos pela Vigilância, garantindo a procedência do produto servido e elevando também a qualidade do serviço.

— A gente queria conquistar esse selo para a gente manipular o nosso peixe. Tem todo o processo, porque, se não for assim, o restaurante tem que comprar de alguém que tenha [o selo] — detalha.

A partir do desejo de obter o selo de inspeção, o restaurante iniciou o processo diretamente com a Vigilância Sanitária, que indicou quais seriam os passos e acompanhou as etapas da obra. Cada item colocado no espaço passou pela aprovação do órgão para garantir que tudo estaria de acordo com os padrões, que atualmente é referência na região e na própria cidade.

— Aí vai indo e pensa, botamos na parede lá um azulejo. “Ah não, a fuga ficou muito grande”. Arranquei tudo. Tu não tem noção. Era tipo assim: “tá perfeito, Alessandro, mas olha só isso aqui”. Quando a gente conquistou, a gente foi o primeiro aqui na Costa a conseguir esse selo, o primeiro a conquistar o selo de inspeção municipal de Floripa — relembra.

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São diversos fornecedores que abastecem o restaurante, da própria Costa e de outras cidades, como Itajaí, Laguna e até do Rio Grande do Sul. Ao chegar no espaço, que conta com um “lava bota” na entrada, o primeiro tanque é para separação de produtos, depois para limpeza e pesagem, aí para a sala de manipulação e diretamente para a câmara fria, que fica dentro dessa mesma área da peixaria.

Com o funcionamento da estrutura própria, o restaurante garante procedência no peixe e nos frutos do mar servidos no local. Outros restaurantes da Costa têm tentado conquistar o mesmo selo, ainda sem sucesso, em uma busca por oferecer cada vez mais qualidade aos consumidores.

Fotos revelam cotidiano da Costa da Lagoa, em Florianópolis

Costa da Lagoa: uma joia escondida na Ilha da Magia

O especial “Costa da Lagoa: uma joia escondida na Ilha da Magia” retrata como é viver na comunidade de Florianópolis onde só é possível acessá-la por meio de trilha ou barco. Em uma série com seis reportagens, o leitor poderá conhecer histórias, as curiosidades, a biodiversidade e a rotina de quem vive no canto mais isolado da capital catarinense.