Saiba como gerenciar expectativas e diminuir frustrações

Compreender que as expectativas movimentam e impulsionam a vida ajuda a cultivar sentimentos positivos

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Homem sentado olhando o por do sol

(Imagem: Shutterstock)

Na última semana de outubro, uma de minhas melhores amigas foi demitida. Ela tinha um bom cargo, mais de 18 meses de empresa, planos para o futuro e, ainda que viessem também algumas insatisfações comuns, era feliz fazendo o que fazia. Ela não percebeu nenhum indício sobre a demissão nos dias anteriores. Então, não houve tempo para sofrer ou sentir qualquer angústia por antecedência. No entanto, já diante das incertezas e da surpresa, veio também um universo novo, cheio de ideias, possibilidades e expectativas para o amanhã.

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Expectativas motivam a busca por realizações

Não há como evitá-las: as expectativas nos acompanham em quase todos os momentos de nossa vida e de nossas relações. Agora mesmo, enquanto escrevo, guardo em mim uma esperança, uma ânsia de que você, ao ler, goste e se encontre em ao menos uma linha deste texto. E isso acaba me motivando ainda mais. É normal se sentir assim. E tudo bem. Inclusive, minha terapeuta sempre me diz que as expectativas são importantes e necessárias, pois nos colocam em movimento, nos impulsionam e, sem elas, nossa vida seria bem monótona.

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“A expectativa não diz somente da espera por algo improvável, mas da esperança de que algo desejado possa acontecer. Ou seja: ela também pode estar relacionada à fé”, ponta a psicóloga Naara Amim. Essa esperança nos move de uma forma equilibrada em direção à realização de nossos desejos e age como uma força, nos encorajando a perseguir aquilo com que nosso coração sonha. “A expectativa deve estar associada à esperança com protagonismo, quando a pessoa acredita que aquele desejo é possível de se realizar e, então, trabalha seriamente para fazer acontecer”, completa Naara.

Importância de gerenciar as expectativas

O problema, mesmo, é quando esse sentimento começa a nos consumir a ponto de paralisar as nossas ações, tomando conta de todos os nossos pensamentos, trazendo aquela angústia constante e um aperto incômodo no peito, sabe? Tomados por essas sensações, tendemos a antecipar o que ainda nem aconteceu e, como consequência, sofremos e nos punimos diante das incertezas. Mas dá para experienciar tudo isso de um jeito harmonioso e conviver com as expectativas de uma forma saudável?

Dá, sim. E um ponto importante é tomar consciência dos nossos limites e aprender a diferenciar o real da ilusão para não nos deixar levar pela ansiedade e pela frustração. O que é possível realizar agora? Eu realmente desejo isso? O que está dentro da minha realidade e o que é utópico demais? Ou: o que posso fazer hoje para alimentar meus sonhos no longo prazo?

Responder a essas perguntas pode ser um caminho para entendermos melhor onde estamos depositando nossas energias e quais das nossas vontades são realmente nossas ou só uma projeção criada pelo nosso ego. Até porque o “lá na frente” pode nem acontecer. Logo, não justifica sofrer e nos desgastar tanto por ele. “O maior desafio em torno da expectativa é essa dosagem saudável, equilibrando anseios e desejos reais, para não desenvolver uma frustração ou trauma por desprender energia demais esperando algo muito distante das suas possibilidades do momento”, pondera Naara.

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Ponderar as expectativas não significa desistir dos sonhos

Não quer dizer que vamos desistir dos nossos sonhos mais desafiadores. Pelo contrário: alimentá-los nos prepara e impulsiona a dar pequenos passos diários na direção dos nossos. Mas focar toda nossa energia e nossas expectativas somente em um porvir distante pode nos impedir de viver coisas ainda mais bonitas no agora. É aqui, inclusive, que plantamos as sementes das nossas colheitas futuras. E toda plantinha precisa de tempo, paciência e cuidado para, enfim, florescer.

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“O equilíbrio está em não deixar de sonhar, não perder a fé em nossos desejos. A expectativa não deve estar ligada a esperar que nossos desejos aconteçam de forma mágica, de braços cruzados”, explica Naara. Assim, podemos considerar como saudável aquela expectativa que nos leva à ação. E, no lugar de nos gerar ansiedade e sofrimento, nos mostra as inúmeras possibilidades de seguir existindo e tendo esperança no nosso caminho.

“A ansiedade está altamente ligada à dificuldade de lidar com o que está acontecendo no momento presente e de projetar suas consequências ou resultados no futuro, despertando o medo. É nesse ponto que precisamos cuidar das expectativas”, completa Naara.

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Prática diária de autoconhecimento evita frustrações

Esse cuidado com as expectativas passa também por vários pontos de atenção à nossa mente. Aquele trabalho de formiguinha, de nos voltar para dentro toda vez em que uma angústia diante do amanhã ameaça nos dominar. Por aqui, quando os pensamentos começam a voar demais, gerando um certo desconforto, tenho feito o exercício de parar, respirar e puxá-los de volta para os seus lugares.

Não funciona sempre e é mais difícil do que parece. Mas tenho percebido uma mudança grande em minha forma de vivenciar minhas relações a partir do momento em que volto para mim e deixo de responsabilizar ou esperar demais do outro. Isso me ajuda a compreender que algumas projeções são só minhas e sem fundamento algum.

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Os perigos de criar expectativas em terceiros

Essas expectativas que buscam morada no outro também são bastante perigosas, porque nos levam a esperar que as pessoas ajam de uma determinada maneira, sempre relacionada às nossas convicções. É aí que nos chateamos quando alguém não corresponde à nossa idealização simplesmente por ter os seus próprios ideais e suas vontades.

A Naara me disse que, muitas vezes, isso acontece porque o desejo de se relacionar com determinada pessoa é tão grande a ponto de anularmos alguns sinais sobre a não reciprocidade. Aí depois vem a frustração, quando nos concentramos na realidade e vemos o outro como ele é, longe das nossas expectativas.

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Confiar nas surpresas da vida muda o olhar sobre o mundo

“Nos últimos anos, tenho confiado mais na vida, nas surpresas, naquilo que não tenho controle. Tenho tentado me manter com a mente aberta para o não saber e feito o exercício de nutrir as minhas aspirações: o que eu oferecer em vez do que eu espero”, sugere a Priscilla Almeida. Ela é especialista em Saúde Mental na Atenção Primária em Saúde e facilitadora de rodas de conversas.

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Me contou que esse exercício de confiança ajuda a enxergar o mundo por tudo o que ele já proporciona, sem esperar demais ou criar grandes idealizações. “Desapegar das expectativas em relação aos resultados me apoia a vivenciar o caminho e aceitar as experiências que surgem”, exemplifica.

Compartilhar expectativas possibilita novos caminhos

Outro exercício sugerido pela Priscilla é compartilhar as expectativas. Ela disse que incentiva os filhos Miguel, de 9 anos, e Bia, de 6, a dividirem seus anseios, pois, muitas vezes, temos dificuldade em ver, sozinhos, alternativas ou situações que possam impactar as nossas expectativas.

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Segundo ela, dividir ajuda a ampliar nossa visão e nossa compreensão. “Sempre que eles falam sobre alguma expectativa, eu pergunto: para além dessa possibilidade, quais outras podem acontecer? Vamos ver quantas novidades a gente consegue imaginar juntos? Isso ajuda a enxergar um universo de caminhos”.

Experiências ajudam a compreender a inconstância da vida

Revisitar experiências também tem o papel de ajudar a perceber e acolher a impermanência. Olhar para o que já passou, ponderar o que se realizou como o esperado e o que surpreendeu além são ações as quais ajudam a compreender que nada em nossa vida é permanente e facilitam o desapego em relação aos resultados.

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“Dedicar um tempo para fazer aspirações que contemplam a mim e a outras pessoas me apoia a vivenciar o caminho e aceitar as experiências que surgem. Me tira de um esperar por recompensas externas e internas pelo que eu fiz”, observa Priscilla.

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Diversidade e vulnerabilidade estão conectadas às expectativas

A fim de que todo esse autoconhecimento faça parte do nosso dia a dia, nos aproximando desse campo das expectativas saudáveis, a psicóloga Naara Amim diz que também é fundamental aceitar a diversidade, assim como as nossas vulnerabilidades. Dessa forma, conseguimos nos distanciar da ideia de perfeição, seja ela relacionada aos outros ou a nós mesmos, e seguimos com mais pé no chão e leveza.

“Isso nos ajuda a concentrar no momento presente, começando pela aceitação de que o real pode não ser sempre o desejado, mas também não significa que nele não há potencialidade de beleza, aprendizado e felicidade”, finaliza.

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Nos colocar abertos diante do novo e das aventuras da vida não diminuirá nossas expectativas. E nem é esse o nosso objetivo. Mas, a partir do momento que damos a elas um lugar, encontramos também o equilíbrio entre nossos desejos e nossas ações, ficando mais leve e prazeroso seguir. Uma expectativa de cada vez.

Publicado pela revista Vida Simples.

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*Por Débora Gomes

É jornalista e entendeu que, para entrar em harmonia com as expectativas, é preciso também acolher os medos e a ansiedade.

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