Santa Catarina registrou aumento de 255,6% na taxa de internações por lesão autoprovocada entre jovens de 10 a 19 anos entre 2014 e 2024, segundo dados do Atlas da Violência 2026, divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) na última terça-feira (26). A taxa catarinense passou de 2,7 para 9,6 internações por 100 mil jovens no período.

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O maior patamar da série histórica em Santa Catarina foi registrado em 2022, quando a taxa chegou a 14,2 internações por 100 mil jovens. Em 2023, o índice ficou em 13,2 e, em 2024, caiu para 9,6 — redução de 27,3% em um ano.

Índice entre os maiores do Brasil

Em 2024, o índice de Santa Catarina ficou acima da média nacional, de 6,4 por 100 mil. O Estado teve a segunda maior taxa da região Sul em 2024, atrás do Paraná, que registrou 10,6 casos por 100 mil jovens. O índice catarinense também ficou acima do Rio Grande do Sul, que teve taxa de 2,4.

Apesar da queda recente, a taxa catarinense segue acima da média nacional. Em comparação com os demais estados, o índice de 9,6 registrado em 2024 fica atrás de São Paulo (12,2), Distrito Federal (11,9) e Paraná (10,6), empatando com o Espírito Santo.

Taxas de internações por lesão autoprovocada a cada 100 mil jovens de 10 a 19 anos em SC

  • 2014: 2,7
  • 2015: 4,6
  • 2016: 4,1
  • 2017: 5,1
  • 2018: 6,7
  • 2019: 10,8
  • 2020: 6,5
  • 2021: 9,9
  • 2022: 14,2 (maior índice da série)
  • 2023: 13,2
  • 2024: 9,6
  • 2014 → 2024: +255,6%
  • 2023 → 2024: -27,3%
  • 2019 → 2024: -11,1%
  • Média do Brasil em 2024: 6,4

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O que explica o aumento em SC?

A psicóloga Laís Arend Nunes, especialista em análise do comportamento aplicada à infância, adolescência e parentalidade, afirma que o aumento dos casos acompanha uma tendência observada no Brasil e em outros países e está relacionado a múltiplos fatores.

— Como psicóloga clínica, observo dentro do consultório, principalmente com o público adolescente, um aumento significativo na dificuldade de estabelecer relações interpessoais e um intenso sofrimento psíquico — afirmou.

Segundo ela, o ambiente digital aparece entre os principais fatores associados ao crescimento dos casos.

— A exposição constante à comparação social, cyberbullying, validação externa e conteúdos potencialmente gatilho pode intensificar sentimentos de inadequação e sofrimento. Esse tipo de conteúdo já era acessado fora das mídias, porém, dentro delas, ele é acessado com muito mais frequência — disse.

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A psicóloga da infância, adolescência e orientação parental Gisele Palmas afirma que a autolesão costuma surgir como uma forma desorganizada de lidar com emoções intensas.

— Na maioria dos casos, a autolesão é uma tentativa desorganizada de regular o sofrimento que os adolescentes não conseguem nomear e comunicar — explicou.

Segundo Gisele, fatores como ansiedade, depressão, solidão, bullying, pressão acadêmica, isolamento social e hiperexposição digital ajudam a explicar o crescimento dos casos.

— O problema não é apenas o tempo de tela, mas o tipo de conteúdo, a vulnerabilidade dos adolescentes, a privação de sono e a vida real sendo substituída pela vida online — afirmou.

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A profissional também destacou os impactos da pandemia de Covid-19.

— Isolamento social, perda de rotina, interrupção da frequência escolar e dificuldade de acesso a cuidado em saúde mental contribuíram para a piora da autolesão e da suicidabilidade, especialmente em meninas — disse.

Quais os sinais de que o jovem está em sofrimento?

Segundo as especialistas, alguns sinais podem indicar sofrimento emocional antes que a situação evolua para um quadro mais grave, como mudanças emocionais e de comportamento, alterações no sono e no apetite, isolamento e queda no rendimento escolar.

— Há sinais mais específicos, como uso de roupas para esconder o corpo mesmo em calor, presença de cortes, arranhões ou queimaduras frequentes, falas de desesperança, culpa excessiva ou sensação de vazio — explicou Laís.

Gisele também chama atenção para sinais no ambiente digital.

— Seguir conteúdos de autolesão, salvar imagens tristes ou violentas, participar de grupos sobre sofrimento psicológico e mudar drasticamente o tom das publicações são sinais importantes — afirmou.

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As psicólogas orientam que famílias mantenham diálogo aberto e acolhedor com crianças e adolescentes, sem julgamentos.

— A primeira resposta dos pais não deve ser bronca, ameaça ou interrogatório. Os adolescentes precisam sentir que há espaço para diálogo. Perguntar sobre vontade de se machucar ou suicídio pode abrir uma porta de segurança e confiança — disse Gisele.

Laís também destacou a importância da educação digital.

— É necessário fornecer uma educação tecnológica, explicando como a internet funciona e quais são os seus riscos. Precisamos conscientizá-los e ampará-los nesse sentido — afirmou.

Segundo Gisele, famílias podem procurar psicólogos, psiquiatras, CAPS e serviços de saúde mental. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188.

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O que diz a SES?

Segundo a Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina (SES), o atendimento em saúde mental começa pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS), que podem identificar precocemente sinais de sofrimento emocional e encaminhar os casos para atendimento especializado, quando necessário.

Segundo a secretaria, Santa Catarina possui atualmente 115 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) em funcionamento e outros nove serviços em processo de habilitação pelo Ministério da Saúde. O Estado também informou que tem ampliado o cofinanciamento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), fortalecido o atendimento nas UBS e investido na capacitação de profissionais para acolhimento de pacientes em crise.

A pasta afirmou ainda que desenvolve ações de prevenção ao suicídio, qualificação de profissionais e fortalecimento da vigilância de casos, além de estratégias voltadas ao uso problemático de tecnologias e à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.

Veja a nota completa da Secretaria da Saúde

“A saúde mental se produz também nas condições concretas de vida das pessoas, como acesso à educação, renda, vínculos familiares, qualidade das relações, características do território onde vivem, oportunidades de lazer, cultura e proteção social. Esses fatores são decisivos para a produção de saúde e, quando ausentes ou insuficientes, podem contribuir para diferentes formas de sofrimento psíquico.

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Quando a escassez desses fatores se sobrepõe, encontram-se situações de maior vulnerabilidade social, diante das quais nenhuma política pública isolada é suficiente. O cuidado em saúde mental precisa acontecer em rede, envolvendo, além da saúde, áreas como educação, assistência social, cultura, esporte, lazer, trabalho e geração de renda. É a articulação entre essas políticas que permite enfrentar vulnerabilidades e garantir direitos.

A organização da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), no Estado segue as diretrizes da Portaria nº 3.088/2011, estruturando o cuidado às pessoas em sofrimento psíquico e às que apresentam necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas, por meio de uma rede composta por diferentes pontos de atenção, com destaque para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Atenção Primária à Saúde (APS) com apoio matricial, serviços residenciais terapêuticos, unidades de acolhimento, leitos em hospital geral e serviços de urgência e emergência. Trata-se de uma rede consolidada em diversas regiões, mas com heterogeneidade de cobertura.

No caso das crianças e adolescentes, a inserção da saúde mental dessa população na agenda das políticas públicas brasileiras ocorreu de forma tardia. Embora a Reforma Psiquiátrica já estivesse em curso, foi somente a partir dos anos 2000 que o tema passou a ganhar maior relevância institucional. Antes disso, havia uma invisibilidade histórica da criança como sujeito de direitos, especialmente antes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), além do não reconhecimento do sofrimento psíquico infantil como demanda de saúde pública e da fragmentação entre os setores de saúde, assistência social, educação e justiça.

A consolidação dessa agenda ocorreu com a criação dos CAPS Infantojuvenis (CAPSij) como estratégia específica no SUS, o fortalecimento da intersetorialidade, o reconhecimento de crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e a construção de uma rede territorial de cuidado alinhada à RAPS.

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São realizadas ações de reorganização da rede, com ênfase na qualificação dos fluxos assistenciais, no monitoramento de indicadores e na ampliação da articulação entre os pontos de atenção. Entre as medidas adotadas, destaca-se o fortalecimento do Grupo Condutor Estadual da RAPS, que passou a exercer papel mais estruturado na governança da rede, além da intensificação do planejamento regional integrado, com foco na identificação de vazios assistenciais e na reorganização da oferta de serviços conforme as necessidades territoriais.

O atendimento tem início nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), que integram a Atenção Primária à Saúde (APS). A APS possui papel central no cuidado em saúde mental por estar mais próxima das famílias e dos territórios, possibilitando ações de promoção da saúde mental, identificação precoce de fatores de risco (como mudanças de comportamento, sofrimento emocional e uso problemático de tecnologias), realização de intervenções iniciais e encaminhamento adequado para outros pontos da rede quando necessário.

A organização do SUS é uma responsabilidade compartilhada entre União, estados e municípios. A execução direta das ações, a organização da rede no território e o cuidado cotidiano da população cabem aos municípios. Ao Estado, compete apoiar tecnicamente, coordenar regionalmente, cofinanciar e garantir o funcionamento integrado e equânime da rede.

Sobre a expansão da rede, o Estado conta com 115 CAPS, além de 9 serviços em processo de habilitação pelo Ministério da Saúde. Observa-se a ampliação gradual de dispositivos substitutivos ao modelo hospitalar, incluindo serviços residenciais terapêuticos (SRT), unidades de acolhimento (UA) e leitos de saúde mental em hospital geral, com apoio técnico para qualificação e habilitação de novos serviços.

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Em 2026, o Estado promoveu importantes avanços no cofinanciamento da Rede de Atenção Psicossocial, com destaque para o aumento dos valores de custeio mensal destinados aos CAPS microrregionais, visando qualificar os serviços. Também houve ampliação do valor de cofinanciamento dos SRT, fortalecendo a sustentabilidade e a qualificação da assistência em saúde mental no âmbito estadual.

Na APS, vêm sendo implementadas estratégias de fortalecimento do matriciamento em saúde mental, com ampliação do apoio às equipes de Saúde da Família e eMulti, visando qualificar o cuidado no território e reduzir encaminhamentos desnecessários para níveis mais complexos de atenção. Essas ações integram o Proadi PlanificaSUS Saúde Mental, que busca qualificar processos de trabalho, melhorar o acesso e ampliar a capacidade resolutiva em saúde mental na APS.

Em relação à demanda por atendimento em saúde mental, têm sido desenvolvidas estratégias de reorganização do acesso, como o fortalecimento da regulação, a ampliação do apoio técnico às equipes municipais e o incentivo à utilização de dispositivos de teleconsultoria em saúde mental, atualmente em estruturação.

Também está em andamento a produção de uma capacitação de 60 horas voltada aos profissionais de saúde para acolhimento do usuário em crise. Essas ações, associadas à proposta de teleconsultoria de urgência em saúde mental, visam qualificar a indicação de internação e garantir maior segurança clínica aos profissionais que lidam com situações de crise.

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Sobre prevenção do suicídio, a SES tem intensificado ações de apoio aos municípios, com qualificação de profissionais da rede de atenção, fortalecimento da notificação e vigilância de casos, além da articulação de fluxos de cuidado para situações de risco. Também é utilizada a plataforma Saúde Digital UFSC para atividades formativas e de qualificação profissional, com programação mensal de temas em saúde mental. Essas ações são complementadas por iniciativas formativas e pela integração com a Atenção Primária e serviços especializados, visando garantir resposta oportuna e continuidade do cuidado às pessoas em situação de vulnerabilidade.

Além disso, o ambiente digital passou a integrar de forma mais evidente os debates sobre proteção e saúde mental de crianças e adolescentes. O ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), em vigor desde março de 2026, representa uma atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente voltada à proteção de crianças e jovens no ambiente online, estabelecendo diretrizes e responsabilidades para plataformas digitais, jogos e redes sociais no enfrentamento à exploração, violência e abusos na internet.

A avaliação atual da RAPS em Santa Catarina indica uma rede em processo de consolidação, com avanços importantes na cobertura de serviços comunitários e na estruturação de dispositivos substitutivos, porém ainda com desafios relacionados à desigualdade regional na oferta de serviços. Também se observa a necessidade de qualificação contínua dos processos de trabalho e fortalecimento da articulação intersetorial, especialmente com a assistência social, educação e sistema de justiça.

Para os próximos anos, a SES segue trabalhando na ampliação e qualificação dos CAPS de funcionamento 24 horas, na ampliação das UA, na expansão dos SRT como estratégia de desinstitucionalização, na redução dos vazios assistenciais regionais, no fortalecimento da Atenção Primária como ordenadora do cuidado em saúde mental, na ampliação de estratégias de desinstitucionalização com suporte comunitário e na qualificação da resposta às urgências em saúde mental. Soma-se a isso o aprimoramento dos sistemas de informação e monitoramento, de modo a subsidiar o planejamento e a tomada de decisão baseada em evidências.

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Cuidar da saúde mental de crianças, adolescentes e jovens é, portanto, cuidar também das condições de vida, fortalecer vínculos, garantir proteção social e assegurar direitos dentro e fora das telas.

A Secretaria de Estado da Saúde (SES) reafirma seu compromisso em apoiar as gestões municipais na qualificação e ampliação do acesso aos serviços de saúde mental. O Estado segue empenhado no fortalecimento da política de saúde mental, garantindo um cuidado integral, equitativo e humanizado para toda a população catarinense.