Santa Catarina registrou 392 denúncias de trabalho infantil em 2025, de acordo com dados do Ministério Público do Trabalho (MPT). O número é o quinto maior do país e mostra um crescimento em comparação com 2021, quando foram registradas 138 denúncias no Estado.
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Mais de 1,6 milhão de crianças e adolescentes, com idades entre 5 e 17 anos, estavam em situação de trabalho infantil no Brasil em 2024, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Menos de 1% desse total foi alcançado pela fiscalização do Ministério do Trabalho.
Durante o ano de 2024, somente 2.745 crianças e adolescentes foram afastados dessa condição em ações da auditoria fiscal, indica o Painel de Informações e Estatísticas da Inspeção do Trabalho no Brasil (Radar SIT), do MTE.
O Disque 100, serviço anônimo e gratuito disponibilizado 24 horas por dia para denunciar violações aos direitos humanos, recebeu cerca de 4,2 mil denúncias envolvendo trabalho infantil nesse mesmo período, de acordo com o Painel de Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). Já no ano passado foram 5,1 mil denúncias, um crescimento de 19,4%.
Uma alta também foi registrada nos dados do Ministério Público do Trabalho (MPT), que indicou 7,9 denúncias em 2025 contra 5,8 mil em 2024, aumento de 36,6%. São Paulo lidera, com 2.124 denúncias, e é seguido de Minas Gerais (918) e Paraná (529).
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Ranking de denúncias de trabalho infantil (2025)
- São Paulo: 2.124
- Minas Gerais: 918
- Paraná: 529
- Rio Grande do Sul: 426
- Santa Catarina: 392
- Pernambuco: 357
- Rio de Janeiro: 345
- Bahia: 305
- Amazonas: 282
- Goiás: 252
- Mato Grosso do Sul: 222
- Ceará: 192
- Pará: 182
- Alagoas: 170
- Espírito Santo: 150
- Distrito Federal: 134
- Rondônia: 138
- Tocantins: 129
- Paraíba: 127
- Mato Grosso: 112
- Piauí: 114
- Acre: 119
- Rio Grande do Norte: 99
- Roraima: 96
- Maranhão: 83
- Sergipe: 55
- Amapá: 8
Como denunciar casos de trabalho infantil
As denúncias podem ser feitas por diferentes canais, sendo que no Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina (MPT-SC) é possível denunciar pelo site ou com as equipes de plantão. Também é possível acessar a página nacional do Ministério Público do Trabalho, ouvidorias dos tribunais da Justiça do Trabalho, Conselho Tutelar de sua cidade, Delegacia Regional do Trabalho mais próxima e Secretarias de Assistência Social. Outra alternativa é denunciar pelo Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, que também funciona no WhatsApp e no Telegram.
Impactos no desenvolvimento da criança
A professora Chrissie Carvalho, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), doutora em Psicologia do Desenvolvimento, detalha que o trabalho infantil causa impactos em diversos pilares básicos do neurodesenvolvimento da criança.
— O fato de se envolver em práticas de trabalho pode estar impactando desde as rotinas básicas da criança, que é a necessidade de sono, de segurança, de alimentação, o tempo que ela tem para brincar, para ir para a escola — explica a professora.
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Dessa forma, o cérebro da criança que está em uma condição de trabalho infantil se desenvolve em um ambiente de estresse extremo, com fatores de risco como pressão, risco de abuso, maus-tratos e contexto de vulnerabilidade.
— Muitas vezes, a criança que precisa trabalhar está no contexto de vulnerabilidade. Às vezes ela até assume a carga financeira da família. Então isso tem uma repercussão em termos também de saúde mental, de ansiedade, de ter de trazer dinheiro para casa — detalha a especialista,
Outros aspectos afetados são o desenvolvimento da linguagem, até pelo afastamento do ambiente escolar, impacto no progresso acadêmico, menos oportunidades de interação e estimulação, impactos nas funções executivas e aspectos socioemocionais.
Durante o período da infância, os efeitos são sentidos de forma mais imediata na rotina escolar e em um menor tempo e disposição para outras atividades, como a brincadeira. Porém, essa situação é carregada ao longo da vida e pode se manifestar mais tarde através de outras questões.
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— Não vai se limitar à infância, também vai gerar adultos com dificuldades de relacionamento, dificuldades na saúde mental, com possíveis transtornos de ansiedade, problemas no sono, menor capacidade cognitiva — explica Chrissie.
A depender da intensidade e duração dessas experiências, as marcas podem ser mais ou menos profundas. Contudo, em todos os casos, a intervenção é possível e traz novas possibilidades, através do acesso a políticas públicas e à educação, para conseguir reverter essa janela de tempo de desenvolvimento.
— Realmente, a intervenção ou você tirar a criança dessas circunstâncias ainda é o melhor caminho. E sim, ele vai trazer possibilidades dessa criança se desenvolver e reparar algum desses danos — pontua.
O que diz o MPT-SC
Procurado, o Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina (MPT-SC) afirmou que esses números de trabalho infantil costumam aumentar no Carnaval, e por conta disso divulgou um material que destaca os perigos do trabalho infantil. Confira na íntegra:
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“O Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina (MPT-SC) alerta a população sobre o trabalho infantil nesta época de Carnaval, período em que crianças e adolescentes são frequentemente encontrados vendendo produtos, carregando mercadorias ou mesmo atuando na coleta de materiais recicláveis, em condições que podem comprometer seu desenvolvimento e violar seus direitos fundamentais.
O apelo é do Procurador do Trabalho Marcelo Goss Neves, Coordenador Regional da COORDINFÂNCIA (Coordenadoria Nacional de Combate à Exploração do Trabalho da Criança e do Adolescente do MPT), que pede um olhar atento de toda a sociedade, principalmente em cidades turísticas que realizam festas, desfiles e celebração nesta que é a maior manifestação popular e cultural do país.
De acordo com o Procurador Marcelo, o trabalho infantil expõe crianças e adolescentes a graves riscos à saúde física e mental. “A atuação em ambientes perigosos, com esforço excessivo e longas jornadas, pode causar acidentes, doenças, deformações corporais, exaustão e desnutrição. Além disso, essas crianças estão vulneráveis a diversas formas de abusos, tráfico de drogas e exploração sexual… violências e traumas com danos irreparáveis às vítimas e à sociedade”, lembra.
Alerta reforça campanhas veiculadas nas redes sociais
O alerta reforça as recomendações veiculadas em campanhas publicitárias lançadas em janeiro em parceria com várias instituições: a campanha “Férias Sem Trabalho Infantil”, do Ministério Público do Trabalho (MPT), Justiça do Trabalho e Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI); e, a campanha “Pule, brinque e Cuide – Unidos pela proteção de crianças e adolescentes”, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), com apoio do MPT, da Comissão Intersetorial de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes (CIEVSCA), do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), em articulação com outras organizações da sociedade civil e órgãos parceiros.”
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