O recente surto de hantavirose a bordo do navio MV Hondius, que realizava uma rota entre Ushuaia, na Argentina, e Cabo Verde, trouxe na bagagem a letalidade desta zoonose. Até o momento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e agências internacionais confirmam 3 óbitos pelo hantavírus. As vítimas são um casal de holandeses (69 e 70 anos) e um cidadão alemão.
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No total 8 casos foram identificados entre pessoas ligadas ao navio (5 já confirmados laboratorialmente e 3 suspeitos). Pelo menos 1 passageiro está em estado crítico em uma UTI na África do Sul (Johannesburgo). Outros pacientes foram evacuados para a Holanda e Suíça para tratamento e isolamento. O navio levava 149 pessoas (entre passageiros e tripulação) de 23 nacionalidades diferentes.
O sequenciamento genético confirmou a cepa Andes virus (ANDV). Diferente das cepas comuns no Brasil (como Castelo dos Sonhos ou Araraquara), a variante Andes, endêmica na patagônia argentina e chilena, é famosa na literatura médica pela transmissão de pessoa para pessoa, geralmente em contatos íntimos ou familiares.
O fato de o surto ocorrer em um cruzeiro (ambiente fechado com compartilhamento de ar e espaços comuns) levanta a hipótese de que a exposição inicial ocorreu em terra (possivelmente em Ushuaia, Argentina), mas a propagação subsequente pode ter ocorrido a bordo. O surto mobiliza autoridades de 5 países (África do Sul, Holanda, Suíça, Reino Unido e Espanha).
O navio está atualmente isolado na costa de Cabo Verde, aguardando autorização para seguir para Tenerife (Espanha), onde será feita a repatriação sob protocolos rígidos de biossegurança.
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No Brasil, o hantavírus é uma realidade endêmica, grave e com uma das maiores taxas de letalidade entre as doenças infecciosas. Diferente de outras doenças infecciosas, a hantavirose atua no silêncio das áreas rurais e periurbanas.
Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 1993 e o início de 2026, o Brasil registrou cerca de 2,4 mil casos, com uma taxa de letalidade média alarmante de 46,5%. Santa Catarina ocupa um lugar central e preocupante nessa estatística.
De acordo com boletins epidemiológicos recentes (2025), o estado lidera o ranking nacional de casos confirmados, ao lado do Paraná. Essa prevalência está diretamente ligada às nossas atividades agrícolas, ao desmatamento e à presença do roedor silvestre (Akodon spp. e Oligoryzomys spp.), cujas fezes, urina e saliva, uma vez ressecadas e transformadas em poeira, são a principal via de infecção por inalação.
Como infectologista, o ponto que mais me preocupa é a “máscara” que a doença veste em sua fase inicial (prodrômica). Os sintomas são inespecíficos: febre, mialgia e cefaleia. Em um cenário de circulação de Dengue, Gripe e Covid-19, o hantavírus frequentemente passa despercebido nas primeiras 48 a 72 horas.
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No entanto, a evolução para a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH) é abrupta. O paciente progride rapidamente para dispneia, infiltrado pulmonar bilateral e choque cardiogênico. O tempo entre os primeiros sintomas e a insuficiência respiratória grave é rápido, e é aqui que perdemos vidas. Não existe tratamento antiviral específico ou vacina. O sucesso terapêutico depende exclusivamente de duas estratégias: suspeição precoce e suporte intensivo de alta qualidade.
Para a população: A limpeza de galpões, paióis ou casas de campo fechadas deve ser feita com umidificação prévia (uso de solução de hipoclorito) e máscaras N95. Jamais varra poeira seca em locais com vestígios de roedores.
Para o sistema de saúde: Precisamos de um olhar clínico “afiado”. O histórico de exposição rural ou limpeza de ambientes fechados nos últimos 60 dias deve ser pergunta obrigatória em qualquer triagem de síndrome febril.
A transferência para uma UTI deve ser imediata ao menor sinal de queda de plaquetas ou alteração radiológica. Como médicos, nossa função é garantir que nenhum caso seja negligenciado até que seja tarde demais. A letalidade é de quase 50%.
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Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.

