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Pandemia

"Se fizermos relaxamento a meio boca, vamos arrastar a situação", diz pesquisador sobre Covid-19

Pesquisa nacional sobre coronavírus entra na terceira fase em sete cidades de SC

22/06/2020 - 09h20 - Atualizada em: 22/06/2020 - 11h02

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Por Ângela Bastos
"Se fizermos este relaxamento a meio boca, a gente vai arrastar esta situação”, disse Hallal
"Como pesquisador eu fico incomodado, pois vejo que o país está indo no caminho errado e os gestores errando"., disse Hallal
(Foto: )

A pesquisa EPICOVID19-BR, que estima a proporção de casos de infecção por coronavírus no Brasil, entrou na terceira etapa neste domingo (21). A meta é realizar, até terça-feira (23), 33.250 testes rápidos e entrevistas em 133 municípios de todos os estados do país. 

Coordenado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o Estudo de Prevalência da Infecção por Covid-19 no Brasil (EPICOVID19-BR) tem financiamento do Ministério da Saúde e é o maior levantamento populacional do mundo a estimar a prevalência de Covid-19. Até às 18h de domingo, 7 mil testes tinham sido realizados. 

Para o pesquisador, professor e reitor da UFPel, Pedro Hallal, ao final desta fase será possível estimar com mais precisão a realidade da pandemia no país.

— Se a gente trancar tudo por 15 dias, se vira do problema mais rápido. Se fizermos este relaxamento a meio boca, a gente vai arrastar esta situação. 

Os pesquisadores que realizam as visitas estão identificados por crachá do IBOPE Inteligência e utilizam os equipamentos de proteção individuais (EPIs): máscaras, toucas, aventais, sapatilhas (todos descartáveis), óculos de proteção e luvas. Para o exame, os pesquisadores coletam uma gota de sangue da ponta do dedo do participante, que será analisada pelo aparelho de teste em aproximadamente 15 minutos. 

Enquanto aguarda o resultado, o participante responde a perguntas sobre sintomas da Covid-19 nas últimas semanas, busca por assistência médica e rotina em relação às medidas de prevenção e isolamento social. Em caso de resultado positivo, os profissionais comunicam a Vigilância Epidemiológica local. 

Terceira etapa de pesquisa nacional sobre coronavírus começa em sete cidades de SC neste domingo

"Talvez aqui o coronavírus não pegue tão forte, mas ainda é preciso tomar cuidado", diz Hallal sobre região Sul

A pergunta que todo mundo se faz: estamos a caminho, chegamos ao pico ou estamos descendo a curva do coronavírus no Brasil?

Não temos como responder, pois temos curvas epidêmicas diferentes nas diversas regiões do país. O Norte está muito mais avançado. Já o Sudeste e o Nordeste um pouco mais, enquanto o Sul e o Centro-Oeste menos. Podemos dizer que em algumas regiões do país está crescendo, e em outras partes do Norte, como Manaus, diminuindo. Em todo o resto do país parece estar crescendo. Mas a gente não tem certeza se está perto do pico.

Em relação a experiência de outros países, o que se pode dizer do Brasil?

Pelo que a gente observou em outros países já era para estar diminuindo. Se isso não está acontecendo é porque não estamos conseguindo adotar uma política suficiente de distanciamento social.

O que se pode afirmar sobre a pandemia na região Sul do Brasil?

No Sul continuamos com um percentual de infetados muito baixo.  A dúvida que temos é: estamos atrasando ou significa que aqui não vai pegar tão forte, tal como aconteceu com a primeira onda na China ou no Sul da Itália? Eu penso que talvez seja isso: talvez aqui o coronavírus não pegue tão forte, mas ainda é preciso tomar cuidado.

Santa Catarina está com cerca de 18 mil infectados, 237 óbitos, 14 mil recuperados. Aqui a região de Chapecó, no Oeste, foi ultrapassada por Itajaí, no litoral, neste final de semana com milhares de pessoas nas praias, bares e restaurantes. Você acha que isso pode sinalizar algo ruim lá na frente?

Sim. A gente não tem nenhuma evidência que os números de Santa Catarina estejam caindo. Se estamos com a curva na ascendência e o pessoal está agindo assim, pode ser que estejamos promovendo o encontro indesejado entre pessoas suscetíveis (que não tiveram a doença) com pessoas infectadas e isso fará com que os números continuem crescendo. 

Estamos ansiosos para que tudo passe. Mas com o relaxamento das medidas isso não pode atrasar ainda mais ao retorno do chamado "novo normal"?

Esta é a chave. Se a gente trancar tudo por 15 dias, a gente se vira do problema mais rápido. Se a gente fizer este relaxamento meio boca, a gente vai arrastar esta situação.

Você é um pesquisador e sempre defensor de medidas como o isolamento social. Qual o sentimento diante dos números que mostram mais de um milhão de infectados e pelo menos 51 mil brasileiros mortos até este final de semana?

Como pesquisador eu fico incomodado, pois vejo que o país está indo no caminho errado e os gestores errando. Não tenho teoria da conspiração e acho que ninguém quer que as pessoas morram, mas eu vejo que algumas decisões tomadas são equivocadas e, infelizmente, me sinto um pouco impotente. Nós pesquisadores sugerimos algumas medidas, como um lockdown (bloqueio) mais rigoroso. Só que não temos poder para tomar as decisões, e isso cabe aos gestores que foram eleitos para tal. E dessa impotência que falo, quando sugerimos e por não concordar os gestores não optam em implantá-las.

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