Nas páginas de um livro guardado em Chapecó, constam os nomes de 1.137 mulheres. São pessoas que, em algum momento desde 2005, precisaram abandonar tudo com o único objetivo de escapar do destino de virar mais um número na estatística de mortes de mulheres em Santa Catarina.
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O volume pertence ao abrigo de acolhimento para mulheres vítimas de violência doméstica da cidade do Oeste catarinense e representa, na maioria dos casos, um recomeço.
As casas-abrigo funcionam sob rígido protocolo de segurança, com endereços sigilosos, conhecidos apenas pelas forças policiais. Quando uma agressão ocorre, especialmente nos finais de semana, a Polícia Militar faz o primeiro atendimento, registra o Boletim de Ocorrência e encaminha a vítima diretamente para o local. O suporte jurídico, como a solicitação de medidas protetivas de urgência, é providenciado logo na segunda-feira seguinte.
Daiane Nadelitti Nardon, psicóloga responsável pelo abrigo municipal de Chapecó, explica que a maioria das mulheres relata que não sabia que poderia contar com o acolhimento. Além da assistência jurídica, a casa de apoio oferece atendimento psicológico e abrigo aos filhos das vítimas, que podem ficar no local pelo tempo que quiserem.
— Elas, sabendo que existe [o abrigo], se sentem seguras e conseguem realmente promover mudanças na vida delas e sair desse ciclo de violência. Se elas precisam transferir as crianças para uma escola mais próxima da Casa Abrigo, nós realizamos a transferência e nós vamos reorganizando a vida delas. Quando elas se sentem fortalecidas, elas vão para a sua nova casa, para sua nova vida, para conseguir seguir em frente — diz.
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Cristina* está entre as mais de mil mulheres acolhidas pela Casa Abrigo de Chapecó nos últimos anos. Mãe de quatro filhos, ela foi para o local após o ex-marido invadir a casa em que morava na noite de Natal e agarrá-la pelo pescoço. Diante do desespero e da agressão, a filha, de apenas 4 anos, desbloqueou o celular da mãe e acionou o Botão do Pânico. A mulher já havia ensinado às crianças como usar a ferramenta, caso o pai brigasse com ela, o que foi crucial para salvá-la.
— Eu chamei a polícia e eles me trouxeram para o abrigo. O abrigo é a parte principal de eu estar viva. Tirando a minha filha, que foi aquela que me salvou — afirma.
O abrigo de Chapecó foi moradia para Cristina e os filhos por algumas semanas. A vítima deixou o local após conseguir uma medida contra o agressor, que não está preso.
— Ele não voltou a me incomodar porque tem medo da medida protetiva. Ele pode ser preso. Eu sei que eu posso contar com o botão do pânico, posso contar com a casa abrigo e eu acho que isso deixa eu aliviada. Por causa que, se acontece alguma coisa, eu sei pra onde ir — complementa.
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Outra sobrevivente, Cecília* também teve a vida salva pela casa de acolhimento de Chapecó após agressões causadas pelo ex-namorado enquanto estava grávida. As violências físicas começaram na gestação e, conforme a barriga crescia, os ataques se tornavam mais violentos. Em uma das vezes, o agressor tentou pisar no ventre da vítima.
O ápice do terror ocorreu no próprio hospital, logo após o parto, com o filho recém-nascido internado no quarto.
— Eu estava recém-parida e ele dizia que eu ficava olhando para outros homens. Me forçou a ir ao banheiro, tirar o jaleco do hospital porque senão os homens iam olhar. Em alguns momentos eu pedi ajuda para as enfermeiras, só que elas não entendiam. Um dia, já em casa, ele colocou uma faca embaixo do travesseiro. Deu tempo só de pegar a criança e sair — conta.
Após o episódio de tentativa de feminicídio, Cecília procurou uma delegacia e denunciou o ex-companheiro. Sem ter para onde ir e com medo de ser encontrada pelo agressor, foi acolhida no abrigo de Chapecó, junto com o filho, e conseguiu a medida protetiva contra o homem, que não foi preso.
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— Eles [o abrigo] não só me acolheram, mas também me deram uma nova versão de mim mesma, que nem eu conseguia procurar, porque literalmente eu estava perdida. Eu não sabia mais nem dizer quem eu era, só pensava naquela situação que tinha acontecido — fala.
Apenas 11 cidades de SC possuem abrigos de acolhimento
Gabriela*, Cristina* e Cecília* conseguiram assistência dos abrigos de acolhimento por serem moradoras de uma das 11 cidades de Santa Catarina que oferecem a moradia. Mas para as vítimas de violência doméstica dos outros 294 municípios do Estado, que não possuem proteção institucional, o destino pode ser diferente. Isso porque, segundo Juliane Flaviana Habitzreuter, chefe de Proteção Social do abrigo de Blumenau, as vagas da casa de acolhimento são destinadas apenas a moradoras da cidade, sem poder receber vítimas de outras cidades. A mesma regra é válida para os abrigos de outras cidade.
— Percebemos que muitos municípios não ofertam esse tipo de atendimento e a mulher acaba ficando naquela situação de violência por não se sentir segura. Mais grave são os municípios pequenos. Blumenau, por exemplo, acaba recebendo várias solicitações de acolhimento de mulheres vítimas de violência, porque os municípios menores, e até alguns municípios grandes também, não implantaram o serviço ainda.
A falta de casas de acolhimento sobrecarrega também o sistema da Polícia Militar. Segundo a tenente-coronel Naíma Huk Amarante, chefe da Secretaria de Programas Institucionais da PMSC, uma das dificuldades do programa Rede Catarina é não ter para onde encaminhar as mulheres.
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— Às vezes a gente tira a mulher de dentro de casa só com a roupa do corpo. Não tem para onde levar, não tem fralda para trocar, não tem uma mamadeira para dar para a criança. A gente precisa que as prefeituras, que entidades, adotem esse programa e façam com que essa mulher tenha um local seguro para ir — salienta.
O trabalho dentro dos abrigos vai muito além de oferecer teto e comida, embora o cuidado humanizado seja o primeiro passo do tratamento. A rotina interna inclui suporte para reinserção no mercado de trabalho e a transferência imediata de escola para os filhos da vítima. Paralelamente, os abrigos promovem grupos reflexivos. O contato com relatos de outras mulheres, que passaram pelo mesmo sofrimento e conseguiram a independência, funciona como um motor terapêutico potente.
— No momento em que a mulher chega, a educadora oferece uma água, um banho, uma troca de roupa e uma refeição. Dizemos: “primeiro você vai se alimentar e descansar, depois a gente conversa”. Isso faz total diferença — explica Juliane Flaviana Habitzreuter, chefe de Proteção Social do abrigo de Blumenau.
Fundado em 2001, o abrigo de Blumenau recebeu o nome de Casa Eliza em homenagem à Eliza, vítima de feminicídio em 2003 na cidade. Na ocasião, ela saiu do abrigo acompanhada dos quatros filhos. Ao chegar em casa, pensando que o ex-marido ainda estava preso, foi surpreendida e morta com golpes de faca. Desde então, o local já acolheu 1.550 mulheres e uma estimativa de 4 mil crianças e adolescentes, filhos das vítimas.
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— Quando a mulher chega no serviço de acolhimento, ela chega sempre muito abalada, muito sensibilizada, nervosa com aquela situação. Com o atendimento, tanto da equipe técnica, assistente social, psicóloga, como das educadoras sociais, ela acaba se sentindo mais segura e saindo do abrigo um pouco mais tranquila.
Deixar o abrigo não significa que a vítima deixará de ser acompanhada pelo sistema de assistência social das cidades. Em Blumenau, por exemplo, a mulher continua tendo acompanhamento psicológico e assistência necessária. Na Casa Abrigo de Chapecó, as mulheres são encaminhadas para o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), onde continuam com atendimentos.
— Elas são inseridas em acompanhamento em grupo de mulheres vítimas de violência, para que elas possam se fortalecer na troca de experiências nesse grupo e que não entrem novamente no ciclo de violência — diz Daiane Nadelitti Nardon, psicóloga responsável pelo abrigo municipal de Chapecó.
Até Quando? Feminicídios: uma tragédia social
“Até Quando? Feminicídios: uma tragédia social” é uma série especial com quatro reportagens produzida pela NSC. Os conteúdos, apurado ao longo de quatro meses, tem objetivo de provocar reflexão e contribuir para o enfrentamento da violência contra a mulher. Ao dar voz a vítimas, familiares e especialistas, a série busca não apenas informar, mas sensibilizar a sociedade e contribuir para a construção de caminhos que ajudem a interromper o ciclo da violência.
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*Os nomes foram modificados para preservar a identidade da vítima.

