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CIÊNCIA

Sorvete, remédios e sistemas: conheça inovações que surgiram em pesquisas na UFSC

Universidade que atualmente tem quase 100 bolsas de pesquisa congeladas pelo Ministério da Educação tem histórico de inovações

20/09/2019 - 05h10 - Atualizada em: 26/09/2019 - 09h51

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Lucas
Por Lucas Paraizo
Marcella Di Pietro é uma das pacientes que provou o sorvete desenvolvido para pessoas com câncer
Marcella Di Pietro é uma das pacientes que provou o sorvete contra sintomas da quimioterapia
(Foto: )

Mesmo com o desbloqueio de bolsas anunciado pelo Ministério da Educação (MEC) na última semana, instituições de ensino superior em Santa Catarina continuam com verbas para novas pesquisas congeladas desde o início do ano, em cortes feitos pelo governo federal em maio, junho e setembro. Somente na Universidade de Santa Catarina (UFSC) e na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) são 109 auxílios para pesquisadores que não foram liberados. Conforme dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Santa Catarina foi o sexto estado do Brasil com mais bolsas cortadas em 2019.

Os cortes afetam principalmente as bolsas de mestrado e doutorado, impedindo o início de novas pesquisas que poderiam entrar para o histórico de inovações e descobertas que surgiram em laboratórios de universidades catarinenses. São pesquisas que hoje afetam a pomada comprada na farmácia, o alívio para duras sessões de quimioterapia, a produção de ostras e mariscos no Litoral, entre vários outros avanços.

O primeiro remédio 100% brasileiro

Alguns dos principais avanços científicos que nasceram na UFSC vieram do laboratório de farmacologia com o professor João Batista Calixto. Foi em uma pesquisa encabeçada por ele e com outros cientistas brasileiros que, a pedido de um laboratório privado, 10 plantas da biodiversidade brasileira foram mapeadas para estudos de remédios.

Um projeto que começou em 1999 e durou 10 anos, e que em 2005 colocou no mercado o primeiro remédio 100% brasileiro, feito do início ao fim com base em pesquisas nacionais: o primeiro anti-inflamatório com base em uma planta brasileira, a erva baleeira.

— Esse projeto durou sete anos para desenvolver, com mais de 800 pacientes testados, em vários lugares do brasil. E foi um sucesso absoluto. Desde que foi lançado até hoje ele é o primeiro colocado em vendas em receituários na categoria para dor e inflamação em medicamento tópico. A empresa gastou nesse projeto todo, das 10 plantas, US$ 7,5 milhões (cerca de R$ 30 milhões atualmente). Em dois anos e meio esse medicamento pagou todo esse investimento. Isso tornou a UFSC um destaque — lembra o professor Calixto.

Após esse projeto, as pesquisas com plantas do cientista renderam outros vários produtos encontrados no mercado, como um novo tipo de calmante natural e um creme cosmético contra o envelhecimento — produto que gerou, em 2008, os primeiros royalties recebidos pela UFSC por conta de um desenvolvimento para a indústria.

Sorvete contra sintomas da quimioterapia

Tratando um linfoma de hodgkin e internada durante as sessões de quimioterapia no ano passado, a modelo Marcella Di Pietro, de 21 anos, sofria com a falta de apetite e os enjoos, não conseguia comer e tinha o sistema digestivo sensível por causa do tratamento. Por indicação da nutricionista que a acompanhava no Hospital Universitário de Florianópolis, provou um sorvete que estava sendo testado para aliviar os sintomas dos pacientes em tratamento contra o câncer. Deu certo.

— Eu passei a consumir o sorvete todos os dias, porque era algo que eu conseguia comer sem me dar enjoo, até nos dias em que nem água eu aguentava beber. Eu precisava cuidar da alimentação e o sorvete ainda era extremamente saudável — lembra a jovem, que hoje está recuperada.

O sorvete em questão foi desenvolvido por pesquisadoras da UFSC e testado no HU com pacientes da oncologia. Com características de complemento alimentar e anestesiante sensorial, ele foi feito pensando na aceitação dos pacientes que sofrem com os efeitos colaterais da quimioterapia. A fórmula contém açúcar orgânico, polidextrose (uma fibra solúvel) e no lugar da proteína do creme de leite e da gordura vegetal hidrogenada usa whey protein isolado e azeite de oliva sem sabor. Além de saudável e agradável para o paladar afetado dos pacientes, ele também humaniza o tratamento.

A pesquisa surgiu no programa de Pós-Graduação de Residência Integrada Multiprofissional em Saúde do HU da UFSC, com envolvimento das pesquisadoras Francilene Kunradi Vieira, Paloma Mannes e Raquel Kuerten de Salles.

Atualmente o sorvete é fabricado pela empresa Ypy Sorvetes, de Florianópolis, e vendido para pacientes que estão fazendo o tratamento em casa. Conforme a marca, atualmente há um processo em andamento para que o alimento seja oferecido também em hospitais conveniados.

Cultivo de moluscos marinhos

Desde os anos 1990 o Laboratório de Moluscos Marinhos da UFSC tem influência determinante na produção de ostras em Santa Catarina, que representa 98% de toda a produção nacional. É do laboratório que saem as chamadas sementes das ostras, responsáveis pelo cultivo na região, visto que na coleta natural dessas sementes no mar não há volume suficiente para a demanda comercial.

Segundo a UFSC, somente na safra de 2016-2017 foram cerca de 217 vendas de sementes do laboratório, que oscilam entre 50 mil e um milhão de unidades. O laboratório atende toda a demanda local de cultivo e vende os excedentes, o que torna o espaço o principal no setor de moluscos no Brasil. E tudo começou com pesquisas em parceria da universidade com pescadores artesanais e a Epagri, que por quase três décadas avançaram e aumentaram a entrega mensal de sementes de ostras de 400 mil em 1997 para mais de 40 milhões em 2010.

Sistema do SUS para mais de 2 mil municípios

Desde janeiro deste ano um convênio do Ministério da Saúde com a UFSC faz com que cerca de 200 cidades no Brasil utilizem o sistema e-SUS AB, desenvolvido no Laboratório Bridge, vinculado ao Centro Tecnológico da UFSC (CTC). Em junho o aplicativo foi premiado nacionalmente no 19º Simpósio Brasileiro de Computação Aplicada à Saúde, no Rio de Janeiro.

O aplicativo torna todo o registro de atividades coletivas realizadas fora das Unidades Básicas de Saúde (UBS) digital, sem a necessidade de relatórios em papel — como acontecia até então no SUS. Ele integra o Projeto e-SUS, feito pelo Laboratório Bridge desde 2013 e que engloba uma solução que já é aplicada em cerca de 2600 cidades, segundo a UFSC. O e-SUS tem o Prontuário Eletrônico Cidadão (PEC), Coleta de Dados Simplificada (CDS) e os aplicativos mobile de Atenção Domiciliar, Território e Atenção Coletiva.

O Bridge tem 118 colaboradores, entre bolsistas graduandos e pós-graduandos da UFSC, profissionais contratados e professores orientadores.

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