Após sair da pequena cidade de Paranhos, no Mato Grosso do Sul, Ava Tupã Mbaraka precisou se adaptar bem mais de uma vez para correr atrás dos próprios sonhos, que iam para além da Reserva de Pirajuí. Uma das transformações foi no próprio nome, que antes em Guarani Nhandeva, passou a ser Magno Adiala.
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O nome do indígena vem acompanhado dos títulos que conquistou ao longo da trajetória acadêmica. Magno é formado na área de ciências humanas pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), com especialização em Gestão Educacional e Projetos Sociais pela Faculdade Estratego em 2021 e Mestre em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em 2023.
Veja fotos de Magno
A jornada não foi fácil. O indígena precisou enfrentar um idioma desconhecido, dificuldades financeiras, trajetos longos e perigosos até a escola mais próxima, além do preconceito em sala de aula por conta da origem.
A busca pelo sonho o trouxe para Santa Catarina, cerca de 1,1 mil quilômetros longe da cidade onde nasceu. Após formado pela Udesc, Magno retornou para a terra que foi o seu lar a maior parte da vida, e atualmente atua como professor na rede municipal de Japorã, onde leciona História, e na rede estadual, como docente de Filosofia e Sociologia.
Para Magno, a Lei de Cotas, que abriu os seus caminhos no passado, é um avanço para a ocupação da população indigena nos espaços acadêmicos.
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— As universidades passam a valorizar as diversidades ,através dela retornamos para a nossa comunidade com mais força para lutar pelos direitos e desafios impostos e claro espalhar a sua importância para a nossa sociedade — afirma.
Os primeiros passos
As dificuldades para traçar a trajetória acadêmica como indigena começou muito cedo na vida de Magno, que foi alfabetizado em Guarani Nhandeva, idioma local lecionado nas escolas indígenas que estudou no interior de Mato Grosso do Sul.
Foi somente no 4º ano do ensino fundamental que Magno teve uma professora não indígena pela primeira vez. Ele relata que teve muita dificuldade para compreender a língua. No ano seguinte, os desafios foram ainda maiores ao ingressar em uma escola da rede estadual.
— Tive que decorar muitas perguntas com respostas, mas não sabia o que eu decorava (…). Nessa escola muitas vezes fomos obrigados a falar somente língua portuguesa — relata.
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Já no ensino médio, estudando a noite, a nova escola ficava a 5 quilômetros de distância da aldeia. Mesmo com o incentivo dos pais, os obstáculos eram frequentes na rotina. Os livros caros eram comprados pelo irmão mais velho e a locomoção para a escola dependia do único ônibus que circulava na comunidade.
Sonho do ensino superior
A trajetória universitária começou em 2010 na Universidade Estadual de Mato Grosso Do Sul (UEMS), unidade de Mundo Novo, após Magno ingressar pelo Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies), do governo federal. Novamente, a locomoção foi uma das principais dificuldades do universitário.
— A nossa região é localizada na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, onde o índice de violência furto, roubo e algumas vezes assassinato á alto. Iniciamos o nosso curso, mas durante o primeiro ano houve tempo de eleição partidário para o município e isso provocou perseguições entre os parentes indígenas — conta.
Além disso, Magno relata que em dias de chuva era impossível transitar na estrada que ligava a aldeia à vila e por muitas vezes não conseguia concluir o trajeto.
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Já dentro da universidade, o preconceito de outros acadêmicos que estranhavam a presença de indígenas marcou a rotina do estudante na época. Em paralelo, a dificuldade financeira para compra de apostilas e transporte eram uma sombra constante no dia a dia do mato-grossense.
Uma das etapas mais marcantes neste período foi a participação na oficina Rexãkã, “iluminado” em guarani, após ingressar na Faculdade Intercultural Indigena. Magno lembra que o projeto de extensão realizava ações voltadas para ensino do audiovisual para membros de aldeias de diferentes etnias da região. Em 2017, Magno concluiu o curso na área de ciências humanas.
Chegada em SC foi marcada por desafios e conquistas
A Udesc virou o novo cenário na vida do indigena mato-grossense em 2020. Com orgulho, o Guarani Ñandeva relembra que conseguiu a vaga no Programa de Pós-Graduação em História por meio das Políticas de Ação Afirmativa da universidade.
No entanto, logo no início, Magno teve que se adaptar ao ensino a distância (EAD), quando a pandemia do Covid-19 esvaziou todas as salas de aula. O pós-graduando teve que trancar uma das disciplinas devido à conexão precária de internet na aldeia.
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Depois, a chegada nas terras catarinenses foi marcada por desafios de adaptação. Junto com esposa, cunhada e filhos, Magno foi acolhido por uma comunidade indigena em Palhoça, a Pira Rupa, em uma realidade bem distante do que conhecia até então.
O primeiro trabalho na capital catarinense surgiu a partir de um convite do cacique da aldeia. Magno atuou como professor no ensino de jovens e adultos (EJA) da comunidade que se tornou o seu lar.
A família morou por cerca de um mês na casa de passagem e depois ganhou uma casa comunitária, com cômodos privados. Ainda no local, Magno e a esposa participaram de trabalhos voluntários que contribuíram para a melhoria da infraestrutura da aldeia que os acolheu.
— Apesar da UDESC ser longe da minha aldeia, acredito que fazer o bem para a comunidade foi o que me incentivou a realizar essa pesquisa, estudando em Florianópolis no Programa de Pós-Graduação em História, área de concentração História do Tempo Presente — destaca.
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Para o indigena, sua trajetória, conquistas e formações, que o fizeram retornar para sua aldeia e hoje contribuir na construção de sonhos de crianças, não teriam sido possíveis sem a Lei de Cotas.
— Através dela espalhamos a esperança de mudar a nossa sociedade, pois acreditamos que as cotas foram resultado de lutas do nosso movimento, povos excluídos que no decorrer da história foram esquecidos pela legislação (…). Ela não é uma coisa doada, mas sim conquistada — defende.
Apesar de ser um passo importante para a redução das desigualdades, o professor avalia que esta luta exige outras política públicas voltadas aos grupos mais vulneráveis
— Sou fruto dessa luta e levo comigo que a sua permanência é muito importante pois abre caminho para melhorar a minha vida, ao mesmo tempo ajudando a minha comunidade — finaliza.
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Atualmente, Magno continua como membro do Laboratório de Estudo Pós-coloniais e Decoloniais da Udesc.
*Sob supervisão de Leandro Ferreira




