A gastronomia “típica de Florianópolis” nasceu da convivência com o mar, da presença açoriana e do modo de vida das comunidades que cresceram em torno da pesca, dos moluscos e das relações de vizinhança típicas da Ilha. 

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Por isso, para falar da culinária manezinha, é preciso olhar para ingredientes e preparos que atravessaram gerações e continuam ligados à identidade local. Peixes, como a tainha e a anchova, berbigão, camarão e ostras seguem como símbolos de uma cidade que aprendeu a transformar cultura e tradição em sabor.

A importância do mar na culinária de Florianópolis

Os açorianos, em suas ilhas de origem, não viviam da pesca, embora, desde lá, tivessem uma relação afetiva com o mar, foi no Brasil que aprenderam, provavelmente com os indígenas que já viviam aqui, a tirar o sustento das águas. Assim, a culinária manezinha se fez a partir da herança de povos originários e colonizadores. 

Daí vem o apreço pelos pescados, e moluscos — há mais de cinco mil anos, os “homens do sambaqui” já extraíam mariscos e outros moluscos dos costões e praias do litoral catarinense —, no pirão, nos caldos e em preparos que valorizam os ingredientes frescos sem excesso de intervenções. É uma culinária marcada pela simplicidade, pela fartura possível e pelo vínculo com a vida comunitária.

Essa influência também aparece na relação entre comida e convivência. Desde o preparo, muitos pratos tradicionais estão ligados a encontros de família à mesa e a celebrações em que o comer faz parte de uma experiência maior. A gastronomia local guarda esse traço afetivo que serve tanto ao paladar quanto à memória. 

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Tainha, o peixe que virou símbolo da Ilha, e a força da maricultura

Poucos ingredientes representam tão bem Florianópolis quanto a tainha. Desde sua pesca, ela está ligada a um ciclo cultural que mobiliza bairros, comunidades e famílias do norte ao sul da Ilha. A temporada da pesca artesanal movimenta a cidade e reforça um sentimento de pertencimento, especialmente nas regiões onde essa tradição permanece viva. Há até uma certa competição entre as praias, embora todos torçam sempre por uma boa safra para todos.

Quando chega à mesa, assada, grelhada, em postas fritas (de preferência acompanhada de um bom pirão), a tainha carrega esse valor simbólico, que remete ao trabalho coletivo, ao conhecimento passado entre gerações e à relação direta com o mar. 

Outro ingrediente importante para entender a culinária da capital é o berbigão. Pequeno e delicado, ele se tornou um dos sabores mais característicos de Florianópolis. Seu uso em receitas tradicionais revela uma cozinha que se construiu a partir da proximidade com mangues, marés e áreas de coleta.

O berbigão representa bem a lógica ancestral de aproveitar o que o território oferece e, na gastronomia, transformar isso em prato de forte identidade. Seu prestígio até hoje mostra como a gastronomia local preserva ingredientes que fazem parte da história da cidade e da vida cotidiana de muitas comunidades. 

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Se o berbigão carrega uma dimensão mais tradicional, as ostras mostram como Florianópolis soube unir cultura, paisagem e atividade econômica. A cidade é, hoje, o maior produtor de ostras do Brasil. A ostra é símbolo de regiões da cidade fortemente associadas à relação com o mar, como Ribeirão da Ilha e Santo Antônio de Lisboa e, todos os anos, a cidade comemora essa riqueza com uma feira gastronômica que une dezenas de restaurantes em torno desse molusco que é a cara, e o sabor, de Floripa.

Comer em Florianópolis também é uma forma de conhecer a cidade

Talvez por isso a gastronomia seja uma das maneiras mais diretas de entender Florianópolis. A cidade pode ser lida por suas praias, por sua arquitetura, por sua história ou por suas festas. Mas também pode ser compreendida pelo que serve à mesa. Há algo de muito revelador em uma capital cuja identidade culinária permanece tão ligada ao mar, à herança açoriana e às práticas das comunidades tradicionais.

A tainha, o pastel de berbigão, a sequência de camarão são formas de narrar a Ilha. Cada um, à sua maneira, revela algo da formação da cidade, de seu ritmo e de sua cultura. Os pratos ajudam a contar a história da cidade porque nasceram dela. Vieram do mar, da memória, da adaptação ao território e da continuidade de saberes que atravessaram o tempo, se tornaram representações de um povo e fazem parte da cidade. E é isso que torna a gastronomia de Florianópolis tão especial.