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Pescadeiras

"Tenho o mar nas veias", afirma Naca Cabral Mence, pescadora há 57 anos

A Naca menina, a mais velha entre seis irmãos, gostava tanto de acompanhar o pai nas pescarias que nem reclamou de ter sido retirada da escola. Tampouco das marcas no corpo da corda amarrada à cintura para que calças largas do pai não lhe caíssem

10/09/2019 - 12h40 - Atualizada em: 10/09/2019 - 12h46

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Por Ângela Bastos
Naca é a mais tradicional pescadora na Praia da Cruz, em Governador Celso Ramos, na Grande Florianópolis
Naca é a mais tradicional pescadora na Praia da Cruz, em Governador Celso Ramos, na Grande Florianópolis
(Foto: )

Vênus, o planeta mais brilhante, ainda cintila no céu de maio quando uma lâmpada se acende na casa de Nair Maria Cabral Mence, 68 anos, a Naca. São 5h e a mulher de estatura pequena e voz forte abre a porta. Minutos depois, desce a rua sem saída que leva à Praia da Cruz, em Governador Celso Ramos, agasalhada em casacos e envolta pela escuridão. Os cachorros se assustam e latem. Mas os vizinhos permanecem sossegados. Sabem que é Naca a caminho do mar.

É o começo de mais um dia de trabalho para a pescadora artesanal mais antiga do Canto dos Ganchos, comunidade pesqueira da cidade que fica na Grande Florianópolis. Somam-se 57 anos de profissão desde que, aos 11, ela começou a pescar com o pai, dono de uma canoa de um pau só na Praia do Cabral, sobrenome da família, hoje Baía das Bromélias, na mesma cidade.

A menina, a mais velha entre seis irmãos, gostava tanto de acompanhar o experiente pescador que nem reclamou de ter que deixar a escola. Tampouco se importava com as marcas das cordas amarrada à cintura para que as largas calças do comandante não lhe caíssem perna abaixo.

— Desde criança minha vida é isso. O mar é um vício que entra na gente e segue por toda a vida — diz a aposentada pelos anos de profissão, enquanto empurra a bateira de madeira para dentro da água.

Naca pesca sozinha. Já teve filhos e amigas como parcerias, mas prefere trabalhar de forma solitária. Uma forma de agradar o mar, que gosta de silêncio.

A pescadora se casou aos 16 anos e aos 35 ficou viúva e com cinco filhos para criar. Foi o mar, diz, que lhe deu sustento e renda para alimentar e educar as crianças. Formou duas professoras, um pintor e dois pescadores profissionais. Avó de cinco netos e quatro bisnetos, ela brinca:

Com o mar sou tudo, sem ele sou nada.
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Naca tira os peixes da rede

Tubarão, tempestades e os dentes da caranha

Naca tem fotografias que comprovam suas histórias. O maior peixe que pescou foi um cação de 62 quilos. Nesse dia, lembra, precisou de grande esforço para colocar o bicho mais pesado do que ela dentro da embarcação.

— No começo até me assustei, pois o peso era tanto que pensei ser um defunto.

O maior peixe captura por Naca tinha mais de 60 quilos
O maior peixe captura por Naca tinha mais de 60 quilos
(Foto: )

O segundo maior peixe capturado foi uma miraguaia de 45 quilos.

Nas redes de Naca também caiu um tubarão de 32 quilos, bicho valente cheio de dentes e que cortou o cabo da tralha da rede.

— Mas eu o peguei: batendo na cabeça com o pedaço de pau que sempre carrego na embarcação — explica.

Entre outras espécies ferozes que capturou, Naca recorda do dia em que por pouco não sentiu a mordida poderosa de uma caranha. Muito agressivo, o peixe dava pinotes dentro do barco mostrando os dentes grandes e afiados.

— Eu corri para a proa e meu filho para a popa, enquanto a danada dava pulos dentro da bateira — recorda.

Naca tem orgulho em falar dos dias em que tirou das redes 150, 200 quilos de peixes, quantidade que nem cabia na embarcação, que quase afundou. Do tempo em que precisava pedir ajuda para "despescar". Num desses dias foram 12 miraguaias. Total: 220 quilos.

Com o pai, Naca aprendeu muitas lições. Foi ele também que a ensinou a nadar e a boiar. Ela fez o mesmo com os filhos. Um dos ensinamentos nunca esquecido foi dar as costas para o mar.

Se estou numa pedra ou num costão, jamais me viro. É preciso muito cuidado, pois o mar é vivo.

Naca também já enfrentou tempestades severas. Numa delas, a força do vento era tanta que arrastou o bote para a Barra do Rio Tijucas, uns 30 quilômetros adiante. Outro susto foi durante um arrasto de camarão.

O motor estava ligado e o barco andava bem devagar. O vento chegou de repente e ela foi jogada com botas e roupa de oleado para dentro d’água. Agarrou-se na rede, e depois no leme.

Mas a cana, a parte de metal que permite a manobra, se partiu, e teve que se segurar no pedaço que restou. Naca não sabe calcular o quanto andou, mas sabe ter sido salva por um pescador.

— Era um conhecido que tinha ido ver as redes. Ele disse que achou estranho: ‘o barco vem sozinho e cadê a Naca?’. Daí foi ver o que tinha acontecido. Aproximou-se e, então, eu soltei o leme e pulei para o bote dele — recorda, com cara de alívio.

Naca guarda fotos como memória das pescarias
Naca guarda fotos como memória das pescarias
(Foto: )

Preocupação com mudanças climáticas

Mudanças repentinas no clima intrigam a pescadora:

— Há 40, 50 anos, a gente se levantava de manhã cedo, olhava o céu e sabia se o vento viria. Hoje, não.

Para Naca, estas variações do clima se devem à poluição causada principalmente pelo desmatamento. Mas ela também acha que o pescador deveria ser mais cuidadoso:

— Eu já tirei muito lixo das redes, principalmente sacolas de plástico e garrafas PET. Não dá para levar e depois jogar fora, é preciso cuidar da natureza se não um dia tudo acaba — avisa.

Preconceito, coragem e muita paciência

Naca ouvia dizer que lugar de mulher é em casa cuidando dos filhos. Mas ela não se rendeu: cuidava das crianças, deixava a comida pronta em cima do fogão à lenha e cedinho saía para o mar. Hoje, é o orgulho da família.

Acostumada a enfrentar tubarões e tempestades, Naca não foge de um assunto assustador: o preconceito contra a mulher pescadora.

Tem muito homem machista, que acha que só eles podem pescar. Não é assim, a pescadora e o pescador são iguais.

Naca observa que a situação já foi pior.

— Ouvi muitas vezes que lugar de mulher é em casa cuidando dos filhos. Eu cuidava deles e pescava. Teve época em que os cinco estudavam, deixava tudo prontinho em cima do fogão à lenha e às 6h saía para o mar.

Com tanta experiência, Naca aconselha as mulheres que quiserem entrar para a pesca:

— Em primeiro lugar é preciso gostar do mar, pois não é uma vida fácil. Em segundo, tem que ter coragem para lidar com os desafios. Por último, paciência. A gente precisa entender sobre redes, vento, lua. Mas é o mar quem comanda.

Naca conta sentir orgulho do trabalho, de si própria e de ser chamada para falar sobre a profissão em universidades, congressos, encontros de trabalhadores.

— Sinto que meus filhos também se orgulham da mãe que têm, pois os criei assim, remando e pescando, indo e vindo do mar.

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