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Triângulo vermelho do crime: como a PM busca combater o tráfico em três comunidades do norte da Ilha

Pequenas comunidades de Florianópolis, Papaquara, Morro do Mosquito e Vila União formam rota de disputa por pontos de venda de entorpecentes, visadas por facções criminosas rivais

24/02/2018 - 00h00

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Por Redação NSC
No fim da tarde desta sexta-feira, a PM voltou a fazer operação no acesso à Vila União
No fim da tarde desta sexta-feira, a PM voltou a fazer operação no acesso à Vila União
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Comunidades pequenas localizadas nas proximidades das principais praias de Florianópolis, a Vila União e o Morro do Mosquito, na Vargem do Bom Jesus, e o Papaquara, na Vargem Grande, ambas no Norte da Ilha de Santa Catarina, formam o triângulo vermelho da disputa de facções criminosas. Até julho do ano passado – os dados completos do ano por bairro ainda não foram divulgados –, metade dos assassinatos na cidade havia ocorrido naquela região.

O Morro do Mosquito ganhou destaque por ter sido o palco do estopim dos ataques a veículos e bases policiais na última terça-feira. A procura de usuários de drogas torna os pontos nas três localidades rentáveis, ainda mais durante a temporada de verão, quando a ocupação cresce. Além do comércio local de entorpecentes, são bases para a distribuição de maconha, cocaína e crack vendidos na orla de praias como Ingleses, um dos bairros mais populosos da Capital.

Dominada por uma facção paulista, a comunidade sofreu tentativa de invasão por integrantes do grupo criminoso rival, com base em Santa Catarina, sediado na Vila União.

Os dois pontos, aliás, são separados apenas pela SC-403. Mais distante dali, a três quilômetros em linha reta, o Papaquara é controlado por faccionados de São Paulo. O curto espaço entre as comunidades, aliada à alta rentabilidade do tráfico, fez explodir em 2017 e continuar em 2018 as tentativas de invasão de uma facção na área da outra.

As polícias e o poder público enfrentam dificuldades para retomar os espaços e torná-los livres das organizações, mesmo que as comunidades tenham territórios pequenos. No Mosquito, por exemplo, são apenas duas ruas, enquanto no Papaquara somente o trecho de uma preocupa mais as polícias.

Os motivos são diversos: começam pela localização geográfica, passam pela atuação de adolescentes na criminalidade e chegam à ausência de ações sociais de ocupação.

– São comunidades pequenas onde se vê quem entra e sai, por isso temos dificuldades de se infiltrar sem sermos percebidos. Além disso, há constante troca de residências por parte dos criminosos, o que dificulta o cumprimento de mandados de busca e apreensão. Também há o uso de adolescentes para o comércio de drogas e a falta de informação da comunidade, que acaba ajudando o traficante, e não a polícia – argumenta o delegado Danilo Bessa Brilhante, coordenador da Central de Investigação da Polícia Civil no Norte da Ilha.

A configuração de cada localidade exige uma ação diferente. No Mosquito, por exemplo, a maior parte da área é de preservação ambiental, motivo para a demolição de casas. Desde janeiro, 12 foram derrubadas pela prefeitura. Todas eram ou seriam usadas por traficantes, explica o comandante do 21º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Sinval dos Santos Silveira Junior. Parte delas é alugada pelo tráfico para pessoas de fora. A retirada dos imóveis em parte do Papaquara também é uma opção, principalmente na região próxima ao mangue onde foram encontrados pelo menos três corpos no ano passado.

Já na Vila União, a presença da criminalidade ajuda a impedir ações sociais de ocupação. Em abril de 2017, a localidade assistiu à chacina de quatro homens em uma tentativa de invasão da facção rival. Esses ataques fizeram com que nos últimos anos as bocas de fumo de cada um dos três pontos mudasse de controle diversas vezes.

– Entramos todos os dias nas comunidades. Mas hoje não temos capacidade de permanecer dentro delas. O que precisamos é tornar a presença da polícia rotineira e construir vínculos sociais – opina Silveira Junior, que lamenta a falta de ações de continuidade do poder público nesses locais.

A vila teve nova barreira da Polícia Militar no fim da tarde de sexta para reforçar a presença dos agentes no acesso à comunidade.

Prefeitura afirma só agora ter condições para agir

Mesmo que os problemas na região sejam bastante conhecidos, a prefeitura diz que somente agora conseguiu abertura com o governo do Estado para agir nas comunidades. Ainda sem prazo definido, a secretária da Assistência Social, Katherine Schreiner, pretende estabelecer um cronograma de trabalho para as três áreas. Para isso, conta com apoio da secretaria estadual. Segundo Katherine, em 2017 não foi possível aumentar o trabalho pela falta de profissionais:

– Para esses locais, temos um Cras [Centro de Referência de Assistência Social] em Canasvieiras e outro em Ingleses, onde fazemos trabalhos com atendimentos de psicólogos e assistentes sociais. Com a violência aumentando nessas regiões, temos projetos para crianças e adolescentes, mas não conseguimos ter mais programas ali dentro.

A dificuldade maior, diz a secretária, é a violência instalada nas três comunidades:

– Agora, com a Secretaria de Segurança Pública fazendo esse trabalho intensivo, conseguimos entrar com trabalho social.

Essa ponte com o governo do Estado é o que precisamos para trabalhar nas comunidades.

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Tráfico se expandiu pela área a partir do Siri

A dominação de antigos traficantes que resolveram expandir a área de atuação, a conexão com as facções criminosas e até a remessa de drogas via Paraguai fizeram crescer a região do triângulo criminoso entre Siri, Papaquara e Mosquito, no Norte da Ilha de SC. Fontes dos setores de inteligência afirmam que tudo começou no final da década de 1990 e começo dos anos 2000 com o crescimento acelerado da favela do Siri, na região dos Ingleses, principal acesso às dunas.

Criminosos se instalaram no local que carecia da presença do poder público em geral e passaram a vender drogas para usuários do Norte da Ilha. Eles também erguiam os barracos e os alugavam a preço baixo para famílias pobres. Adolescentes e jovens eram recrutados por donos da área. O local ficou conhecido como reduto de violência e havia assassinatos com frequência por dívidas ou acertos de contas.

Um dos mais conhecidos é Damacir Cândido, preso na Operação Matuto da Polícia Civil em 2011. Ele foi condenado e permanece preso. O detalhe é que, conforme investigações policiais, o grupo dele teria mudado de facção (para a de SP) e, nos últimos anos, expandido a atuação em tentativas de ocupação nas comunidades próximas.

Damacir é tio do traficante Clóvis Cândido, também conhecido Cabelo, preso no Paraguai. Ambos são do Paraná e em Florianópolis se envolveram em tráfico e homicídios. Clóvis foi condenado pela Justiça na Capital e, por isso, fugiu para o país vizinho, onde se envolveu com o crime organizado – os dois sempre negaram envolvimento em defesas nas ações penais.

Cabelo foi preso em 2011 após um assalto em que a quadrilha que integrava levou R$ 2 milhões do Banco Continental em Salto Del Guairá, no Paraguai. A polícia paraguaia o capturou em Ciudad del Este, na tríplice fronteira com Paraguai, Brasil e Argentina.

Na época, a polícia catarinense suspeitou que Cabelo fosse um soldado do tráfico no Paraguai, mas que tinha envolvimento com envio de remessas de drogas e armas para Santa Catarina. O criminoso ainda não foi extraditado para o Brasil.

As conexões hoje estariam vindo de dentro da cadeia. No ano passado, Damacir Cândido foi novamente alvo de uma investigação, desta vez da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic) que incriminou 112 pessoas. Ainda não houve sentença deste processo, que tramita na Vara do Crime Organizado de Florianópolis.

Com receio do avanço da criminalidade e do tráfico de drogas, moradores das localidades planejam ir embora
Com receio do avanço da criminalidade e do tráfico de drogas, moradores das localidades planejam ir embora
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As restrições de quem vive em meio ao fogo cruzado

Queimado por criminosos três dias antes, a carcaça de um ônibus permanecia parada no trevo de acesso à Vila União na sexta-feira e é símbolo do descaso do poder público com algo essencial aos moradores das comunidades: a autoestima.

Na entrada da Rua Anarolina dos Santos, a principal do bairro, o ferro retorcido e as cinzas do veículo já amareladas sintetizam o desânimo que se abate sobre os moradores. Tanto que muitos já foram embora e largaram para trás os imóveis de uma vida. Sem vender, nem alugar. Simplesmente abandonaram para talvez retornar um dia.

– Faço parte de uma das cinco famílias antigas que ainda moram aqui. O resto tudo foi embora. Eu fiquei, mas estou cheia de contas para pagar e de vez em quando choro do nada – resume uma das remanescentes, sem querer se identificar, lamentando "a falta de paz" dos dias de hoje na Vila União.

Ali por perto, em mais uma operação de saturação na região, o coronel Sinval Júnior, comandante do 21º Batalhão, confirma a debandada de muitos, mas corrige e diz que "16 famílias" mais antigas de um total de "170" resistem em habitar as ruas do bairro.

Ruas cheias de crianças, que usam armas de brinquedo ao lado de policiais com armamento de verdade. Para eles, embora o medo seja uma constante, tudo soa tão normal, mesmo quando não seja. É o caso do comerciante Cláudio Camargo, 63 anos, que mora do lado contrário da Vila União, no Morro Mosquito. Com seu caminhão, também faz fretes, que agora não tem o alcance de outrora.

– Antes entrava em tudo com meu caminhão, aqui no morro, na Vila União, Papaquara. Hoje, não faço mais carreto para esses lugares. A gente perde um dinheirinho, mas pelo menos não se arrisca – conforma-se.

No Mosquito, o recrudescimento do crime organizado trouxe outra consequência à localidade de casas grandes e confortáveis vizinha de Ingleses: as casas à venda. Grandes e confortáveis, podem ser encontradas por preços bem abaixo dos de mercado, conta o autônomo Daniel Marafon, 52 anos. O problema, destaca, é vender:

– Ninguém quer comprar, quem vai querer se mudar para um lugar onde toda noite tem tiro.

Ali perto, no Papaquara, palco de violentos crimes em 2017, o que é considerado normal pelas pessoas mostra o quanto elas estão presas a uma situação que não permite mudar.

– Eu vivo de casa para o serviço e do serviço para casa. Sigo a vida normal – sintetiza Rosana Aparecida, de 42 anos.

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