Um balanço feito pelo Samu mostra que o número de trotes para o telefone 192 em Santa Catarina caiu 4,6% de 2024 para 2025. Mas, apesar do pequeno avanço, ainda foram 6.856 ligações enganosas. O Vale do Itajaí concentra a maior quantidade. Na prática, um a cada quatro trotes ocorreu nesta região, conforme revelam os dados recém-divulgados pelo governo do estado.
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Crianças são, na maioria das vezes, as responsáveis por essas ligações. O áudio de uma dessas chamadas, que a NSC TV teve acesso, mostra um garoto pedindo socorro para uma mulher adulta. Sem conseguir segurar o riso, ele diz que ela não respira. Preocupada, a atendente continua o atendimento, perguntando se há algum adulto por perto.
O menino confirma e diz que a mãe está ali.
Para a surpresa da profissional, quem passa a falar ao telefone é outra criança. Desta vez, uma menina. Um endereço chega a ser passado para o envio de uma equipe médica. A ligação dura um minuto e 10 segundos até se perceber que se trata de um trote. Durante o período de férias escolares, inclusive, é quando o serviço registra o maior número de ligações falsas, segundo o Samu.
— Até chegar à conclusão do trote, a gente precisa fazer algumas perguntas, ter uma escuta bem ativa, perceber o que está acontecendo atrás dessa pessoa na linha. Normalmente, a maioria dos trotes é infantil, e a gente começa a perceber as risadas ao fundo, e já verifica que é um trote — conta Maitê Luiza Waldrich, coordenadora operacional do Samu em Blumenau.
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Veja número de trotes por região
- Blumenau e região: 1.721
- Joinville e região: 1.411
- Grande Florianópolis: 907
- Balneário Camboriú e região: 873
- Criciúma e região: 728
- Chapecó e região: 444
- Lages e região: 309
- Joaçaba e região: 145
Os 6.538 trotes recebidos pelo Samu em 2025 representam 0,7% do total de chamados recebidos no ano, que foi de 914.106. Pode parecer pouco, mas, às vezes, isso significa deixar alguém realmente necessitado sem atendimento por mais tempo. E, dependendo do caso, esse tempo pode ser a diferença entre viver ou morrer. Uma angústia que Diego Dias, de Blumenau, sentiu na pele.
Há cerca de quatro meses, ele passou mal no banheiro de casa. A esposa ligou para o 192 e, com orientação técnica, Gabrielle Garbuio Nunes começou as manobras de reanimação no marido até a chegada da ambulância. Ela conta que foi tudo muito rápido. Desde a chamada ser atendida até a equipe entrar no prédio onde estava com o companheiro. A partir dali, foram 40 minutos de aflição.
O Samu conseguiu reverter a parada cardiorrespiratória de Diego.
— Numa situação onde tivesse qualquer falsa ocorrência, essa ambulância estaria em outro lugar. E qualquer minuto que eu perdesse, eu poderia estar numa situação muito pior — avalia o paciente.
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Mesmo com o preparo dos profissionais que fazem o primeiro contato com quem realizou a ligação, nem sempre é possível identificar que se trata de um trote, e a chamada é passada para o médico regulador. A coordenadora do Samu em Blumenau diz que há casos em que eles percebem os trotes ao questionar os sintomas de quem supostamente estaria passando mal.
— Em últimos casos, se ninguém conseguir barrar esse trote, a gente tem o empenho de uma viatura. O empenho de uma viatura é de extrema gravidade para algo que não é necessidade — diz Maitê.
Educar a população
Um projeto do Samu em Santa Catarina busca conscientizar crianças e adolescentes em escolas sobre os problemas trazidos pelos trotes. Somente no ano passado, o EducaSamu passou por 369 escolas — 12,5% a mais do que em 2024 — contemplando mais de 37 mil alunos em todo o Estado.
— Hoje, o trabalho do educador é justamente enfatizar a importância de dizer: “O teu trote não é uma brincadeira, ele pode custar a vida de alguém”. Então, quando você utiliza a linha de telefone, ocupando-a por um trote, você deixa de salvar a vida de outra pessoa — explica Diego Vieira, gerente de enfermagem do Samu.
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Além de um desrespeito com os profissionais que atuam no serviço e com a vida de quem precisa de atendimento, ligações falsas são crime, de acordo com o código penal. A pena prevista é de um a seis meses de detenção. No caso de o trote ser feito por menores de idade, o ato é considerado infração gravíssima pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, e o infrator pode ficar sujeito a medidas socioeducativas.


